O voto não termina na urna
No segundo turno, escolher quem governará é apenas parte da cidadania, que continua na fiscalização dos eleitos e na participação ativa de cada cidadão
- Publicado: 09/10/2026 17:30
- Alterado: 09/10/2026 17:30
- Autor: Dom Veiga
O voto marca o início do segundo turno e, com ele, o Brasil volta a ser tomado por propaganda eleitoral, debates, discursos, promessas, críticas, respostas e muitas certezas sobre aquilo que o país deveria fazer nos próximos anos. Em meio a tantas discussões sobre candidatos e propostas, porém, existe uma pergunta que recebe muito menos atenção: o que nós, cidadãos, faremos depois que escolhermos quem vai governar?
Votar é uma das manifestações mais importantes da cidadania, mas está longe de ser a última. O eleitor escolhe seus representantes e, depois, precisa acompanhar, fiscalizar, questionar e comparar aquilo que foi prometido durante a campanha com o que efetivamente será realizado. Também precisa observar como os recursos públicos são utilizados e aprender a reconhecer acertos sem transformar políticos em ídolos, assim como deve questionar erros sem converter adversários em inimigos. Isso também é democracia.
O problema é que, muitas vezes, exigimos responsabilidade absoluta dos candidatos durante a eleição e nos permitimos desaparecer da vida pública assim que a votação termina. Durante a campanha, cobramos propostas, compromissos e transparência. Depois, deixamos de acompanhar aquilo que foi apresentado e só voltamos a olhar com atenção para a política quando uma nova eleição se aproxima.
A responsabilidade começa antes da escolha
Não deveria ser assim. Neste segundo turno, o eleitor pode consultar informações oficiais sobre as candidaturas, conhecer propostas e comparar aquilo que está sendo apresentado antes de decidir seu voto. É uma oportunidade para se afastar, ainda que por alguns momentos, do barulho das redes sociais e buscar elementos concretos que permitam uma escolha consciente.
Esse cuidado é indispensável, mas representa apenas uma parte da responsabilidade. A democracia não pode funcionar como um contrato pelo qual entregamos nosso voto a alguém e, em troca, terceirizamos durante os anos seguintes tudo aquilo que esperamos do país.
O cidadão tem o direito e o dever de acompanhar quem recebeu sua confiança. Isso significa cobrar compromissos, observar decisões e continuar interessado pela vida pública depois que as urnas forem fechadas. O voto escolhe quem vai governar, mas a cidadania determina quanto estamos dispostos a participar.
Essa participação também exige equilíbrio. Fiscalizar não significa torcer pelo fracasso de quem venceu, assim como reconhecer uma decisão correta não exige adesão política. Uma sociedade democrática precisa ser capaz de cobrar seus representantes sem transformar cada divergência em uma disputa entre inimigos.
O país não cabe apenas no governo

Existe, porém, uma responsabilidade ainda maior. Não podemos olhar apenas para Brasília sempre que discutimos o Brasil que desejamos construir. A transformação de uma sociedade também passa pelo cidadão e pelas empresas que assumem sua responsabilidade social porque acreditam nela, e não somente porque uma iniciativa pode render uma fotografia, uma campanha ou algum reconhecimento público.
Passa também por quem reclama da educação e procura compreender de que maneira pode contribuir para melhorá-la; por quem se preocupa com a saúde pública e encontra formas de colaborar, inclusive por meio de atitudes como a doação de sangue; e por quem deseja uma sociedade mais justa e não permanece indiferente diante de uma injustiça simplesmente porque ela acontece com outra pessoa.
Nada disso substitui o papel do Estado. Governos foram eleitos justamente para formular políticas públicas, administrar recursos e responder pelas responsabilidades que lhes pertencem. Reconhecer o papel do cidadão não pode servir como justificativa para retirar obrigações do poder público. O que precisamos compreender é que uma sociedade também é resultado das relações, escolhas e responsabilidades assumidas por quem vive nela.
No dia seguinte à eleição, o Brasil continuará convivendo com seus desafios, desigualdades e oportunidades. Milhões de pessoas continuarão esperando que alguém faça alguma coisa para mudar aquilo que não funciona. Talvez esteja na hora de compreender que esse “alguém” não pode ser sempre o outro.
A cidadania continua quando a eleição termina

O segundo turno definirá quem receberá a responsabilidade de governar, mas nenhuma eleição consegue determinar sozinha a sociedade que existirá nos anos seguintes. Essa construção também dependerá da capacidade dos cidadãos de acompanhar seus representantes, participar do debate público, cobrar resultados e assumir responsabilidades dentro da própria comunidade.
Talvez seja essa uma das contradições mais persistentes da nossa relação com a política. Queremos representantes presentes, responsáveis e comprometidos, mas nem sempre aplicamos a mesma cobrança à nossa participação como cidadãos. Passamos muito tempo discutindo aquilo que o próximo governo deverá fazer e pouco tempo pensando no que continuará dependendo de nós quando a campanha acabar.
Por isso, o voto não pode ser entendido como o encerramento da participação política. Ele define representantes e entrega poder por um período determinado, mas não encerra o compromisso de quem fez essa escolha. A urna fecha, mas a responsabilidade continua.
A verdadeira independência de uma sociedade não está apenas na possibilidade de escolher livremente quem vai governá-la. Está também na capacidade de seus cidadãos compreenderem que construir um país mais justo e igualitário exige participação muito depois do último voto ser contabilizado.
Dom Veiga

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.