Seis meses depois, a eleição virou “Master”

Acusações envolvendo Daniel Vorcaro atingem ACM Neto em momento de empate técnico com Jerônimo Rodrigues na disputa pelo governo

Seis meses depois, a eleição virou “Master”

Crédito: Divulgação

Há seis meses, publiquei neste espaço o artigo “Uma eleição para chamar de “Master”  Naquele momento, o caso envolvendo o Banco Master ainda parecia distante da maioria dos eleitores baianos.

O texto não aponta culpados, levantava uma questão política: até onde uma investigação cercada por relações empresariais, personagens públicos, documentos e possíveis delações poderia atravessar toda a eleição de 2026. Agora faltam 23 dias para a votação e a resposta começou a aparecer.

Em março, escrevi que investigações complexas não obedeceriam ao calendário eleitoral, novos documentos poderiam surgir, depoimentos poderiam mudar o rumo do noticiário e uma revelação feita durante a campanha provoca um estrago muito maior do que aquela divulgada meses antes e foi exatamente o que aconteceu.

O caso Master deixou de ser um assunto restrito às páginas de economia e passou a provocar uma crise dentro do Supremo Tribunal Federal. O ministro André Mendonça retirou o sigilo de parte dos procedimentos. O presidente da Corte, Edson Fachin, marcou uma sessão para discutir os rumos das investigações. Lula entrou no debate. Flávio Bolsonaro passou a ser investigado em uma frente relacionada ao financiamento do filme “Dark Horse”. O escândalo, que parecia não ter dono político, começou a encontrar rostos em plena campanha. 

Na Bahia, a mudança foi ainda mais direta. Daniel Vorcaro afirmou, em proposta de delação premiada, que ACM Neto e Antônio Rueda teriam atuado para facilitar a entrada do Banco Master em institutos de previdência. Segundo o relato publicado pelo Portal UOL de Notícias e reproduzido por veículos baianos, existiria uma remuneração ligada aos recursos captados.

ACM Neto nega as acusações e classificou as declarações como absurdas, fantasiosas e mentirosas. Também afirmou que os contratos de sua empresa com o banco correspondiam a serviços de consultoria realmente prestados, dentro da legalidade.

A campanha não acontece dentro de um processo judicial, a percepção do eleitor é formada por manchetes, vídeos, cortes, associações e pela capacidade dos adversários de transformar uma história complicada em uma mensagem compreensível. Foi justamente esse risco que o artigo que fiz há 6 meses tentou mostrar. Uma dúvida lançada no momento certo pode produzir efeitos antes que a Justiça consiga oferecer qualquer resposta definitiva.

Esse é o ponto central. ACM Neto não enfrenta uma revelação desse tamanho enquanto lidera com folga, ele enfrenta quando aparece tecnicamente empatado com o governador Jerônimo Rodrigues quando cada ponto vale ouro e quando uma parcela considerável do eleitorado ainda pode mudar de posição.

O episódio também contamina a composição política ao redor dele. João Roma disputa o Senado na chapa de ACM Neto e apoia Flávio Bolsonaro, outro personagem alcançado por uma das frentes do caso. Isso não significa que Roma seja responsável pelas acusações dirigidas a terceiros. Significa que a campanha ganhou uma linha narrativa pronta para ligar governador, senador e presidente dentro do mesmo campo político.

Ângelo Coronel vive uma situação diferente, até agora, não surgiu contra ele uma acusação pública com o mesmo peso daquela apresentada contra ACM Neto. Seu filho, o deputado Diego Coronel, apareceu entre nomes associados à agenda telefônica de Vorcaro e afirmou não ter mantido contato com o banqueiro. Uma lista de contatos, sozinha, não prova relação ilícita. Politicamente, contudo, mantém o sobrenome dentro do noticiário e aumenta o desconforto numa disputa pelo Senado que já está embolada.

O meu artigo de março acertou ao identificar o risco, mas existe uma diferença entre enxergar um problema e adivinhar quando ele irá acontecer. Naquela época, o caso parecia capaz de espalhar dúvidas sobre vários grupos. Hoje, ele está mais concentrado. Atinge a eleição presidencial, mexe com o Supremo e chega à Bahia diretamente por meio de uma acusação contra um dos dois principais candidatos ao governo.

São apenas 23 dias. Pouco tempo para uma investigação esclarecer tudo. Tempo suficiente para uma campanha repetir uma pergunta milhares de vezes. A eleição baiana ainda não pode ser definida como a eleição do Banco Master. Isso dependerá da reação dos candidatos, da entrada do tema na propaganda e, principalmente, das próximas pesquisas, mas já não existe qualquer dúvida de que o caso encontrou a campanha.

Há seis meses, escrevi que uma dúvida bem colocada poderia mudar completamente o rumo de uma eleição, hoje a dúvida é uma realidade. Agora faltam as urnas responderem.

*Paulo Maneira é jornalista, estrategista de comunicação e especialista em marketing político. Com mais de 22 anos de experiência e participação em campanhas eleitorais, é autor do livro Campanha Planejada e diretor da agência YellowFANT. 

  • Publicado: 11/09/2026 16:55
  • Alterado: 11/09/2026 16:55
  • Autor: Paulo Maneira