Vote em você porque a responsabilidade continua
A eleição termina nas urnas, mas a cidadania continua nas escolhas diárias, na fiscalização dos eleitos e na responsabilidade de cada cidadão pelo país
- Publicado: 02/10/2026 16:20
- Alterado: 02/10/2026 16:20
- Autor: Dom Veiga
Chegamos à última sexta-feira antes da eleição e também ao fim de uma sequência de reflexões sobre uma responsabilidade que costuma ser esquecida justamente quando mais deveria ser lembrada: a responsabilidade do cidadão diante do próprio voto. Primeiro, discutimos por que a urna não pode ser tratada como uma lixeira na qual depositamos nossas frustrações, omissões e a expectativa de que alguém resolva tudo por nós. Depois, perguntamos quem estamos autorizando a tomar decisões em nosso nome. Agora, resta talvez a questão mais incômoda de todas: o que faremos nós depois que a eleição terminar?
É muito fácil imaginar que a transformação de uma sociedade depende exclusivamente de quem ocupa um cargo público. Quando um serviço não funciona, olhamos para o governo. Quando uma política pública fracassa, cobramos o Estado. E devemos cobrar. Governos possuem responsabilidades que não podem ser transferidas para empresas, organizações sociais ou cidadãos. Reconhecer isso, porém, não significa imaginar que todas as demais responsabilidades desaparecem no momento em que escolhemos nossos representantes.
A responsabilidade social também está nas decisões das empresas, na maneira como tratam funcionários, consumidores e comunidades e na disposição de transformar discursos em práticas. Da mesma forma, está presente no cotidiano de cada cidadão. Afinal, uma sociedade não se torna melhor apenas porque escolhe representantes melhores. Ela também se transforma quando as pessoas que a compõem decidem assumir responsabilidade pelas próprias atitudes.
A urna não encerra a responsabilidade

É nesse ponto que a conversa fica mais desconfortável. Queremos governos responsáveis, empresas comprometidas e serviços públicos eficientes, mas precisamos nos perguntar qual é a responsabilidade que cabe a cada um de nós na construção da sociedade que cobramos dos outros.
Não existe governo capaz de substituir a consciência de uma população. Leis estabelecem direitos, deveres e limites, mas não fabricam solidariedade. Políticas públicas são fundamentais para enfrentar problemas coletivos, mas não substituem o respeito ao próximo nas relações cotidianas. Da mesma maneira, nenhuma eleição consegue produzir, sozinha, a sociedade que todos dizem desejar.
O país que queremos também é construído nas pequenas e grandes decisões tomadas quando não existe uma urna por perto. Por isso, votar representa apenas uma parte da cidadania. A outra começa quando a eleição termina e passa pelo acompanhamento de quem recebeu nossa confiança, pela cobrança das promessas apresentadas e pelo cuidado com as informações que consumimos e compartilhamos.
Esse exercício também exige maturidade para reconhecer um acerto sem transformar reconhecimento em idolatria e questionar um erro sem converter divergência em ódio. A democracia não deveria funcionar como quatro anos de silêncio interrompidos por uma semana de indignação eleitoral. Participar significa acompanhar o que acontece também quando as campanhas terminam e as atenções deixam as urnas.
A cidadania não pode ser terceirizada

Essa lógica vale igualmente para a responsabilidade social. O cidadão tem o direito de cobrar o governo, as empresas devem responder pelo impacto de suas escolhas e o poder público precisa prestar contas à sociedade. Mas talvez também seja necessário que a própria sociedade se pergunte o que está fazendo para contribuir com o país que exige de suas instituições.
Talvez seja justamente essa uma das conversas que mais nos faltam. Passamos muito tempo procurando responsáveis pelos problemas e pouco tempo examinando qual parcela deles também atravessa nossas escolhas cotidianas. Isso não significa dividir igualmente responsabilidades que são diferentes, muito menos retirar do Estado obrigações que pertencem ao poder público. Significa apenas reconhecer que cidadania não é uma atividade que possa ser integralmente terceirizada.
Por isso, no domingo, vote. Informe-se, conheça os candidatos, examine trajetórias e propostas e faça sua escolha de acordo com a própria consciência. O voto é pessoal, livre e intransferível. Depois de confirmar sua escolha, porém, não imagine que sua participação terminou naquele instante. Talvez seja justamente ali que comece uma responsabilidade ainda mais duradoura.
O voto escolhe representantes, mas não terceiriza a cidadania. É por isso que a provocação final desta trilogia é simples, embora carregue uma exigência muito maior do que parece: vote em você. Não para ocupar uma cadeira ou disputar um cargo, mas para ocupar o seu lugar na sociedade.
O país que continua depois da eleição

Votar em você, nesse sentido, significa assumir o compromisso de acompanhar, participar, cobrar e colaborar. Significa compreender que o Brasil que cada pessoa deseja também depende daquilo que está disposta a fazer por ele, dentro dos limites e das responsabilidades que pertencem a cada cidadão.
Podemos passar a vida esperando que alguém transforme o país ou compreender que nenhuma sociedade muda de verdade quando todos esperam que a mudança comece pelo próximo. Eleições são fundamentais porque definem quem receberá poder para representar a população e administrar o Estado. Mas elas não substituem aquilo que acontece todos os dias entre uma eleição e outra.
A eleição escolhe quem receberá o poder. As nossas atitudes ajudam a definir que sociedade construiremos durante o exercício desse poder. É por isso que, quando a urna fechar, a responsabilidade não terá terminado. Ela continuará sendo nossa.
Dom Veiga

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.