Não terceirize sua responsabilidade

Enquanto o Brasil discute quem deve governar, é preciso olhar para o papel de cidadãos, empresas e instituições na construção de uma sociedade mais justa

Não terceirize sua responsabilidade

Crédito: (Lula Marques/Agência Brasil)

Existe uma curiosa tradição brasileira de procurar responsáveis sempre que alguma coisa dá errado. Quando um serviço público não funciona, quando a educação apresenta resultados insatisfatórios ou quando algum problema afeta a vida da população, rapidamente direcionamos nossas cobranças ao governo, ao prefeito, ao governador, ao presidente, ao Congresso, à escola, às empresas ou ao próprio sistema. Muitas dessas cobranças são legítimas e necessárias, porque governos, empresas e instituições possuem deveres que precisam ser cumpridos. Mas, em meio à procura por responsáveis, existe uma pergunta que raramente fazemos com a mesma disposição: qual é a nossa parcela de responsabilidade na sociedade que queremos transformar?

Um país não é construído exclusivamente por aqueles que ocupam cargos públicos ou tomam decisões dentro das instituições. Ele também é resultado das escolhas de quem abre uma empresa e define como tratará seus funcionários, de quem dirige uma escola e participa da formação de seus alunos, de quem cria uma organização social para transformar indignação em atitude e de quem decide compartilhar conhecimento, recursos ou tempo para contribuir com a vida de outras pessoas. São decisões que, embora nem sempre recebam atenção pública, interferem diretamente nas relações sociais e nas oportunidades disponíveis para a população.

Essa responsabilidade também alcança o cidadão que não ocupa cargos de liderança, não administra uma empresa e não participa formalmente de uma organização. Diante dos problemas cotidianos, cada pessoa encontra oportunidades de contribuir, seja participando de iniciativas comunitárias, acompanhando decisões que afetam seu bairro ou oferecendo aquilo que está ao seu alcance. Isso não significa que todas as pessoas disponham das mesmas condições para agir, mas que a participação social pode assumir diferentes formas, de acordo com a realidade de cada um.

Responsabilidade social não é exclusividade do Estado

Votação - Eleições - Responsabilidade
(Joédson Alves/Agência Brasil)

É fundamental estabelecer uma distinção nessa discussão. Defender a participação dos cidadãos não significa substituir o Estado ou retirar do poder público as obrigações que lhe pertencem. Governos precisam garantir direitos, formular políticas públicas, administrar recursos e responder pela qualidade dos serviços oferecidos à população. Da mesma maneira, empresas devem cumprir suas obrigações trabalhistas, respeitar consumidores e assumir os impactos de suas atividades. Nenhuma iniciativa individual pode servir como justificativa para o descumprimento desses deveres.

O que precisamos compreender é que responsabilidade social não é monopólio de governo, empresa ou organização social. É uma construção coletiva, na qual diferentes atores possuem atribuições distintas, mas igualmente relevantes para o desenvolvimento da sociedade. Uma empresa que trata seus funcionários com respeito, uma instituição que amplia oportunidades e um cidadão que participa das decisões de sua comunidade contribuem, cada um dentro de suas possibilidades, para a construção de relações sociais mais responsáveis.

Talvez seja justamente por isso que o segundo turno das eleições represente uma oportunidade para uma reflexão que ultrapassa os dois nomes apresentados aos eleitores. Enquanto discutimos quem deverá governar o Brasil, quais propostas merecem nossa confiança e quais compromissos esperamos dos candidatos, também deveríamos dedicar alguma atenção ao tipo de sociedade que estamos dispostos a construir. Afinal, a escolha de um governante influencia os rumos do país, mas não elimina as responsabilidades que continuam pertencendo a quem vive nele.

O país que cobramos também depende de nós

Queremos uma educação melhor, mas quanto estamos dispostos a participar da vida escolar e das iniciativas que contribuem para a aprendizagem? Defendemos uma sociedade menos desigual, mas como reagimos quando temos a oportunidade de compartilhar conhecimento, abrir caminhos profissionais ou apoiar alguém que enfrenta dificuldades? Exigimos empresas comprometidas com a responsabilidade social, mas observamos como elas tratam seus trabalhadores e as comunidades com as quais se relacionam? E, quando cobramos governos melhores, estamos realmente dispostos a acompanhar suas decisões, fiscalizar o uso dos recursos públicos e exigir o cumprimento das promessas eleitorais?

Essas perguntas não pretendem transferir ao cidadão a responsabilidade por problemas estruturais que exigem políticas públicas e investimentos. A desigualdade, por exemplo, não será resolvida apenas pela boa vontade individual, assim como os desafios da educação e da saúde não desaparecem com iniciativas voluntárias. Entretanto, reconhecer a dimensão desses problemas não deveria nos impedir de examinar as escolhas que fazemos nas relações cotidianas e a maneira como participamos da vida coletiva.

Talvez uma das contradições mais difíceis de enfrentar esteja justamente na distância entre aquilo que exigimos dos outros e aquilo que estamos dispostos a fazer. Desejamos um Brasil diferente, com instituições responsáveis, oportunidades mais justas e serviços públicos de qualidade, mas nem sempre percebemos que nossas próprias atitudes também interferem na sociedade que criticamos. Se queremos tantas mudanças, o que estamos fazendo de diferente para contribuir com elas?

A pergunta pode causar desconforto porque nos obriga a abandonar, ainda que por um momento, a posição de quem apenas observa e cobra. É relativamente simples defender grandes transformações nacionais, sobretudo quando atribuímos sua realização exclusivamente a governos e autoridades. Mais difícil é reconhecer que mudanças coletivas também dependem de atitudes concretas, muitas vezes pequenas, adotadas por pessoas que decidiram contribuir sem esperar que alguém tomasse a iniciativa primeiro.

A cidadania continua depois das eleições

Cidadania - Responsabilidade Social
(Arquivo/EBC)

O Brasil precisa de bons governos, capazes de administrar os recursos públicos com responsabilidade e enfrentar os problemas que afetam a população. Mas também precisa de cidadãos comprometidos, empresas que compreendam sua função social, organizações que atuem em suas comunidades e instituições educacionais que contribuam para formar pessoas conscientes de seus direitos e deveres. Essas responsabilidades não competem entre si e não podem ser usadas para justificar a omissão de qualquer uma das partes.

A participação política é uma dimensão essencial desse compromisso. O voto permite escolher representantes e influenciar os rumos do país, mas a cidadania não deveria se limitar aos períodos eleitorais. Ela também se manifesta no acompanhamento das decisões públicas, na cobrança por transparência, no respeito às diferenças e na disposição de colaborar com iniciativas que beneficiem a coletividade. O mesmo cidadão que exige responsabilidade de seus representantes precisa compreender que a democracia também depende de sua participação entre uma eleição e outra.

Durante o segundo turno, grande parte das atenções estará concentrada nas disputas políticas, nos debates e nas promessas dos candidatos. Essa mobilização é importante, mas não deveria desaparecer depois da divulgação dos resultados. Independentemente de quem vença, os problemas brasileiros continuarão exigindo respostas do poder público, compromissos das empresas e participação da sociedade. Esperar que uma eleição resolva, sozinha, todas essas questões significa depositar sobre os representantes uma responsabilidade que não pertence exclusivamente a eles.

Talvez o Brasil que desejamos construir não dependa apenas de uma nova eleição, de um novo governo ou de alguém que prometa fazer aquilo que ainda não foi feito. Depende também de reconhecermos que a transformação de uma sociedade exige compromisso contínuo de suas instituições e de seus cidadãos. Não podemos terceirizar a responsabilidade pelo país que queremos, porque, mesmo depois de escolhermos quem irá governar, continuará existindo uma parte dessa construção que pertence a cada um de nós.

Dom Veiga

Dom Veiga - Adote um Cidadão - Responsabilidade Social
(Divulgação)

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.

  • Publicado: 16/10/2026 17:00
  • Alterado: 16/10/2026 17:19
  • Autor: Dom Veiga

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