Dança negra contemporânea brilha em Cumbuca Cheia

O grupo Afro Belô apresenta sua primeira obra após dois anos de pesquisa estética, unindo tradições ancestrais e linguagens urbanas nos palcos de Belo Horizonte.

Dança negra contemporânea brilha em Cumbuca Cheia

Crédito: Divulgação

A dança negra contemporânea ganha um novo marco criativo. O grupo Afro Belô estreia sua primeira obra autoral nos dias 13 e 14 de outubro, às 20h, no palco da Funarte MG. A montagem “Cumbuca Cheia Ou Para Onde Vão Todos os Dengos” coroa um intenso ciclo de imersão de cinco artistas negros e LGBTQIAPN+.

Matrizes tradicionais encontram a energia das ruas. A direção artística de Rodrigo Antero aproxima os fundamentos da capoeira Angola, do samba e do Congado ao compasso acelerado do funk e do Lindy Hop. Os intérpretes-criadores Clara Lins, Emanuela Santos, Flor Menezes e Freddy Áfric traduzem essa rica fusão diaspórica em movimentos afiados e potentes.

Raízes da dança negra contemporânea no palco

Dança negra contemporânea brilha em Cumbuca Cheia
(Foto: Divulgação)

O alimento surge como a grande metáfora na dança negra contemporânea. O diretor relaciona o título da obra ao conceito iorubá de ori, termo que designa a cabeça e rege as escolhas vitais de cada indivíduo. Cuidar de si reflete imediatamente no fortalecimento de toda a comunidade. A dança negra contemporânea atua como uma ferramenta viva de nutrição afetiva.

“Ori é o nosso primeiro orixá, aquilo que nos conecta mesmo, os caminhos, as nossas escolhas de vida.”

Criação coletiva e a fartura dos afetos

A pluralidade dita a construção narrativa. A intérprete Flor Menezes cunhou a expressão “cumbuca cheia” para dar materialidade à fartura gerada pelo encontro entre diferentes existências negras e trans.

“Cuidar das relações dentro do grupo também é uma forma de criar. Para o coletivo, podemos ser melhores a partir do dengo, entendendo que a desnutrição afetiva também reproduz escassez em todas as áreas da vida.”

O projeto elimina as fronteiras habituais entre o palco e a plateia. A concepção coreográfica busca o compartilhamento físico de axé e energia vital, atravessando o espectador com a mensagem de união.

Trajetória de pesquisa e intercâmbio cultural

O espetáculo consolida a pesquisa de base do Afro Belô. O dançarino Freddy Áfric plantou a semente do grupo a partir de suas experiências no CEFART e em companhias tradicionais de Minas Gerais. O coletivo utilizou os últimos dois anos para aprofundar sua linguagem na dança negra contemporânea por meio de imersões práticas.

Ações marcantes definiram a identidade do grupo antes da estreia:

  • Produção de duas edições do Festival de Danças Negras Gira Belô, ocupando Belo Horizonte e Sabará.
  • Realização de oficinas conduzidas por mestres em funk-passinho, soul, hip hop e cultura popular.
  • Imersão técnica de três semanas em Salvador para intercâmbio de saberes afrodiaspóricos.

“Não dá para explicar com palavras o que é o espetáculo. O espetáculo é para sentir, para ver, vivenciar.”

Detalhes técnicos e recursos de acessibilidade

A montagem tem 75 minutos de duração e classificação indicativa livre. As duas sessões programadas contam com a interpretação de Marcos Andrade em Libras. Espectadores com sensibilidade auditiva devem atentar para o uso de ruídos metálicos pontuais durante a execução da trilha sonora.

A direção musical leva a assinatura de Lamartine, acompanhado pelo ritmo marcante dos músicos Pedroka e Tadeu Moura. O edital Fomento BH financiou a temporada por meio dos recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).

A cultura pulsa e exige movimento. Quem busca presenciar a força criativa das tradições afro-brasileiras encontra na Funarte MG o cenário ideal. A obra prova o poder transformador de espaços que fomentam a dança negra contemporânea, materializando sonhos coletivos em arte de extrema excelência.

Leonardo Nogueira

  • Publicado: 10/10/2026 13:00
  • Alterado: 10/10/2026 13:03
  • Autor: Leonardo Nogueira