Vacina: quando tudo vira disputa política e vidas ficam em xeque

Queda da cobertura vacinal infantil e avanço do sarampo mostram os riscos da desinformação e da politização de políticas públicas de saúde no Brasil.

Vacina: quando tudo vira disputa política e vidas ficam em xeque

Crédito: Divulgação

Vírus não votam. Bactérias não têm partido. Doenças não seguem conceitos. Infelizmente, um dos efeitos mais preocupantes da polarização política é a transformação de temas técnicos e científicos em campos de batalha ideológica. E poucos exemplos ilustram isso tão bem quanto à queda da cobertura vacinal infantil no Brasil.

Dados recentes acendem o alerta nacional: até 7/8, ao menos 24 casos de sarampo foram confirmados no País, a maioria no estado de São Paulo. Na capital paulista, maior cidade brasileira, a cobertura está em torno de 75% – índice baixo, segundo especialistas, já que, somente se consegue prevenir a transmissão com cerca de 95%. Cada ponto percentual representa milhares de crianças desprotegidas.

É claro que tal redução tem várias causas: dificuldades de acesso, mudanças na rotina das famílias e desafios enfrentados pelos serviços de Saúde. Mas seria ingenuidade ignorar outro fator que ganhou força nos últimos anos: a desinformação e a desconfiança em relação às vacinas, alimentadas por um ambiente de radicalização. Evidências científicas passaram a disputar espaço com boatos. Este, talvez, seja um dos maiores prejuízos da polarização: quando tudo vira disputa política, até o que salva vidas passa a ser questionado.

Durante décadas, vacinar uma criança era um ato de cuidado, uma tradição. Pais e mães zelosos levavam seus filhos aos postos porque confiavam na Medicina e no Programa Nacional de Imunizações (PNI) – um dos maiores patrimônios da Saúde Pública brasileira.

Entre 2020 e 2021, na pandemia da
Covid-19, vivemos um dos momentos mais difíceis e tristes da história recente. Só no Brasil, mais de 700 mil vidas foram ceifadas pelo Novo Coronavírus. O País se enlutou e lutou para evitar mais contaminações e mortes. Para tanto, Prefeituras e Estados ergueram hospitais de campanha, ampliaram leitos, adotaram protocolos de prevenção (como o uso de máscaras cirúrgicas) e restrições sanitárias, a fim de proteger a população. Cada ação foi providencial.

Mas foi a imunização em massa que reduziu internações, diminuiu casos graves, salvou milhares de pessoas e permitiu que a sociedade retomasse suas atividades com segurança, dando início ao “novo normal”.

Os antídotos estão entre as maiores conquistas da humanidade. Graças a eles, graves enfermidades foram erradicadas, como a varíola, enquanto poliomielite, sarampo, rubéola e tantas outras passaram a ser controladas em diversas nações.

Em pleno século 21, questionar os imunizantes, sem qualquer fundamento científico, e espalhar inverdades sobre eficácia, significa abrir espaço para o retorno de moléstias que já não faziam parte da realidade desta e de gerações passadas.

Recuperar a confiança na vacinação precisa ser prioridade, sendo esta uma obrigação do poder público. Isso exige campanhas de conscientização, disseminação de informação correta e objetiva sobre o tema, e seriedade no debate público.

O que vemos, hoje, com a queda na imunização da população brasileira, a resistência às vacinas e o negacionismo, é a constatação daquilo que tenho insistido em defender: precisamos de menos radicalização, de menos polarização e de mais responsabilidade.

Quando se coloca em dúvida uma política pública que há décadas salva milhões de vidas, quem paga essa conta é toda a sociedade e, principalmente, nossas crianças — o nosso futuro.

*Paulo Serra é especialista em Gestão Governamental e em Políticas Públicas, pela Escola Paulista de Direito; e em Financiamento de Infraestrutura, Regulação e Gestão de Parcerias Público-Privadas (PPPs), pela Universidade de Harvard (Estados Unidos); cursou Economia, na Universidade de São Paulo (USP); é graduado em Direito, pela Faculdade de Direito de São Bernardo do Campo-SP; professor universitário no curso de Direito, também é vice-presidente da Executiva Nacional do PSDB, presidente do Diretório Estadual do PSDB de São Paulo, e vice-presidente da Federação PSDB-Cidadania paulista; foi prefeito de Santo André-SP, de 2017 a 2024.

  • Publicado: 13/08/2026 11:04
  • Alterado: 13/08/2026 11:15
  • Autor: Paulo Serra
  • Fonte: Paulo Serra