Burnout afeta cada vez mais a saúde do trabalhador
Burnout pode começar com sintomas discretos, evoluir com o tempo e comprometer a saúde mental, o desempenho profissional e a qualidade de vida
- Publicado: 14/07/2026 09:00
- Alterado: 14/07/2026 09:00
- Autor: Daniela Penatti
- Fonte: Afya Centro Universitário de Pato Branco
Sentir-se esgotado após uma rotina intensa de trabalho é uma reação considerada natural. No entanto, quando nem mesmo o descanso consegue restaurar as energias e o cansaço passa a fazer parte do dia a dia, é preciso acender um sinal de alerta. Despertar já sem disposição, perder o interesse por atividades antes prazerosas, apresentar dificuldade de concentração e perceber uma queda significativa no desempenho profissional podem indicar um problema mais sério do que o desgaste comum da rotina.
Esses sintomas podem estar relacionados à Burnout, condição associada à exposição prolongada ao estresse ocupacional e que exige atenção tanto dos trabalhadores quanto das empresas.
Síndrome é reconhecida pela OMS como fenômeno ocupacional

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a síndrome na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um fenômeno relacionado ao ambiente de trabalho. A condição é definida por três características centrais: sensação constante de exaustão física e emocional, aumento do distanciamento mental ou de sentimentos negativos em relação ao trabalho e redução da eficiência profissional.
De acordo com o Ministério da Saúde, o Burnout surge como consequência da permanência por longos períodos em situações de trabalho marcadas por elevado desgaste emocional, pressão contínua e dificuldade de recuperação.
O assunto ganhou ainda mais relevância diante do crescimento dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil. Informações da Previdência Social mostram aumento expressivo na concessão de benefícios por incapacidade ligados à saúde mental nos últimos anos, cenário que afeta trabalhadores, organizações e o próprio sistema de saúde. Especialistas avaliam que essa alta também reflete a maior conscientização sobre o diagnóstico e a procura crescente por atendimento especializado.
Especialista explica como diferenciar estresse e Burnout

Para a psicóloga e docente do curso de Psicologia da Afya Centro Universitário de Pato Branco, Suzane Skura, distinguir o estresse cotidiano de um quadro que pode evoluir para adoecimento ainda é um dos maiores desafios.
“O estresse faz parte da vida e, em muitos momentos, é até esperado. O Burnout, porém, acontece quando a pessoa permanece por muito tempo exposta a uma sobrecarga emocional e física sem conseguir se recuperar. O descanso deixa de resolver, o trabalho passa a gerar sofrimento e até tarefas simples parecem exigir um esforço enorme”, afirma Suzane.
Segundo a especialista, o corpo costuma demonstrar sinais antes que a situação se torne incapacitante, tornando essencial observar alterações persistentes no comportamento.
“Os sintomas nem sempre aparecem de forma intensa logo no início. Muitas pessoas começam a perceber um cansaço constante, irritabilidade, dificuldade para dormir, esquecimentos frequentes, perda de concentração e uma sensação de que nunca conseguem dar conta das demandas. Também podem surgir sintomas físicos, como dores de cabeça, tensão muscular, alterações gastrointestinais e palpitações. Quando isso se torna frequente, é importante procurar avaliação profissional”, pontua a psicóloga.
Embora seja frequentemente associado a profissões de alta pressão, como saúde, educação e segurança pública, o Burnout pode atingir profissionais de qualquer segmento. Entre os principais fatores de risco estão jornadas excessivas, acúmulo de responsabilidades, cobrança constante por resultados, baixa autonomia, conflitos interpessoais e falta de reconhecimento.
Impactos vão além da saúde individual

Além das consequências para o trabalhador, o adoecimento mental também provoca reflexos econômicos importantes. Estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Organização Internacional do Trabalho (OIT) apontam que ansiedade e depressão sejam responsáveis pela perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano em todo o mundo, reforçando a necessidade de ambientes laborais mais saudáveis e de políticas voltadas à prevenção.
Na avaliação de Suzane Skura, o preconceito em torno da saúde mental ainda faz com que muitas pessoas adiem a busca por ajuda especializada.
“Existe a ideia de que pedir ajuda é sinal de fraqueza, quando, na verdade, é uma atitude de cuidado. O Burnout não acontece porque alguém é menos competente ou menos resiliente. Frequentemente, ele acomete profissionais extremamente comprometidos, que permaneceram por muito tempo ultrapassando os próprios limites”, destaca.
A psicóloga enfatiza que o diagnóstico deve ser realizado exclusivamente por profissionais habilitados. O tratamento precisa ser individualizado e pode envolver acompanhamento psicológico, avaliação médica e mudanças tanto na rotina quanto nas condições de trabalho.
“Quanto mais cedo os sinais forem reconhecidos, maiores são as possibilidades de recuperação e menor o impacto na vida pessoal, profissional e familiar. Cuidar da saúde mental também é uma forma de prevenir doenças e preservar a qualidade de vida“, afirma.
Para a especialista, a principal reflexão é que o esgotamento persistente jamais deve ser encarado como consequência normal da produtividade. Quando o trabalho deixa de representar apenas um desafio e passa a comprometer o bem-estar, o equilíbrio emocional e a saúde física, procurar orientação profissional torna-se um passo essencial para interromper o ciclo de adoecimento provocado pelo Burnout.