Nenesurreal ganha primeira grande mostra individual em SP
Pioneira do graffiti no Grande ABC, Nenesurreal expõe telas, esculturas com aço cirúrgico e a série Cabeçudas com entrada franca no Museu das Favelas em SP
- Publicado: 02/11/2026 10:02
- Alterado: 02/11/2026 10:03
- Autor: Daniela Ferreira
A artista visual, grafiteira, educadora e articuladora comunitária Nenesurreal, de 59 anos, ocupa os espaços do Museu das Favelas com a exposição individual “Antes de Surreal, Nene”. A mostra, aberta ao público no Centro Histórico da capital paulista, reúne obras multidisciplinares que transitam pelo graffiti, práticas têxteis, telas inéditas e esculturas, desafiando a lógica do etarismo e consagrando o protagonismo das mulheres negras nas artes visuais.
Natural de Diadema, Nenesurreal é pioneira da arte urbana paulistana. Sua trajetória começou na adolescência por meio do pixo e do graffiti, tendo sido retomada formalmente em 1996 com estreitas conexões com o movimento Hip Hop do Grande ABC e a histórica Casa do Hip Hop de Diadema.
Sob pesquisa e curadoria do jornalista e pesquisador Jairo Malta, a exposição exibe produções representativas de mais de três décadas de carreira, incluindo peças do acervo da Pinacoteca Municipal de Mauá.
Entre os destaques estão as famosas “Cabeçudas”, pinturas que retratam cabeças femininas sem feições demarcadas, afastando-se de estereótipos de sofrimento ou superforça para reivindicar autonomia e futuro.

A mostra também apresenta esculturas em concreto e aço cirúrgico, nas quais Nenesurreal ressignifica instrumentais hospitalares acumulados ao longo de seus mais de 20 anos de atuação como instrumentadora cirúrgica na saúde pública.
Vivência periférica, tempo espiralar e ruptura com padrões
A trajetória pessoal de Nene moldou sua poética: mãe aos 16 anos e viúva aos 19, ela transformou as rotinas do cuidado, da maternidade e do trabalho na saúde em matéria-prima artística. Sua produção dialoga com o conceito de tempo espiralar, entrelaçando passado e presente para afirmar a longevidade criativa de uma mulher periférica em plena maturidade produtiva.
“Ainda estou em um processo de aprender a receber. A gente que é mulher preta e da quebrada muitas vezes cai na cilada de achar que não merece. Para continuar no graffiti, o meu trabalho teve que ser um ‘vômito’, no sentido de tirar as amarras, rasgar as exigências de ‘técnica’ impostas e só jogar a verdade. A arte me salva todo dia, me dá vontade de lutar e viver. O que espero é que o público, especialmente jovens e mulheres pretas, veja essa mostra e entenda que existem muitas possibilidades, que a gente pode fazer o que quiser e não precisa mais servir a ninguém”, destaca a artista.
Para o curador Jairo Malta, a mostra consolida a autonomia da arte periférica.

“Nene é uma mulher doce e uma liderança nas artes de rua, com uma trajetória que abriu caminhos para outras mulheres negras. Pensar sua curadoria é reconhecer décadas de criação, enfrentamento e transmissão de saberes, sem tratar esse percurso como resgate ou descoberta tardia. Das esculturas às Cabeçudas, sua obra transforma memória e experiência em linguagem e reivindica o lugar da arte periférica no centro do debate estético, com autonomia e o direito de não se explicar por inteiro”.
A diretora do Museu das Favelas, Natália Cunha, reforça a dimensão da iniciativa.
“Acolher a primeira exposição de uma artista da envergadura e atemporalidade de Nenesurreal vai além de uma celebração curricular. O Museu das Favelas cumpre sua função ao dar rigor técnico, escala e centralidade a uma potência criativa e intelectual que há décadas já redefinia as artes urbanas a partir das periferias”.
Serviço:
- Curadoria e Pesquisa: Jairo Malta
- Período: Em cartaz até 11 de abril de 2027
- Visitação: De terça-feira a domingo, das 10h às 17h (permanência autorizada até as 18h)
- Local: Museu das Favelas
- Endereço: Largo Páteo do Colégio, 148 — Centro Histórico, São Paulo/SP
- Ingressos: Entrada gratuita (retirada disponível na bilheteria local ou pelo site oficial)
- Classificação Indicativa: Livre