Rio de Janeiro acumula obras paradas e projetos travados
Rio de Janeiro tem projetos de infraestrutura anunciados há décadas que seguem sem conclusão, gerando perdas para a população e para a economia
- Publicado: 06/09/2026 11:42
- Alterado: 06/09/2026 11:42
- Autor: Gabriel de Jesus
O Rio de Janeiro acumula, há décadas, projetos de infraestrutura que foram estudados, anunciados e, em alguns casos, chegaram a receber recursos públicos, mas nunca foram concluídos. As propostas envolvem principalmente mobilidade urbana e prometem reduzir congestionamentos, melhorar o transporte e estimular o desenvolvimento econômico do Estado.
Entre os projetos que seguem no radar estão expansões do metrô, novas ligações rodoviárias e estruturas que poderiam ampliar a capacidade do sistema de transporte. No fim de agosto, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) apontou 15 projetos prioritários para ampliar metrô, VLT e BRT no Rio, na Baixada Fluminense e na Região Metropolitana. O conjunto das intervenções exigiria pelo menos R$ 68 bilhões.
Enquanto novas propostas continuam sendo estudadas, outras permanecem paradas há anos.
Rio de Janeiro acumula projetos de mobilidade sem conclusão
Para o professor Rômulo Orrico, do Programa de Engenharia de Transportes da Coppe/UFRJ, a demora na execução de grandes projetos produz impactos diretos sobre a população.
No caso de uma eventual implantação da Linha 3 do metrô, por exemplo, ele avalia que haveria ganhos para usuários do transporte público, trabalhadores e até motoristas.
“Se a Linha 3 fosse de fato implementada, por exemplo, haveria vários tipos de ganhos. Os usuários passariam a ganhar mais tempo e teriam um custo naturalmente mais baixo.”
O especialista também destaca que a redução da quantidade de veículos nas ruas poderia beneficiar quem continua utilizando automóveis, com impacto sobre os congestionamentos.
Linha 3 do metrô no Rio de Janeiro
Entre os projetos mais antigos está a Linha 3 do metrô, que prevê uma ligação entre o Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e Itaboraí.
A proposta chegou a ter recursos anunciados em 2013, mas as obras nunca começaram. Neste ano, a Coppe/UFRJ apresentou detalhes de um estudo técnico que prevê aproximadamente 50 quilômetros de extensão e 29 estações. A estimativa é de que a linha possa beneficiar cerca de 1,7 milhão de pessoas.
O consultor da Fecomércio RJ e ex-secretário estadual de Transportes, Delmo Pinho, considera o projeto importante, mas afirma que a linha precisaria chegar ao interior de São Gonçalo para produzir o efeito esperado.
Extensão da Linha 2 também segue pendente
Outro projeto antigo é a extensão da Linha 2 do metrô entre Estácio e Praça XV. A proposta, concebida ainda nas décadas de 1970 e 1980, prevê uma ligação de aproximadamente três quilômetros, com custo estimado pelo BNDES em R$ 3,3 bilhões.
Desde 2009, a Linha 2 compartilha a infraestrutura da Linha 1 entre Estácio e Botafogo, uma configuração que limita a frequência dos trens nas duas linhas.
Segundo a Prefeitura do Rio de Janeiro, a conclusão da ligação poderia aumentar em até 70% a capacidade da Linha 2, ao eliminar cruzamentos operacionais e permitir que os trens deixassem de utilizar trechos compartilhados.
A Secretaria Estadual de Transporte e Mobilidade Urbana do Rio de Janeiro considera a ligação Estácio–Praça XV um dos projetos prioritários do governo estadual. O financiamento está em discussão com o BNDES, e a expectativa é que a extensão possa transportar cerca de 450 mil passageiros por dia.
Estação Rio Sul está parcialmente escavada
Outro exemplo de obra que atravessou décadas é a Estação Rio Sul, também conhecida como Estação São João, em Botafogo.
Segundo Delmo Pinho, parte da estrutura subterrânea já foi escavada e a linha do metrô passa pelo local. A avaliação é de que a conclusão poderia custar menos do que a construção de uma estação completamente nova.
O projeto fazia parte da expansão da Linha 1 e previa acesso pela Rua Álvaro Ramos. Mais de 30 anos depois dos primeiros planos, a estação continua sem conclusão.
Via Light poderia aliviar trânsito
Na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, um dos projetos citados é a ampliação da Via Light, oficialmente denominada Rodovia Carlinhos da Tinguá.
A proposta prevê uma extensão capaz de conectar a via à Linha Vermelha e a Madureira, criando uma alternativa para a circulação de veículos e ajudando a reduzir a pressão sobre a Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro.
Segundo Delmo, a medida poderia dividir o fluxo atualmente concentrado na Dutra e melhorar o deslocamento de moradores da Baixada Fluminense.
A proposta existe há anos e já foi incluída em discussões entre Estado e Prefeitura, mas ainda não avançou para a execução completa.
Obras paradas também afetam a economia
Os efeitos dos projetos que não saem do papel vão além da mobilidade. A economista e planejadora financeira Isabel Abreu explica que uma obra anunciada já movimenta o mercado, mesmo antes do início da construção.
“Uma obra anunciada movimenta o mercado antes mesmo de sair do papel: incorporadora avalia terreno, empresa planeja logística, prefeitura inclui a obra em contas futuras.”
Quando o projeto é interrompido, segundo ela, investimentos podem ser direcionados a outras regiões. Além disso, a retomada anos depois pode exigir atualização de estudos, projetos, licenças e custos de construção.
Para o CIO da Pilar Capital, Cassio Vianna, os impactos podem ser divididos em três frentes: perda de estímulo econômico, frustração das expectativas criadas pela obra e desgaste institucional.
Projetos anunciados e não entregues também podem aumentar a percepção de risco de investidores, afetando condições de financiamento e exigências para novos empreendimentos.
Custos aumentam com o tempo
Obras paralisadas também podem gerar despesas adicionais para o poder público. O engenheiro Leandro Domaredzky, especialista em regulação, gestão de projetos, finanças, infraestrutura e contabilidade, cita custos de manutenção, conservação e monitoramento.
Também podem surgir multas, indenizações, litígios, pedidos de reequilíbrio contratual, novas licitações, atualização de projetos e renovação de licenças.
Ou seja, quanto mais tempo uma estrutura permanece inacabada, maior pode ser a conta final para o poder público e, consequentemente, para os contribuintes.
Gávea é exemplo de obra que avançou
Nem todos os projetos permanecem completamente parados no Rio de Janeiro. As obras da Estação Gávea da Linha 4, por exemplo, foram retomadas em abril de 2025.
Segundo a Secretaria Estadual de Transporte e Mobilidade Urbana, aproximadamente 45 mil toneladas de rocha já haviam sido retiradas e cerca de 70 metros do túnel piloto foram escavados.
Os investimentos previstos para a conclusão da estação são de R$ 600 milhões do MetrôRio e R$ 97 milhões do Governo do Estado. A previsão informada pela secretaria é de inauguração no segundo semestre de 2028.
Contorno de Campos também aguarda avanço
Outro projeto citado é o Contorno de Campos dos Goytacazes, planejado para retirar o tráfego pesado do centro da cidade.
A obra nunca foi executada e, por isso, caminhões continuam utilizando a malha urbana. A proposta deixou de ser uma obrigação imediata após mudanças no contrato da BR-101 Norte, permanecendo prevista a elaboração do projeto executivo e o licenciamento ambiental.
O cenário evidencia como o Rio de Janeiro convive simultaneamente com obras retomadas, projetos em estudo e empreendimentos que atravessam décadas sem sair do papel.
Enquanto novas alternativas são anunciadas para melhorar a infraestrutura, especialistas alertam que a falta de continuidade amplia custos, reduz a competitividade e adia benefícios que poderiam ser sentidos pela população do Rio de Janeiro e de toda a Região Metropolitana.