Fiscalização revela falhas graves e aterros irregulares no ABC

TCESP aponta descarte clandestino, problemas ambientais e irregularidades na gestão de resíduos em cidades do Grande ABC

Crédito: (Divulgação/TCESP)

O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCESP) encontrou aterros irregulares e falhas severas na gestão de resíduos sólidos em 83,33% dos locais vistoriados. Auditores mapearam a infraestrutura de tratamento e destinação de lixo urbano em 203 municípios do estado. A chamada 3ª Fiscalização Ordenada de 2026 mostra um cenário crônico de descarte clandestino que atinge 67% das cidades avaliadas, englobando polos econômicos e populacionais do Grande ABC.

A ofensiva do órgão fiscalizador documentou a fragilidade ambiental nos sistemas de transbordo e triagem regionais. Inspetores confirmaram inconformidades operacionais em 72,41% das áreas intermediárias de manejo de materiais recicláveis e orgânicos. A situação agrava-se com a constatação de que 47,06% destas estações funcionam à margem da lei, operando sem licença ambiental válida expedida pela CETESB.

Déficits na cobertura básica penalizam populações afastadas dos centros urbanos. Administrações de 39,90% das cidades admitiram incapacidade de atender integralmente zonas rurais com coleta domiciliar. O vácuo no serviço público impulsiona o surgimento de lixões clandestinos e compromete nascentes e áreas de preservação permanente.

Crise de governança e arrecadação

O diagnóstico apontou omissão administrativa na regulação do saneamento básico. Mais de um terço das prefeituras (35,96%) não estabeleceu entidades reguladoras para monitorar o serviço prestado e segue sem regulamentar a coleta seletiva. Programas estruturados de educação ambiental inexistem em 34,48% das localidades vistoriadas.

Gestores municipais enfrentam dificuldades para financiar a manutenção da máquina pública voltada à limpeza urbana. O levantamento revelou que 29,06% das cidades recusam-se a cobrar taxas pelo manejo de resíduos sólidos. Esse passivo financeiro impede investimentos em tecnologia e modernização das frotas especializadas. O abandono institucional estende-se aos resíduos hospitalares, ignorados em 50,25% dos planos municipais de gerenciamento.

Aterros irregulares e o silêncio em São Bernardo

TCESP aponta aterros irregulares em Santo André e São Bernardo
(Divulgação/TCESP)

O panorama regional do Grande ABC trouxe apontamentos diretos sobre problemas em solo são-bernardense. Fiscais registraram extensas áreas de descarte ilegal na confluência da Estrada Poney Club com a Estrada dos Alvarengas. O cruzamento tornou-se um símbolo da ineficiência na fiscalização de caçambeiros e empresas de entulho.

A degradação ambiental avança sobre áreas residenciais e periféricas do município. Relatórios técnicos listaram acúmulo de rejeitos no Jardim Cláudia e na Rua Paulo Lazzuri. O documento do Tribunal de Contas detalha a perigosa existência de uma vila habitacional inteira consolidada sobre o antigo lixão do Jardim Alvarenga.

A reportagem entrou em contato com a Prefeitura de São Bernardo do Campo para questionar sobre o levantamento feito pela TCESP, mas não obteve resposta até o momento do fechamento desta matéria.

Santo André defende zeladoria intensiva

(Divulgação/TCESP)

Auditores estaduais sinalizaram problemas pontuais no território andreense, destacando despejo irregular na Avenida Professor Luiz Ignácio Anhaia Mello, na altura do número 500. A fiscalização documentou a presença de urubus e grande volume de lixo no Morro da Kibon. O Serviço Municipal de Saneamento Ambiental de Santo André (Semasa) acompanhou as equipes estaduais e prestou esclarecimentos imediatos durante a operação.

As fotos enviadas representam pontos de acúmulo de resíduos, que foram descartados de forma irregular”, argumentou a autarquia em nota enviada à redação. O Semasa garantiu executar um cronograma contínuo de limpeza nas áreas críticas. O órgão municipal aposta no Programa Ponto Limpo para mitigar as infrações por meio da mobilização social de moradores.

Operações logísticas diárias tentam conter a sujeira nas ruas da cidade. O município afirma executar coleta porta a porta em 100% de sua malha urbana. Caminhões recolhem materiais úmidos três vezes na semana, enquanto os recicláveis secos contam com rotas semanais. Regiões centrais, como o bairro Casa Branca, recebem equipes de segunda a sábado. O combate institucional à proliferação de pequenos lixões e aterros irregulares demanda vigilância ininterrupta da gestão pública.

Intervenções públicas no Morro da Kibon

(Helber Aggio/PSA)

O local citado negativamente pelo TCESP passa por transformação estrutural focada em mobilidade e saneamento, segundo a Prefeitura de Santo André. A gestão injeta atualmente R$ 3,9 milhões em obras de drenagem superficial, pavimentação asfáltica, iluminação e criação de áreas de lazer no Morro da Kibon.

É um grande pacote de intervenções aprovado pelo CMPU, que é o nosso Conselho Municipal de Política Urbana, e vai revitalizando toda nossa Santo André”, defendeu o prefeito Gilvan Ferreira. O projeto em andamento contempla a instalação de um muro de contenção e a construção de uma quadra esportiva, demandas históricas das famílias locais.

São várias obras emergenciais que vão preparar o Morro da Kibon para o próximo período de chuva que chega”, explicou a secretária de Desenvolvimento Urbano e Habitação, Marília Camargo. Vias periféricas abandonadas por gestões anteriores, incluindo a Travessa Quatro de Junho, Vila 5, Rua Marielle Franco e Rua Antônio Mendes, ganham obras de requalificação, incluindo travessias com aduelas de concreto.

O futuro do planejamento ambiental

Dados recolhidos durante a ofensiva estadual alimentarão relatórios técnicos destinados aos prefeitos e secretários do Meio Ambiente. Os documentos individuais passarão pelo crivo dos Conselheiros Relatores das Contas Anuais, podendo gerar multas rigorosas e rejeição de balanços financeiros públicos.

A destinação adequada dos resíduos deixou de ser apenas uma questão ambiental. Trata-se de um tema diretamente ligado à saúde pública, à qualidade de vida da população e à sustentabilidade das cidades”, declarou a presidente do TCESP, conselheira Cristiana de Castro Moraes.

O objetivo do Tribunal não é apenas fiscalizar, mas contribuir para que os gestores aperfeiçoem suas políticas públicas”, completou a presidente. Gestores públicos enfrentam um ultimato para transformar a burocracia em ações concretas. Eliminar os aterros irregulares exige planejamento técnico, investimento robusto e ação imediata dos governantes.

Confira abaixo fotos dos locais apontados pela TCESP em Santo André e São Bernardo

*Imagens 1 a 8 referentes às vistorias realizadas em Santo André; imagens 9 a 12 correspondem às inspeções efetuadas em São Bernardo do Campo

  • Publicado: 24/06/2026 16:25
  • Alterado: 24/06/2026 16:25
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: ABCdoABC