Muito tempo no celular faz mal? Estudo responde a pergunta
Relatórios semanais geram culpa e alívio no celular, mas especialistas questionam se métrica mede bem-estar real
- Publicado: 15/09/2026 16:25
- Alterado: 15/09/2026 16:25
- Autor: Juliana Marinelli
Olhar a notificação do relatório semanal de uso do celular virou uma espécie de pequeno ritual de culpa. Se o número subiu, vem a sensação de que passamos tempo demais diante da tela; se caiu, suspiramos aliviados. Mas será que essa conta realmente diz alguma coisa sobre nosso bem-estar?
Um dos maiores estudos já realizados com dados objetivos de uso de celular reforça justamente essa ideia. Liderada por pesquisadores da Universidade de Oregon, em colaboração com o Google Research, a pesquisa acompanhou mais de 10 mil adultos nos Estados Unidos e analisou mais de 250 mil dias de uso dos aparelhos. Publicados em 2025 na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), os resultados encontraram pouca evidência de uma relação significativa entre a quantidade de uso do smartphone e o bem-estar mental.
O achado muda o foco da conversa. Em vez de perguntar apenas “quantas horas você passa no celular?”, talvez devêssemos perguntar: o que acontece durante essas horas? O relógio registra os mesmos sessenta minutos para uma videochamada com alguém que mora longe, para estudar, resolver uma urgência de trabalho ou permanecer preso à rolagem infinita de um feed. O aparelho é o mesmo. A experiência, não.

É justamente essa ambivalência que me interessa quando estudo nossa relação com o smartphone. O tempo é uma informação importante, mas sozinho não explica a qualidade da experiência digital.
A ciência mais recente também começa a questionar a ideia de que o tempo de tela, sozinho, explique os impactos da tecnologia sobre o bem-estar. Um estudo publicado em 2026 no Journal of Public Health, que acompanhou cerca de 25 mil adolescentes durante três anos, não encontrou evidências de que passar mais tempo em redes sociais ou jogando gerasse, por si só, mais ansiedade ou depressão.
Isso não significa que o uso seja inofensivo, mas sim que o perigo reside em outro lugar. Um estudo de Ma & Li (2026), no Cyberpsychology: Journal of Psychosocial Research on Cyberspace, inclui, por exemplo, que a pressão social digital e a falta de autorregulação estão ligadas à checagem compulsiva do aparelho e à procrastinação. A reflexão mais reveladora não é sobre contar horas, mas identificar o momento em que o uso deixa de ser uma escolha consciente e passa a operar no piloto automático.
E é justamente aí que entra uma questão que considero fundamental: o custo de oportunidade — aquilo que o smartphone começa a substituir.
Quando algumas horas a mais no celular avançam sobre o sono, a atividade física, uma conversa presencial, um jantar sem distrações ou um período de concentração, existe um impacto que o relatório semanal não consegue mostrar. Em outros momentos, porém, aquela mesma tela pode estar proporcionando aprendizado, trabalho, companhia ou acesso a algo que melhora concretamente a vida de uma pessoa.
O sinal de alerta, portanto, não está simplesmente na tela acesa. Está também naquele momento em que pegar o telefone deixa de ser uma decisão consciente e vira um reflexo: checar, fechar e, poucos minutos depois, checar novamente.

Por isso, não acredito que demonizar o celular nos ajude muito. Além de pouco realista, essa abordagem simplifica uma relação que já se tornou parte da vida atual. O celular participa da forma como trabalhamos, aprendemos, nos relacionamos e organizamos nossa rotina.
Para mim, uma discussão mais madura sobre bem-estar digital envolve cultivar a maturidade digital. Isso significa desenvolver capacidade de autorregulação e fazer escolhas mais conscientes sobre quando, como e para quê usamos a tecnologia.
Talvez, então, devêssemos olhar menos para um número isolado e fazer uma pergunta mais difícil — e mais útil: O que esse tempo de tela constrói — e o que o celular substitui?
Porque, no fim, saber que passamos quatro horas diante de uma tela diz alguma coisa. Entender o valor do que vivemos nessas quatro horas traz a verdadeira resposta.

Juliana Marinelli, pesquisadora pHd de Bem-Estar Digital, que investiga o impacto do smartphone no comportamento humano e nas relações na era digital.