Terremoto na Venezuela e as pessoas com deficiência nas emergências humanitárias
Em situações de desastre, a falta de acessibilidade e a invisibilidade midiática ampliam barreiras e colocam vidas em risco
- Publicado: 22/07/2026 10:36
- Alterado: 22/07/2026 10:38
- Autor: Amanda Ganzarolli
- Fonte: ABCdoABC
Enquanto o mundo acompanha as imagens da destruição provocada pelo terremoto na Venezuela, uma pergunta permanece praticamente ausente da cobertura jornalística: como sobrevivem as pessoas com deficiência em situações de emergência?
A resposta passa por uma invisibilização que não começa quando a terra treme. Ela já existia antes, construída pela ausência de dados, pela falta de acessibilidade e pela maneira como pessoas com deficiência continuam sendo pouco representadas na mídia. Em emergências humanitárias, os números de mortos, feridos e desabrigados ocupam o centro das reportagens, mas quase nunca sabemos quantas dessas vítimas possuem algum tipo de deficiência, quais barreiras enfrentaram para escapar, acessar informações ou receber ajuda humanitária.
A invisibilidade dos dados no contexto venezuelano
A situação torna-se ainda mais preocupante quando observamos o contexto venezuelano. Segundo dados do XIV Censo Demográfico e Habitacional, realizado em 2011, a Venezuela contabilizava mais de 1 milhão de pessoas com deficiência. Antes mesmo do terremoto que atingiu o país, a Venezuela já enfrentava uma prolongada crise humanitária, marcada pelo deslocamento forçado de mais de 7,9 milhões de pessoas, dificuldades econômicas e limitações no acesso a serviços básicos, segundo dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR). Entretanto, quase não existem dados públicos que permitam compreender quantas pessoas com deficiência fazem parte dessa população que necessita de assistência. Quando um grupo sequer é contabilizado, torna-se muito mais difícil garantir que suas necessidades sejam consideradas nas políticas de prevenção, resposta e reconstrução.
Essa realidade dialoga diretamente com o modelo social da deficiência, que compreende que as maiores limitações não estão nas características individuais, mas nas barreiras impostas pela sociedade. Ambientes inacessíveis, ausência de recursos de comunicação, políticas públicas insuficientes e atitudes capacitistas ampliam desigualdades que, em situações extremas, podem colocar vidas em risco.
As barreiras enfrentadas pelas pessoas com deficiência em emergências

Barreiras de comunicação
A comunicação é um dos exemplos mais evidentes. Um alerta exclusivamente sonoro não alcança uma pessoa com deficiência auditiva. Um mapa sem recursos de acessibilidade pouco auxilia uma pessoa com deficiência visual. Informações divulgadas sem adaptações podem dificultar a compreensão por pessoas com deficiência intelectual ou por indivíduos que utilizam formas alternativas de comunicação. Nessas circunstâncias, a acessibilidade comunicacional deixa de ser apenas um direito previsto em lei para tornar-se uma condição essencial para a proteção da vida.
Barreiras de mobilidade
As barreiras também se manifestam na mobilidade. Pessoas usuárias de cadeira de rodas podem encontrar mais obstáculos em ruas tomadas por escombros. Pessoas com mobilidade reduzida enfrentam dificuldades para evacuar áreas de risco. Pessoas com deficiência visual precisam reconstruir suas referências espaciais em ambientes completamente modificados. Pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) que necessitam de grande suporte podem apresentar dificuldades para compreender rapidamente a situação de emergência ou lidar com mudanças bruscas sem o suporte adequado.
Esses exemplos demonstram que desastres naturais não afetam todas as pessoas da mesma maneira. Pelo contrário, eles ampliam desigualdades que já existiam antes da emergência.
Por isso, planos de prevenção e resposta humanitária precisam incorporar diferentes dimensões da acessibilidade: arquitetônica, comunicacional, metodológica, instrumental, programática e atitudinal. Sem elas, milhões de pessoas permanecem excluídas justamente quando mais precisam de proteção.

O papel do jornalismo na visibilidade e na garantia de direitos
O jornalismo também desempenha um papel fundamental nesse processo. Mais do que registrar imagens de destruição, a cobertura pode revelar quem permanece invisibilizado. Quantas reportagens investigaram se os abrigos eram acessíveis? Quantas verificaram se havia intérpretes de Língua de Sinais, materiais em formatos acessíveis ou profissionais preparados para atender diferentes necessidades? Quantas ouviram pessoas com deficiência sobre sua experiência durante uma situação de emergência?
O silêncio diante dessas perguntas também comunica. Quando pessoas com deficiência não aparecem nas narrativas sobre emergências humanitárias, reforça-se a falsa impressão de que elas não existem ou de que suas necessidades são secundárias. Invisibilizar essas experiências significa limitar a compreensão da sociedade sobre os impactos reais desses eventos e enfraquecer o debate sobre políticas públicas mais inclusivas.
O terremoto na Venezuela nos convida a refletir sobre uma pergunta que deveria acompanhar toda cobertura de emergências humanitárias: quem está sendo deixado para trás? Enquanto essa resposta continuar ausente das reportagens e das políticas públicas, pessoas com deficiência seguirão enfrentando uma dupla vulnerabilidade, aquela provocada pelo desastre e aquela produzida pela invisibilização.
Essa reflexão acompanha minha trajetória como pesquisadora da relação entre comunicação e deficiência e também está presente no livro Venezuelanos com autismo em situação de refúgio – interseccionalidade, jornalismo humanitário e media interventions. A obra parte da compreensão de que a forma como a mídia retrata ou deixa de retratar as pessoas com deficiência, influencia diretamente sua visibilidade social. Em momentos de emergência, essa invisibilização deixa de ser apenas uma questão de representação e passa a impactar o acesso à informação, ao resgate e à garantia de direitos.
Mais do que documentar acontecimentos, a comunicação tem o poder de ampliar vozes, revelar desigualdades e influenciar transformações sociais. Tornar visíveis as experiências das pessoas com deficiência não é apenas uma questão de representatividade. É reconhecer que o acesso à informação, à proteção e aos direitos também pode significar a diferença entre a vida e a morte.
Sobre a autora

Amanda Ganzarolli é jornalista, Mestra e doutoranda em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo, pesquisadora das relações entre mídia, inclusão e pessoas com deficiência e autora do livro Venezuelanos com autismo em situação de refúgio: interseccionalidade, jornalismo humanitário e media interventions, resultado de sua pesquisa de mestrado.