Vó Cilena e o Dia de Finados: uma lição de afeto
Ao lembrar que o Dia de Finados é a data de visitar a casa deles, matriarca de 93 anos reúne a família diante do túmulo e celebra a vida com saúde
- Publicado: 02/11/2026 09:41
- Alterado: 02/11/2026 09:41
- Autor: Paola Zanei
Deitei dizendo pra mim mesma: não vou. Este ano não vou. Ninguém me obriga. Estou cansada, um pouco resfriada. Definitivamente, não vou ao cemitério neste Dia de Finados. Amanhã aviso a vovó.
Na manhã seguinte, dei a notícia depois do café da manhã. Ela já estava pronta, a roupa escolhida comigo na noite anterior, cabelo penteado, a ansiedade de sempre. “Você não gosta de cemitério?”, foi a resposta que ouvi.
Não que eu goste, veja bem. Gostar não é palavra que cabe ali. Mas respeito. É como um santuário pra mim. Não me causa repulsa, nem medo, nem me lembra que eu também vou morrer. Não fujo. Só estava com preguiça.
“Não, vó. Estou sem vontade”, respondi baixinho. Melhor que ela não ouvisse essa resposta sem conteúdo. Sei a importância que a ida ao cemitério tem para a minha vó. Ela conta os dias que faltam para chegar a data em que ela poderá ir até lá. Os entes queridos estarão ali para encontrá-la e ficarão felizes em vê-la.

Eu, querendo pegá-la no pulo, falei: “Mas se eles vão até lá, por que não vêm até aqui?” A resposta foi bem convincente. “Eles vêm até aqui, é lógico”, ela respondeu. “Mas hoje é o dia deles. É o dia certo de ir à casa deles”. E depois, é melhor não querer questionar as crenças dela agora. Uma pessoa de 93 anos não vai mudar de pensamento.
“Vou me trocar, vó.” “Não precisa ir forçada”, ela ainda reforçou. E logo lembrou de sua mãe, que, antes de saírem para o cemitério, mandava-a arrumar a cama, pois os mortos viriam visitar a casa e iam achar tudo arrumadinho. Iam ficar felizes porque ela era uma boa menina. “Acho que minha mãe era é esperta”, disse rindo. E todo ano ela conta isso.
O dia estava lindo. O cemitério, cheio e florido. Já entrei com um nó na garganta, por causa da lembrança do meu pai. A vó, mãe dele, segurando o meu braço, mais firme do que eu. “Tá tudo bem, vó? Estou indo depressa demais”, perguntei enquanto andávamos pelas ruas estreitas do cemitério. “Não. Está ótimo”, ela dizia todas as vezes.

Depois de alguns minutos em frente ao túmulo, que ela faz questão que esteja limpo, e de nossas orações em coro, ela disse: “Vejam, estamos todas aqui, todas bem, ninguém acamado ou doente. Obrigada, meu Deus. Fiquem em paz, meus queridos”.
Ainda que eles não estivessem lá, nós estávamos, as quatro unidas, mais a Laura que não foi, com saúde e tocando a vida. E respeitando e amando quem nos antecedeu e olha por nós. Assim se ensina o respeito ao passado e o amor que não se acaba. E ela é uma mestra e tanto.
Paola Zanei

Paola Zanei é escritora, poeta e jornalista, formada em Comunicação desde 1994. Com mais de 30 anos de atuação no jornalismo, construiu grande parte de sua trajetória como assessora de imprensa. A escrita, no entanto, sempre esteve presente em sua vida. Desde os 15 anos, dedica-se à produção de poemas e crônicas que exploram o cotidiano, experiências pessoais e as emoções que atravessam sua jornada. É autora do livro Poemas para Queimar Certezas. Apaixonada por música, literatura e cinema, Paola traduz em palavras sua forma sensível de observar e interpretar o mundo.