Fim da escala 6x1 faz empresas reverem custos e equipes
Fim da escala 6x1 faz empresas reverem custos, jornadas e equipes, com 90,13% das companhias esperando impactos da possível redução da jornada de trabalho
- Publicado: 17/09/2026 08:43
- Alterado: 17/09/2026 09:06
- Autor: Carlos Enriki
A possível redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1 já provocam movimentos de planejamento entre empresas brasileiras. Pesquisa da Carreira Muller, realizada com 486 companhias, mostra que 90,13% esperam ser impactadas pela PEC 221/2019, enquanto 72,43% afirmam ter atualmente funcionários submetidos à escala de seis dias trabalhados por um de descanso.
Entre as empresas que esperam mudanças, 72,83% avaliam o impacto como alto ou muito alto, sendo 49,09% na categoria alta e 23,74% na muito alta. Os principais pontos de preocupação estão relacionados aos custos, à reorganização das escalas e à manutenção das operações.
O aumento dos custos trabalhistas aparece como principal preocupação, citado por 82,96% das empresas. Na sequência estão a necessidade de adequação de escalas e turnos, com 77,63%, a dificuldade para manter o nível operacional, com 44,75%, a possibilidade de queda na produtividade, com 38,36%, e a necessidade de novas contratações, mencionada por 33,30%.
Operações e logística concentram impactos
As áreas mais apontadas como afetadas pelo fim da escala 6×1 são operações e produção, citadas por 72,37% das empresas pesquisadas. Na sequência aparecem logística, com 36,99%; atendimento ao cliente, com 24,43%; manutenção, com 22,90%; e áreas administrativas e financeiras, com 22,60%.
A pesquisa também mostra diferentes níveis de impacto conforme a frente analisada. Na gestão de turnos e escalas, 49,40% das companhias classificam o impacto como alto e 33,09% como médio.

Nos custos com folha de pagamento, 43,65% esperam impacto alto e 38,57% apontam impacto médio. Já na administração de horas extras e banco de horas, 42,65% consideram o impacto alto e 38,86% médio.
Em produtividade e desempenho operacional, 38,85% avaliam o impacto como alto e 40,53% como médio. A necessidade de contratação também aparece entre os pontos de atenção, com 29,79% prevendo impacto alto e 43,74% médio.
Pequenas e médias empresas aceleram preparação para o fim do 6×1
O processo de adaptação tende a ser mais desafiador para pequenas e médias empresas que não possuem estruturas de Recursos Humanos preparadas para redesenhar jornadas, escalas e equipes em curto prazo.
Segundo a Carreira Muller, a consultoria passou a receber contatos de empresas de diferentes regiões interessadas em entender como estruturar uma eventual mudança.
“Temos recebido contatos diariamente de muitas pequenas e médias empresas de todo o país porque elas não tinham uma estrutura de RH planejada para uma mudança dessa magnitude. Com a possibilidade de aprovação da PEC, essas empresas terão de se planejar em ritmo acelerado, avaliando escalas, equipes, custos e produtividade para conseguir manter a operação”, afirma Marco Schanoski, CEO da Carreira Muller.
O grau de preparação ainda é limitado. Em uma escala de 1 a 5, apenas 3,42% das empresas se consideram totalmente preparadas para lidar com a mudança. Outros 21,23% atribuíram nota 4, enquanto 50,23% ficaram no nível 3.
Na outra ponta, 15,52% deram nota 2 para o próprio nível de preparação e 9,59% afirmaram não estar preparadas. Os dados indicam que aproximadamente três quartos das companhias estão, no máximo, no nível intermediário.
A definição de prazos também permanece incerta. 43,84% das empresas ainda não estabeleceram quando começariam a implementar mudanças. Outras 28,77% pretendem agir imediatamente após eventual aprovação, enquanto 18,64% estimam iniciar o processo em até três meses. Apenas 6,16% apontam um prazo entre três e seis meses.
Revisão das escalas aparece antes de novas contratações

Entre as alternativas consideradas pelas empresas, a revisão dos turnos para otimização da jornada aparece em primeiro lugar, com 37,67% das respostas. A contratação de novos colaboradores foi citada por 35,16%, seguida pela saída antecipada, com 34,70%.
A automação ainda não aparece como estratégia predominante. 47,72% das empresas afirmam não planejar nenhuma ação estrutural para compensar a redução de horas.
Entre as companhias que estudam mudanças, 32,88% consideram redesenhar processos, enquanto 32,65% analisam automação e aumento de produtividade.
O impacto tende a ser mais complexo em operações que funcionam 24 horas por dia, sete dias por semana. A redução da jornada pode exigir a criação de turnos adicionais para manter a cobertura integral, aumentando a necessidade de mão de obra.
O estudo também aponta um potencial impacto de 10% sobre os custos de pessoal em empresas prestadoras de serviços terceirizados, o que pode afetar contratos já existentes.
RH ganha papel central nas discussões
A área de Recursos Humanos lidera a discussão interna em 56,62% das empresas pesquisadas. O cenário coloca o setor no centro do planejamento para eventuais mudanças de jornada, escalas e dimensionamento das equipes.
A negociação coletiva, entretanto, ainda está em estágio inicial. Segundo a pesquisa, 55,02% dos entrevistados afirmam que não iniciaram conversas com sindicatos, embora estejam avaliando o tema.
Outros 20,78% não souberam informar a situação. Entre os demais, 11,19% planejam iniciar negociações nos próximos meses e apenas 3,65% afirmam que o processo já começou.
A busca por apoio externo também aparece entre as estratégias. 50,91% das empresas indicam assessoria jurídica trabalhista como uma das áreas em que pretendem buscar suporte. Em seguida estão redesenho de processos e planejamento, com 37,44%; benchmarking de mercado, com 35,62%; análise de impacto econômico, com 28,31%; e diagnóstico de impacto e planejamento financeiro, com 26,71%.
PEC prevê redução gradual da jornada
De acordo com o estudo, a PEC 221/2019 prevê redução gradual da jornada máxima semanal de 44 para 40 horas e estabelece dois dias de repouso remunerado.
O texto mencionado na pesquisa prevê uma transição para a nova jornada. A redução inicial levaria o limite para 42 horas dois meses após a promulgação, chegando a 40 horas um ano e dois meses depois.
Segundo as informações utilizadas no estudo, a proposta ainda dependeria de votação em dois turnos no plenário do Senado, com necessidade de 49 votos favoráveis em cada votação.
Diante desse cenário, os dados da pesquisa indicam que a discussão sobre o fim da escala 6×1 já passou a integrar o planejamento de empresas que precisam avaliar custos, escalas, produtividade e dimensionamento de equipes.