Canetas emagrecedoras: como evitar a queda de cabelo
A queda de cabelo é temporário e decorre do emagrecimento rápido, esclarece a Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar
- Publicado: 20/08/2026 17:41
- Alterado: 20/08/2026 17:41
- Autor: Daniela Ferreira
O avanço no uso de medicamentos injetáveis para o tratamento da obesidade e controle de peso, como a semaglutida e a tirzepatida, trouxe para os consultórios médicos uma dúvida frequente entre os pacientes: o aumento da queda de cabelo durante o processo de emagrecimento.
Embora o sintoma conste na lista de reações adversas de alguns desses fármacos, a literatura médica indica que o fenômeno não decorre de toxicidade direta da medicação sobre o couro cabeludo, relacionando-se prioritariamente à velocidade e à intensidade da perda de peso, à redução acentuada na ingestão calórica e proteica e às adaptações metabólicas do organismo.
Eflúvio Telógeno: Queda Temporária pelo Emagrecimento Rápido
A principal causa da queda de cabelo após o emagrecimento acelerado é o eflúvio telógeno. Trata-se de uma alteração temporária no ciclo de vida dos cabelos, na qual uma quantidade atípica de folículos entra precocemente na fase de repouso (telógena), resultando na queda difusa dos fios semanas ou meses após o evento desencadeante.

Estudos clínicos demonstram que a queda costuma manifestar-se com um intervalo de dois a três meses após o início da perda expressiva de peso.
Um estudo observacional publicado em 2024 no periódico científico Annals of Dermatology avaliou 140 pacientes diagnosticados com eflúvio telógeno associado à redução ponderal. Os pesquisadores registraram os seguintes indicadores médios:
- Redução de Peso Corporal: Perda média de 15% do peso total;
- Ritmo de Emagrecimento: Velocidade média de perda de 3,54 kg por mês.
O médico e cirurgião plástico Dr. Alan Wells, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Capilar (SBRCC), explica a resposta fisiológica do organismo:
“O eflúvio telógeno é uma resposta do organismo a uma mudança importante. Durante uma perda de peso acentuada, principalmente quando há redução importante da ingestão de calorias e proteínas, o organismo pode alterar temporariamente o ciclo dos folículos. Por isso, não devemos olhar apenas para a balança. É importante acompanhar também o estado nutricional e a saúde dos cabelos”, orienta o médico.
Eflúvio Telógeno x Alopecia Androgenética
Especialistas ressaltam a necessidade de diferenciar a queda temporária da alopecia androgenética (calvície de origem genética e hormonal):
| Característica | Eflúvio Telógeno | Alopecia Androgenética |
|---|---|---|
| Duração | Temporária e autolimitada | Crônica e progressiva |
| Padrão de Queda | Difusa por todo o couro cabeludo | Afinamento localizado e redução de densidade |
| Causa Principal | Estresse metabólico, dietas e emagrecimento rápido | Predisposição genética e ação dos andrógenos |
O Dr. Alan Wells alerta que a perda rápida de peso pode atuar como um gatilho que revela uma calvície pré-existente:
“O emagrecimento pode desencadear um eflúvio telógeno, mas isso não significa que estamos diante de uma alopecia androgenética causada pelo medicamento. O que pode acontecer é o eflúvio tornar mais evidente uma alopecia androgenética que já estava em evolução. São situações diferentes e que precisam de abordagens diferentes”, reitera o presidente da SBRCC.
Avaliação Capilar e Diagnóstico Médico

Diante de histórico familiar de calvície ou sinais prévios de afinamento dos fios, recomenda-se passar por avaliação médica do couro cabeludo antes ou durante o uso das canetas emagrecedoras.
A identificação precoce da alopecia androgenética permite iniciar protocolos terapêuticos específicos com evidência científica, como o uso do minoxidil ou bloqueadores hormonais conforme a indicação clínica individual.
Por outro lado, terapias complementares investigadas para a calvície crônica não possuem indicação para o eflúvio temporário:
- Microagulhamento: Revisão sistemática com 22 estudos e mais de 1.000 pacientes apontou ganhos quando associado ao minoxidil na alopecia androgenética;
- Laser de Baixa Intensidade (LLLT/LED): Meta-análise com 38 estudos e 3.098 pacientes demonstrou aumento significativo da densidade capilar na calvície crônica;
- Plasma Rico em Plaquetas (PRP): Apresenta resultados promissores em estudo para alopecia androgenética, sem padronização universal de protocolos.
“Procedimentos como microagulhamento, laser e PRP não devem ser apresentados como tratamento para o eflúvio telógeno provocado pelo emagrecimento. Eles são estudados principalmente em doenças como a alopecia androgenética e podem ser considerados em pacientes selecionados, sempre depois de estabelecer o diagnóstico”, adverte Dr. Alan Wells.
Cuidados Nutricionais e Não Interrupção do Tratamento

A SBRCC reforça que a investigação de queda de cabelo pode incluir a checagem laboratorial de micronutrientes, tais como níveis de ferro, ferritina, vitamina B12, vitamina D, zinco e folato.
Contudo, a entidade desaconselha a suplementação vitamínica automática sem a comprovação de deficiência nutricional em exames:
“Suplementação não deve ser feita de maneira automática. Se existe deficiência nutricional, ela precisa ser identificada e corrigida. Mas tomar vitaminas sem indicação não significa necessariamente melhorar o cabelo e, em alguns casos, o excesso de determinados nutrientes também pode ser prejudicial”, pondera o especialista.
A recomendação médica é de que o surgimento da queda temporária de fios não deve motivar a interrupção do tratamento para a obesidade sem orientação do médico assistente.
Por fim, a SBRCC esclarece que o transplante capilar não é indicado para tratar o eflúvio telógeno, devendo ser reservado para casos específicos de perda permanente de fios na alopecia androgenética.
“O transplante capilar não deve ser utilizado para tratar uma queda temporária provocada por um processo como o eflúvio telógeno. Antes de pensar em cirurgia, é fundamental saber qual doença está causando a perda de cabelo”, conclui Dr. Alan Wells.