Viraliza revela no ABC Cast Conexões como se cria um fenômeno digital
Igor Reis Beltrão, compartilha os bastidores da Creator Economy e os caminhos para construir carreiras digitais duradouras
- Publicado: 27/06/2026 14:01
- Alterado: 27/06/2026 14:04
- Autor: Edvaldo Barone
- Fonte: ABCdoABC
A audiência de um perfil pode transformar um vídeo em tendência. Para permanecer relevante, porém, o criador precisa lidar com contratos, produtos, eventos, reputação e uma base de seguidores disposta a acompanhar seus projetos fora do ritmo acelerado do feed. Esse é o universo em que atua Igor Reis Beltrão, cofundador e diretor artístico da Viraliza Entretenimento, empresa especializada no desenvolvimento de negócios para talentos digitais. A agência reúne em seu casting nomes como Álvaro, Lucas Guedez, Rafa Uccman, Gabô Pantaleão, Gui Tank, Yasmin Castilho, Rico Melquiades e Gutiérrez Castro, criador de Leuriscleia.
No 11º episódio da segunda temporada do ABC Cast Conexões, Igor Reis discute os bastidores da Creator Economy e os caminhos que levam um criador a transformar alcance em uma operação capaz de gerar receitas, ampliar formatos e sustentar uma carreira. A conversa passa pela seleção de novos talentos, pela construção de comunidades, pela relação entre influenciadores e marcas e pelas estratégias que ajudam um nome digital a se consolidar como ativo de mídia e negócio. Igor também compartilha sua leitura sobre as tendências de marketing para 2026, após acompanhar os debates do SXSW, um dos principais eventos internacionais de tecnologia, inovação e cultura.
O que uma agência procura antes dos números



Com uma indústria que movimenta cifras bilionárias e altera a forma como empresas se comunicam com seus públicos, o mercado de influência deixou de se resumir à publicação de conteúdos patrocinados. A disputa agora envolve identidade, planejamento, confiança e a capacidade de construir relações que resistam às mudanças de plataforma, algoritmo e comportamento de consumo. Por isso, a escolha de um talento não começa necessariamente pela quantidade de seguidores.
Para uma empresa que trabalha com criadores digitais, métricas ajudam a medir alcance, mas não explicam sozinhas se aquele perfil tem repertório, disciplina e disposição para construir uma trajetória que sobreviva à oscilação das plataformas. Igor Beltrão conta que a primeira conversa costuma revelar elementos que não aparecem em um relatório de engajamento. A forma como o criador descreve a própria trajetória, responde a feedbacks e enxerga os próximos passos pesa na avaliação. “Eu não quero saber se você tem um milhão de seguidores ou 10 mil. Eu quero saber a sua história. Como é que você chegou até aqui? E, na história, todo mundo acaba falando demais e quando fala demais, a gente entende quem de fato quer e quem não quer”, afirma.
Ao explicar o que identifica em novos talentos, Igor resume esse impulso de forma direta. “É a fome, o sangue nos olhos. Aquele cara que você vê pelo olhar dele que ele é diferente, que ele diz, ‘Eu quero, eu vou vencer. Me coloque um projeto desse aí, me dê toda a estrutura que eu vou chegar lá.’ Esse cara que tem fome, que tem vontade de ir para cima, que não deixa as coisas para depois, ele faz e executa naquele momento ali, sabe escutar, sabe ouvir feedback, tem vontade de ser gigante”, ressalta.
O cofundador da Viraliza Entretenimento cita o caso de um criador de humor que procurou a empresa quando ainda reunia cerca de 80 mil seguidores. A audiência existente chamou atenção, mas não foi o fator decisivo. Segundo Igor, o investimento só fez sentido porque o influenciador demonstrou disposição para testar formatos, ouvir orientações e manter uma rotina de criação até encontrar um conteúdo capaz de dialogar com o público. A agência pode oferecer direção, planejamento comercial, suporte de produção e oportunidades de circulação, mas não substitui a identidade própria de quem produz. “Eu vou te dar estrutura, mas o conteúdo é seu. Eu não posso criar o conteúdo por você, porque a sua visão de mundo ali não é a minha, é a sua. Eu seria o influenciador, não você”, relembra Igor.
Essa separação ajuda a entender o papel de uma empresa como a Viraliza. O trabalho não consiste em fabricar personalidades digitais, e sim em identificar características que já existem, organizar caminhos de crescimento e criar condições para que aquele criador desenvolva uma presença própria, reconhecível e comercialmente sustentável.
Quando audiência precisa virar planejamento

O crescimento de um criador não depende apenas de aumentar seguidores ou fechar campanhas publicitárias. Para Igor Beltrão, a construção de uma carreira exige entender que tipo de projeto pode ser desenvolvido a partir daquela audiência e em que momento isso faz sentido. Livros, palestras, eventos, produtos e iniciativas educacionais podem ampliar as fontes de receita, mas não devem surgir como tentativas desconectadas de aproveitar uma visibilidade passageira.
Na Viraliza Entretenimento, o trabalho parte da leitura de cada talento e de sua relação com o público. O objetivo é identificar possibilidades que dialoguem com a linguagem já construída nas redes e preparar essas frentes com antecedência. “Faz parte, sim, a gente tentar trabalhar o influenciador de forma 360 graus. Mas tudo no seu tempo. Acho que antes de a gente abrir um show, a gente tem que ter uma audiência. Não adianta a gente querer ir para o show se não tiver ninguém para comprar ingresso. Então, se a gente está pensando já daqui a um ano abrir um show, então a gente tem que construir uma audiência fiel nesses primeiros 12 meses para quando abrir um show alguém comprar e a gente ir lotar os teatros”, explica o diretor artístico da Viraliza.
A lógica não está limitada a apresentações presenciais. O mesmo princípio vale para qualquer novo produto ligado ao criador. Antes de qualquer lançamento, é preciso entender se existe interesse real do público e se aquele projeto tem relação com a trajetória construída até ali. A audiência deixa de ser apenas indicador de alcance quando acompanha a mudança de formato e reconhece valor no que o criador passa a oferecer.
Esse planejamento também reduz a dependência de uma única fonte de renda e evita que o perfil se transforme em uma sequência de ações comerciais sem identidade. A carreira ganha consistência quando cada nova frente é consequência do conteúdo, da comunidade e do trabalho já realizado, não uma tentativa apressada de monetizar um momento de destaque.
Cópia que rende alcance, mas não constrói identidade

A produção intensa das redes sociais cria um ambiente em que formatos, bordões e referências se repetem em grande velocidade. Um vídeo que ganha tração em uma plataforma pode gerar dezenas de versões semelhantes no mesmo dia, impulsionadas por criadores, marcas e pela própria lógica de distribuição dos algoritmos. O alcance imediato, porém, não garante que quem reproduz uma fórmula consiga construir uma presença reconhecível no longo prazo.
Para Igor Beltrão, a diferença está na capacidade de um criador transformar referências em linguagem própria. “Eu acho que não tem espaço para cópia. O cara que quer copiar a Virgínia, copiar o Álvaro, copiar o Carlinhos Maia, dificilmente vai ter espaço. Agora, o cara que consegue trazer a sua visão no negócio ali na rede social, ele tem um espaço para crescer, sim”, afirma.
A busca por identidade não significa ignorar o que mobiliza atenção nas plataformas. Tendências podem ampliar a circulação de um conteúdo, sobretudo quando são aproveitadas nos primeiros dias. O problema surge quando o perfil passa a depender apenas delas e deixa de oferecer ao público algo que o diferencie dos demais. “As trends antigamente duravam semanas. Hoje em dia elas já nascem praticamente mortas. Ela nasceu e daqui a cinco dias já ninguém fala mais sobre isso”, observa.
A velocidade exige leitura de timing, mas também uma seleção cuidadosa do que combina com cada criador. Nem toda tendência precisa ser seguida, e nem todo conteúdo de alto alcance deve orientar a carreira de quem o publica. A permanência depende de uma assinatura própria, capaz de sobreviver quando o assunto do momento perde força e o público encontra outras dezenas de perfis fazendo a mesma coisa.
Alcance não basta para uma marca

Uma campanha com influenciador não se resume à escolha de um rosto conhecido ou de um perfil que acabou de alcançar bons números. A empresa também precisa avaliar o conjunto da presença pública daquele criador, incluindo posicionamentos, temas recorrentes, relações com o público e a forma como ele se manifesta fora de conteúdos patrocinados.
Igor chama atenção para o risco de decisões baseadas apenas em uma publicação de sucesso. Na entrevista, ele imagina uma situação em que uma marca identifica um influenciador após o bom desempenho de um vídeo, sem investigar o restante de sua atuação nas redes. O problema aparece quando esse perfil acumula conflitos públicos, ataques recorrentes a outras pessoas ou posicionamentos que podem gerar rejeição em parte da audiência. Na avaliação do empresário, a marca precisa considerar que uma manifestação pessoal do criador, inclusive em temas polarizados, pode produzir impactos diretos sobre a imagem de quem o contratou. “A marca tem que ter cuidado com quem ela vai estar ali se associando nas suas divulgações”, afirma.
A associação comercial, portanto, envolve uma escolha de reputação. O criador leva para a campanha sua audiência, mas também sua trajetória, suas opiniões e os possíveis ruídos que cercam seu nome. A compatibilidade entre marca e influenciador precisa ser observada antes mesmo da assinatura de um contrato, especialmente quando a comunicação depende de credibilidade e identificação com o consumidor.
Ao mencionar a polarização política como um dos temas que exigem maior cautela, o cofundador da Viraliza Entretenimento é direto. “Não fale de política. Você falar de um lado, vai brigar com o outro. Se falar do outro, vai brigar com o outro. Então, fica calado, faz o seu e deixa que a votação escolha o rumo do país”, diz. Métricas seguem relevantes, mas já não bastam para definir uma parceria que pretende produzir resultado sem comprometer a imagem de quem contrata.
A tecnologia acelera, mas não substitui a relação

A inteligência artificial já faz parte da rotina de quem produz conteúdo. Ela pode sugerir roteiros, criar imagens, organizar referências e até automatizar publicações. A questão que passou a mobilizar criadores, agências e marcas não é mais se essas ferramentas serão usadas, mas o que ainda diferencia uma pessoa quando a produção em larga escala se torna acessível para quase todos.
Igor levou essa discussão ao episódio a partir de sua participação no SXSW, evento que reúne debates sobre tecnologia, comunicação e entretenimento. Segundo ele, a preocupação com o avanço da IA apareceu de forma recorrente entre os participantes. “Hoje a IA faz tudo, inclusive a IA hoje está criando, produzindo e soltando os próprios conteúdos na internet. Tem muito vídeo aí que a gente assiste, que a gente fica pensando, isso aí é IA ou não é IA? E aí a ideia central de toda a South by Southwest era humanização. Hoje o diferencial para a Creator Economy de 2026, o tema é humanização. É aquilo que a IA não consegue fazer”, relata.
A resposta, para o empresário, está menos na tecnologia usada para editar um vídeo e mais na forma como o criador se relaciona com a comunidade que construiu. “O ser humano aqui na nossa Creator Economy é não só na criação e postagem do vídeo, mas também no atendimento humanizado com as pessoas. No responder o direct, ir ali falar com o seu seguidor e dar aquele carinho para ele, encontrar na rua, atender, é você ser humano, é humanizar”, afirma.
Essa visão também orienta a forma como a Viraliza organiza seu casting. Igor conta que a empresa deixou de buscar uma expansão baseada apenas na quantidade de nomes agenciados e passou a priorizar um grupo menor, com acompanhamento mais próximo. “Eu não tenho mais aquele sonho megalomaníaco de querer abraçar o mundo e pegar todos os influenciadores e botar embaixo do nosso guarda-chuva e sair vendendo tudo. Hoje eu prefiro trabalhar com poucos, porém bons, que vão tanto a gente vai dar dinheiro para eles, como a gente vai conseguir executar um trabalho de melhor qualidade”, explica.
Para quem sonha em transformar o próprio perfil em profissão, a conversa com Igor Reis Beltrão também revela o peso que acompanha essa escolha. A audiência reúne pessoas que passam a consumir referências, decisões e recomendações de alguém cuja imagem circula diariamente entre marcas, tendências, produtos e debates públicos. Por isso, o criador precisa pensar no conteúdo que publica, nos contratos que aceita, nas posições que assume e na comunidade que decide cultivar.
Ao falar sobre a exposição permanente das redes, Igor resume a relação que um influenciador precisa construir com quem o acompanha. “O influenciador já tem uma audiência que está acostumada com ele no dia a dia. Então, para o caso de um possível cancelamento, por exemplo, o que eu digo é: seja verdadeiro nas suas redes sociais. Passe para o público a sua versão verdadeira que tudo vai dar certo.” A Viraliza trabalha com alcance e oportunidades comerciais, mas a trajetória de um talento depende também de identidade, preparo, responsabilidade e disposição para preservar a confiança de quem escolheu acompanhá-lo.
Equipe e convidados: quem faz o ABC Cast Conexões

A entrevista com Igor Reis Beltrão, da Viraliza Entretenimento, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista George Ricardo, fundador do Conexão Geek e editor da Diálogos do Sul Global. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do ABCdoABC. A direção geral é de Alex Faria, fundador do portal, e a edição do episódio leva a assinatura de Rodrigo Rodrigues.
Confira a entrevista completa com Igor Reis da Viraliza Entretenimento:
Além do canal no YouTube, em breve, o episódio com Igor Reis, da Viraliza Entretenimento, também poderá ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.