Quando a dor vira paisagem
A repetição não torna a injustiça normal; Cidadãos, empresas e poder público precisam preservar a indignação e assumir a responsabilidade que lhes cabe
- Publicado: 21/08/2026 14:35
- Alterado: 21/08/2026 16:20
- Autor: Dom Veiga
Há imagens que deveriam nos interromper. Uma criança com fome, uma pessoa dormindo na rua, alguém impedido de entrar em um lugar por causa de uma barreira, uma família esperando por uma oportunidade que nunca chega. São situações que, em qualquer sociedade verdadeiramente comprometida com o ser humano, deveriam provocar desconforto. No entanto, passamos por elas diariamente e, muitas vezes, seguimos adiante. Talvez porque a repetição tenha conseguido realizar aquilo que nenhum argumento seria capaz de justificar: transformar o absurdo em paisagem.
Essa talvez seja uma das características mais inquietantes do nosso tempo. Nunca estivemos tão expostos às dores do mundo e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos corrido tanto o risco de nos acostumar com elas. A tela do celular nos apresenta, em poucos minutos, uma guerra, uma tragédia, uma família em situação de vulnerabilidade, uma pessoa pedindo ajuda, um desastre ambiental e, logo depois, uma propaganda, uma piada ou uma notícia sobre entretenimento. A dor e a distração passaram a ocupar o mesmo espaço, separadas apenas pelo movimento de um dedo.
Não é difícil compreender por que isso acontece. O ser humano não foi feito para absorver diariamente uma quantidade praticamente ilimitada de sofrimento. Existe um mecanismo de proteção na repetição: aquilo que inicialmente nos choca pode, com o tempo, deixar de produzir a mesma reação. O problema começa quando essa adaptação emocional ultrapassa os limites da proteção e se transforma em indiferença.
Uma sociedade não precisa sentir a mesma intensidade diante de todas as dores para ser humana. Mas precisa preservar a capacidade de reconhecer quando uma situação que se tornou comum continua sendo profundamente injusta.
Quando o absurdo começa a parecer normal

É aqui que a responsabilidade social começa a assumir uma dimensão mais exigente. Ela não consiste apenas em reagir quando uma tragédia alcança grande repercussão. Consiste também em não permitir que problemas permanentes deixem de nos incomodar simplesmente porque aprendemos a conviver com eles.
A pobreza não se torna aceitável porque existe há décadas. A falta de acessibilidade não deixa de ser uma violação porque tantas pessoas já aprenderam a contornar barreiras. A exclusão profissional de pessoas com deficiência não se torna menos grave porque o mercado ainda não conseguiu resolvê-la. Uma criança fora da escola não representa menos urgência porque existem milhares de outras na mesma situação.
A repetição de um problema não é prova de que ele seja inevitável. Muitas vezes, é apenas prova de que nos acostumamos a ele. Talvez seja justamente essa acomodação que precisamos combater.
O cidadão possui responsabilidade porque não pode transformar toda necessidade coletiva em problema de terceiros. As empresas possuem responsabilidade porque sua influência econômica também produz consequências sociais e porque prosperidade não deveria ser dissociada da comunidade na qual é construída. E o poder público possui uma responsabilidade que não pode ser substituída por campanhas ocasionais: transformar necessidades persistentes em políticas públicas permanentes, capazes de enfrentar as causas dos problemas e não apenas administrar seus efeitos.
Nenhum desses papéis elimina os demais. Ao contrário. Uma sociedade madura entende que responsabilidade social não é uma corrida para descobrir quem deve fazer alguma coisa. É a compreensão de que cada setor possui uma parcela que não pode ser abandonada à espera de que outro assuma.
Dignidade não pode depender de audiência
Talvez por isso seja tão perigoso transformar a dor em espetáculo. Quando o sofrimento precisa se tornar extraordinário para merecer nossa atenção, acabamos ignorando aquele que se tornou cotidiano. A tragédia que aparece em todos os jornais mobiliza milhões; a dificuldade silenciosa que acontece todos os dias pode passar despercebida durante anos.
Mas a dignidade humana não deveria depender de audiência. Uma pessoa não merece acessibilidade porque sua história viralizou. Uma família não merece oportunidades porque sua dificuldade foi compartilhada nas redes sociais. Uma criança não merece proteção porque uma fotografia emocionou milhares de pessoas. Direitos e dignidade não podem depender da capacidade de uma história de conquistar engajamento.
É justamente por isso que precisamos recuperar uma palavra que parece simples, mas que talvez seja uma das mais importantes para o futuro: responsabilidade.
Responsabilidade é olhar novamente para aquilo que já vimos muitas vezes e perguntar por que ainda continua acontecendo. É recusar a ideia de que o tempo transforma injustiça em normalidade. É compreender que uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não é aquela que aprendeu a conviver melhor com seus problemas, mas aquela que se recusa a aceitá-los como destino.
A diferença entre ver e enxergar

Talvez o grande desafio deste século não seja apenas desenvolver novas tecnologias, construir economias mais fortes ou produzir mais conhecimento. Talvez seja preservar nossa capacidade de continuar enxergando o outro em meio a uma avalanche de informações que ameaça transformar tudo em apenas mais uma notícia.
Existe uma diferença enorme entre ver e enxergar. Ver é perceber que algo aconteceu. Enxergar é reconhecer que aquilo também diz respeito a nós. E talvez seja justamente aí que comece a responsabilidade social: no momento em que a dor do outro deixa de ser apenas uma informação que atravessou nossa tela e passa a ser uma realidade diante da qual decidimos não permanecer indiferentes.
A pergunta desta sexta-feira, portanto, talvez seja menos confortável do que gostaríamos: Quantas coisas que deveriam nos indignar deixaram de nos incomodar simplesmente porque nos acostumamos a vê-las?
Uma reflexão: Quando a dor vira paisagem, quem ainda se sente responsável por mudá-la?
Dom Veiga

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.