Veja como foi a entrevista de Lula na Globo

Lula fala sobre dívida pública, Correios, segurança, investigações, INSS e prioridades para um eventual novo mandato durante entrevista à Globo.

Veja como foi a entrevista de Lula na Globo

Crédito: Globo/ Manoella Mello

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, foi entrevistado na noite desta quinta-feira (27) pelos jornalistas Renata Vasconcellos e César Tralli, nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro. Durante a conversa, o presidente respondeu a perguntas sobre economia, dívida pública, Correios, segurança, educação e investigações envolvendo pessoas próximas e integrantes de seu governo.

Entre os principais pontos, Lula descartou a privatização dos Correios, afirmou que a dívida pública não o preocupa e prometeu recuperar a estatal, que acumula quatro anos consecutivos de prejuízo e um rombo histórico de R$ 15 bilhões. O presidente também defendeu investimentos em inteligência artificial, minerais críticos e terras raras, além de prometer superávit em um eventual novo mandato.

Lula defende crescimento econômico para reduzir peso da dívida pública

Globo/ Manoella Mello

Um dos principais temas da entrevista foi a situação fiscal do país. Questionado sobre suas metas para a dívida pública nos próximos quatro anos, Lula afirmou que o endividamento não o preocupa e não apresentou um percentual específico que pretende alcançar.

A pergunta levou em consideração que a dívida pública ultrapassou R$ 10 trilhões e chegou a aproximadamente 82% do PIB, com aumento de cerca de 10 pontos percentuais durante o atual governo. Lula atribuiu parte desse crescimento à taxa de juros, citada por ele em 14% ao ano, e ao déficit fiscal de 2,8% que, segundo sua avaliação, foi herdado do governo de Jair Bolsonaro (PL).

O presidente defendeu que o crescimento econômico é uma das principais formas de reduzir a relação entre dívida e PIB. Para sustentar o argumento, citou países como Estados Unidos, Japão e Itália, que possuem níveis elevados de endividamento.

“Na medida que você começa a crescer a economia, a dívida começa a cair em relação ao PIB.”

Lula também afirmou que uma dívida equivalente a 80% do PIB não seria, isoladamente, um nível preocupante.

“Olhe para os Estados Unidos, o Japão, a Itália. Sabe quanto é a dívida dos Estados Unidos? 120% do PIB.”

Apesar de defender o crescimento como estratégia fiscal, Lula não detalhou uma meta para a dívida nem apresentou medidas específicas para conter sua trajetória.

Presidente promete superávit e fala em “revolução tecnológica”

Tecnologia - Futuro
(Imagem/Magnific)

Ao ser questionado sobre cortes de gastos obrigatórios, como vem defendendo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, Lula não especificou quais despesas pretende reduzir. O presidente, porém, afirmou que pretende entregar um resultado fiscal positivo.

Segundo Lula, o governo deverá alcançar superávit e, ao mesmo tempo, ampliar investimentos em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento do país. Entre elas estão inteligência artificial, minerais críticos, terras raras e defesa.

“Eu quero voltar a fazer com que esse país dispute com o mundo rico.”

O presidente afirmou ainda que pretende promover uma revolução tecnológica” no Brasil em um eventual quarto mandato. Para isso, defendeu maior participação nacional em cadeias produtivas consideradas estratégicas.

Lula também voltou a criticar a situação econômica encontrada no início de seu terceiro mandato e afirmou que o déficit fiscal chegou a 2,8%. Segundo ele, o resultado posteriormente caiu para 0,8% e deverá se tornar positivo.

Lula quer maior controle sobre terras raras

As terras raras e os minerais críticos foram apresentados pelo presidente como parte importante de sua estratégia para a indústria brasileira. Lula afirmou que o país possui grandes reservas desses recursos e defendeu uma regulamentação para evitar que sejam vendidos ao exterior sem que o Brasil desenvolva sua própria cadeia produtiva.

“Depois da China, possivelmente a gente está num país que tem mais minerais críticos e terras raras.”

Na avaliação do presidente, o objetivo deve ser extrair, transformar e utilizar esses recursos no próprio país. Ele citou a possibilidade de produzir baterias, chips e celulares no Brasil, ampliando a geração de empregos e o desenvolvimento tecnológico.

“Se a gente souber extrair, transformar e produzir os materiais que a gente pode fazer bateria, chip, celular aqui dentro do Brasil, a gente vai estar criando um passaporte para dar oportunidade para a juventude brasileira.”

Correios não serão privatizados, afirma Lula

trabalhadores-correios. Desenrola Brasil
Reprodução

A crise financeira dos Correios também esteve entre os principais assuntos. A estatal acumula quatro anos consecutivos de prejuízo e um rombo histórico de aproximadamente R$ 15 bilhões.

Lula descartou a possibilidade de privatização e afirmou que pretende recuperar a empresa em um eventual novo mandato.

“Não considero vender os Correios, não considero. Quero recuperar os Correios.”

O presidente reconheceu, porém, que a estatal perdeu espaço no mercado de entregas e não conseguiu acompanhar as mudanças provocadas pelo avanço do comércio eletrônico e das empresas privadas.

“Surgiu muita empresa de fazer entrega e o Correio ficou na mesmice.”

Segundo Lula, a nova administração dos Correios deverá promover o enxugamento que for necessário. Ele também admitiu a possibilidade de associações com empresas brasileiras ou estrangeiras para melhorar os serviços.

Para o presidente, a presença da estatal em todos os municípios brasileiros mantém sua importância estratégica, apesar das dificuldades financeiras.

Lula diz que Lulinha deverá responder se tiver cometido ilícitos

Mendonça autoriza inquéritos da Polícia Federal sobre Lulinha 
Reprodução

As investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, também foram abordadas. Questionado sobre suspeitas de corrupção e tráfico de influência investigadas pela Polícia Federal, Lula afirmou que não interferirá no trabalho das autoridades.

O presidente disse que, caso o filho tenha cometido algum ilícito, deverá responder como qualquer cidadão.

“Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro.”

Lula afirmou que não pretende afastar delegados ou realizar qualquer movimento para proteger o filho. Ao mesmo tempo, declarou acreditar que Lulinha será inocentado e classificou parte das acusações como “ilações”.

A entrevista também tratou da relação entre Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger. Lula afirmou que conversas telefônicas, por si só, não comprovam a existência de um crime e disse que não havia, até aquele momento, prova de dinheiro público envolvido.

O presidente também negou conhecer Roberta Luchsinger e afirmou que nunca havia conversado com ela.

A declaração foi posteriormente confrontada pelo Fato ou Fake, da própria Globo. A checagem encontrou ao menos três fotos e um vídeo nos quais a lobista aparece ao lado de Lula. Também foram encontradas imagens dela com Janja, Fernando Haddad, Márcio França e Geraldo Alckmin.

Lula critica relação de Marcola com lobista

Outro nome citado foi Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. Segundo a Polícia Federal, despesas pessoais dele, incluindo boletos, parcelas de financiamento, faturas de cartão e joias, teriam sido pagas pela lobista.

Lula afirmou que a relação foi inadequada e que Marcola errou ao manter esse tipo de vínculo enquanto ocupava uma função no Palácio do Planalto.

“Não é adequado, é totalmente errado.”

O presidente também chamou Roberta de “pilantra”, mas voltou a dizer que é necessário comprovar se houve efetivamente liberação de dinheiro público para determinar a existência de crime.

Segurança pública é prioridade em eventual novo mandato

Na área de segurança pública, Lula afirmou que pretende recuperar o território” dominado por organizações criminosas. Segundo o presidente, ruas, escolas e bairros precisam voltar a ser controlados pela população e pelo Estado.

“Aquela rua é do povo do Rio, não é do bandido; a escola é do povo, não é do bandido; o bairro é da população.”

Lula também afirmou que pretende enfrentar as estruturas superiores das facções criminosas e citou a aprovação de uma lei antifacção como parte das ações do governo.

O presidente disse ainda que o Brasil está preparado para trabalhar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico e lembrou que apresentou ao presidente Donald Trump uma proposta de cooperação.

Ministério da Segurança dependerá de PEC

Câmara aprova PEC da Segurança Pública
Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados

Lula defendeu a PEC da Segurança Pública, que reorganiza as atribuições de União, estados e municípios. Segundo ele, a proposta está sendo negociada com os presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP).

O presidente afirmou que pretende criar um Ministério da Segurança Pública caso a PEC seja aprovada.

“A hora que for aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública.”

Lula também foi questionado sobre a violência na Bahia, estado governado pelo PT há 20 anos e que possui cinco das dez cidades mais violentas do país. O presidente considerou injusta a associação entre os índices de criminalidade e os governos petistas e afirmou que nenhum governador brasileiro conseguiu resolver completamente o problema da segurança.

INSS: Lula diz que R$ 3 bilhões foram ressarcidos

O escândalo envolvendo descontos indevidos no INSS também foi discutido. Lula afirmou que aproximadamente R$ 3 bilhões foram ressarcidos e disse que os valores serão recuperados também por meio dos bens apreendidos dos investigados.

Segundo o presidente, CGU e Polícia Federal passaram dois anos investigando o caso antes da divulgação das ações. Lula afirmou que antecipar as informações poderia ter prejudicado as investigações.

Questionado sobre Carlos Lupi (PDT), que deixou o Ministério da Previdência em meio ao escândalo, Lula defendeu a manutenção da relação com o aliado. Segundo ele, Lupi não está condenado e deve ser considerado inocente enquanto as investigações não forem concluídas.

Sobre a fila do INSS, Lula afirmou que pretende anunciar na próxima semana que a espera foi praticamente zerada. Segundo o presidente, deverão permanecer cerca de 251 mil pessoas aguardando até 45 dias, número que classificou como normal.

Lula defende Jaques Wagner no caso Master

Carlos Moura/Agência Senado

O senador Jaques Wagner (PT) também foi citado durante a entrevista. Lula foi questionado sobre as investigações envolvendo o parlamentar e sobre sua decisão de continuar apoiando sua candidatura à reeleição.

O presidente destacou a relação de aproximadamente 45 anos com Wagner e afirmou que as pessoas devem ser consideradas inocentes até que existam provas em contrário.

“Eu tenho confiança que o Wagner é honesto.”

Lula acrescentou que, caso seja comprovado algum desvio, o senador deverá responder pelos próprios atos.

Educação fecha lista de prioridades apresentadas por Lula

Na educação, Lula destacou a ampliação das escolas de tempo integral, o pacto pela alfabetização na idade certa, o programa Pé-de-Meia e a expansão das universidades e institutos federais.

O presidente afirmou ter orgulho de sua atuação na área e defendeu as políticas adotadas durante seu governo.

Questionado sobre um estudo do Todos Pela Educação segundo o qual seis em cada dez jovens concluem o ensino médio público sem domínio básico de matemática, Lula destacou a responsabilidade dos estados sobre a educação básica e citou Ceará e Piauí como exemplos de bons resultados.

Também mencionou o desempenho de estudantes cearenses no vestibular do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).

  • Publicado: 28/08/2026 07:41
  • Alterado: 28/08/2026 07:42
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: ABCdoABC