Tom Zé chega aos 90 como o maior dodecafonista sertanejo

O cantor chega aos 90 anos, reflete sobre sua carreira, superação do ostracismo e reafirma sua marca como um verdadeiro dodecafonista sertanejo

Tom Zé chega aos 90 como o maior dodecafonista sertanejo

Crédito: Divulgação

Prestes a completar nove décadas de vida, o cantor e compositor Tom Zé celebra a marca histórica em meio a uma intensa agenda de compromissos artísticos. Entre os preparativos para exposições, lançamentos de discos e apresentações pelo país, o artista reflete sobre sua trajetória marcada pela experimentação sonora e pela constante reinvenção. Ao olhar para o passado, o criador baiano reafirma sua identidade única na MPB e se define como um autêntico dodecafonista sertanejo.

Morador do bairro de Perdizes, na zona oeste de São Paulo, há mais de 50 anos, o músico vivencia um período de celebração de sua obra. O baiano de Irará acumula projetos que incluem um disco da série “Relicário”, gravado há três décadas, além de um álbum de faixas inéditas. Mesmo diante dos marcos da idade, o baiano mantém a rotina de trabalho ativa. “Sou essa miscigenação. Esse nordestino da roça que aprendeu dodecafonismo. Um dodecafonista sertanejo”, afirma o artista ao avaliar a fusão de suas raízes acadêmicas e populares.

Tom Zé fala da trajetória e a superação do ostracismo na MPB

A consolidação de Tom Zé como um ícone da vanguarda ocorreu após um longo período de isolamento mercadológico. Entre os anos 1970 e 1980, o músico enfrentou um hiato longe dos grandes refletores e da grande imprensa nacional. A reviravolta em sua carreira veio no final da década de 1980, quando o músico norte-americano David Byrne redescobriu seus álbuns e os projetou para o público internacional, promovendo um resgate da obra do compositor baiano no próprio Brasil.

Sobre o período de esquecimento e o reconhecimento tardio de trabalhos emblemáticos como o disco “Todos os Olhos” (1973) e o álbum “Estudando o Samba” (1976), o baiano trata o tema sem mágoas. “Teve uma época que fiquei muito jogado fora aqui no Brasil. A vida é assim. Às vezes, uma coisa que tem importância não é olhada, mas esses discos voltaram. Quando fui aos Estados Unidos e tudo quanto foi país, o Brasil passou de novo a olhar. Então está tudo resolvido, né?”, declara o influente dodecafonista sertanejo.

Experimentação e invenção de instrumentos

A formação musical do artista combina a vivência no interior baiano com o aprendizado acadêmico na Universidade Federal da Bahia sob a regência do maestro alemão Hans-Joachim Koellreutter. Foi nessa transição que o cantor refinou sua capacidade de unir ruídos urbanos, objetos do cotidiano e a estética erudita às matrizes do samba e dos ritmos nordestinos. De engenhocas caseiras como o “enceroscópio” — feito com peças de enceradeiras quebradas — ao “hertzé”, o criador revolucionou os arranjos da música brasileira.

A sonoridade única construída ao longo das décadas garantiu à Tom Zé uma posição singular na história da tropicália e do experimentalismo. “Assim como o pandeiro se transformou em música, a enceradeira, o ‘buzinório’ e os instrumentos de percussão podiam ser tratados de uma maneira que viravam instrumentos”, explica o célebre dodecafonista sertanejo, ressaltando que qualquer som ao seu redor pode ser convertido em expressão artística.

Crítica social e olhar sobre a metrópole

Desde a sua estreia em 1968 com o álbum “Grande Liquidação”, o olhar sobre a urbanização e a industrialização de São Paulo esteve presente em suas letras. Músicas como “São São Paulo” e “Augusta, Angélica e Consolação” retratam a cidade através da ironia e da humanização de suas ruas e edifícios, recurso inspirado no trabalho de Adoniran Barbosa. As contradições da vida popular e as pressões do regime militar também marcaram canções emblemáticas como “Menina Amanhã de Manhã”.

Para Tom Zé, a capacidade de absorver o cotidiano das ruas e transformá-lo em poesia crítica foi o que guiou sua vasta produção musical. Ao completar 90 anos, o consagrado dodecafonista sertanejo segue como um dos nomes mais originais da cultura nacional, provando que as limitações materiais e os desafios da carreira serviram de matéria-prima para a construção de sua arte única.

Gabriel de Jesus

  • Publicado: 11/10/2026 13:18
  • Alterado: 11/10/2026 13:18
  • Autor: Gabriel de Jesus