"Não me reconheci": alertas sobre transtornos alimentares

Transtornos alimentares afetam milhões no país; relatos de jovens expõem o impacto da pressão estética e os desafios do diagnóstico

"Não me reconheci": alertas sobre transtornos alimentares

Crédito: Freepik

“Eu me olhei no espelho e não me reconheci mais.” Aos 23 anos, Catarina Aranovich lembra da sensação de perceber que a relação com o próprio corpo e com a comida havia deixado de ser saudável. 

A experiência, marcada por restrições alimentares, compulsões e anos de preocupação com calorias, faz parte da realidade de milhões de pessoas no Brasil. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, cerca de 15 milhões de brasileiros são afetados por transtornos alimentares.

A pressão por um corpo dentro de padrões cada vez mais estreitos também ganhou espaço nas redes sociais e na cultura pop. Recentemente, a aparência da cantora Ariana Grande após o lançamento do videoclipe da música “petal” provocou discussões entre fãs e figuras públicas. A repercussão trouxe novamente para o debate a relação entre exposição constante do corpo, padrões de beleza e saúde mental.

Os primeiros sinais na infância e na adolescência

Catarina conta que a insatisfação com o próprio corpo começou aos 12 anos. Ela havia se desenvolvido fisicamente antes das amigas da mesma idade e passou a se sentir deslocada em situações sociais.

transtornos alimentares
arquivo pessoal

“Fui uma das primeiras a menstruar, e meu corpo se desenvolveu muito antes das minhas amigas. Quando tinha festa na piscina, por eu ser uma criança meio esquecida, acabava esquecendo meu biquíni. Mas nenhum dos biquínis das minhas amigas servia em mim, porque o corpo delas era diferente. Eu via as minhas amigas se divertindo e eu não podia ir junto, porque meu corpo não cabia no biquíni delas”, recorda Catarina.

Na adolescência, a cobrança pelo controle do peso aumentou. Comentários de familiares e a rotina em uma companhia de dança contribuíram para que a preocupação com o corpo ganhasse cada vez mais espaço.

Com a estudante de Psicologia Vitória Bez, de 22 anos, os primeiros sinais apareceram ainda mais cedo. Aos 8 anos, ela começou a enfrentar episódios de bullying relacionados ao peso na escola.

“Com 10 anos eu comecei a emagrecer e, aos 11, recebi o diagnóstico de anorexia. O ponto em que percebi que realmente tinha algo de errado foi no dia em que minha mãe comprou para mim um picolé de chocolate e eu me recusei a comer. Ela me perguntou se eu estava com dor de barriga e eu respondi: ‘Não, mãe, é porque eu tenho muito medo de comer. Eu não consigo’. Foi aí que percebi”, relata Vitória.

Quando o transtorno passa despercebido

O psicólogo Gilson Pinheiro explica que um dos obstáculos para o diagnóstico dos transtornos alimentares é a forma como alguns comportamentos são vistos socialmente. A restrição alimentar, por exemplo, pode ser interpretada como disciplina ou esforço para alcançar um determinado padrão de beleza.

“Infelizmente, a cultura da magreza normaliza hábitos restritivos e prejudiciais. A sociedade frequentemente associa a magreza extrema ao autocontrole, à beleza e ao sucesso. Esta visão transforma o sofrimento físico e mental em algo desejável. Muitos tendem a oferecer elogios à restrição e ilusão de saúde, o que impulsiona a pessoa a pular refeições, reduzir grupos alimentares e sentir culpa após comer”, explica Pinheiro.

Catarina lembra que a falta de compreensão das pessoas ao seu redor também dificultou a percepção de que precisava de ajuda.

“É muito difícil as pessoas entenderem que você tem um problema quando a nossa sociedade romantiza ele. Recebi diversos comentários de pessoas falando que eu tinha que emagrecer, que tinha que começar uma dieta. E quando comecei, as pessoas ainda forçavam meus comportamentos transtornados.”

Com o avanço do transtorno, a alimentação passou a interferir em outras áreas da vida.

“Você não sente vontade de sair para jantar com as tuas amigas porque tu não sabes o que vai ter para comer. Você acaba ficando muito mais em casa porque sente vergonha do teu corpo.”

Vitória também vivenciou situações em que a perda de peso era elogiada mesmo enquanto sua saúde se deteriorava.

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arquivo pessoal

“Eu tive uma rede de apoio positiva, mas em vários momentos via as pessoas elogiando o estado em que eu estava. Falavam: ‘Ah, tu estás doente, mas nossa, olha essa barriga que linda!’. Só que eu estava literalmente morrendo. Esse tipo de comentário enaltecia a minha magreza e reforçava a ideia de que eu tinha que estar cada vez mais magra.”

O transtorno também passou a limitar sua rotina.

“O transtorno alimentar controla toda a sua vida: você começa uma dieta achando que é só mais uma dieta e, quando vê, está totalmente afundada, com medo de comer qualquer coisa e entrando em pânico toda vez que recebe um convite para sair”, desabafa Vitória.

Sinais de alerta e busca por tratamento

Os sinais de um transtorno alimentar podem aparecer tanto nos hábitos à mesa quanto na relação que a pessoa desenvolve com o próprio corpo. Segundo Gilson Pinheiro, mudanças no comportamento alimentar merecem atenção de familiares e pessoas próximas.

“No dia a dia, podemos identificar como sinais de alerta o pular de refeições ou inventar desculpas para evitar comer, comer apenas porções muito pequenas ou usar rituais alimentares, como cortar a comida em pedaços minúsculos. Também devemos observar que, para muitos, a autovalorização, o humor e o bem-estar do indivíduo passam a depender exclusivamente do seu peso ou silhueta”, alerta.

Catarina procurou ajuda por volta dos 16 anos, depois de se sentir esgotada pela preocupação constante com comida e calorias.

“Eu não aguentava mais ficar preocupada com comida, preocupada com caloria 24 horas por dia. Eu queria viver a minha vida. Chegou em um nível de esgotamento mental em que eu vi que precisava de ajuda. O processo de recuperação é quase como um luto, porque a gente acaba desenvolvendo uma personalidade que é quase o próprio transtorno. Ter que deixar essa pessoa de lado para seguir teus sonhos e achar uma versão saudável de ti é muito difícil”, explica.

Para Vitória, o momento que a fez perceber a gravidade do quadro aconteceu quando já não conseguia sequer levantar-se da cama.

“Eu não tinha mais forças para ficar em pé. Pensei: ‘Cara, eu não consigo manter meu corpo em pé, isso realmente está fugindo do meu controle’. Foi aí que pensei que precisava me ajudar e focar no tratamento. Uma das coisas que as pessoas não dizem é como o transtorno alimentar rouba a sua vida. Quando romantizam, não pensam nesse lado”, conta a estudante de Psicologia.

Redes sociais e pressão estética

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Brett Jordan/Unsplash

O conteúdo publicado nas redes sociais também pode influenciar a maneira como as pessoas enxergam o próprio corpo e a alimentação. Para Gilson Pinheiro, uma das formas de lidar com essa pressão é observar quais perfis e conteúdos fazem parte da rotina digital.

“Para lidar com a pressão estética no dia a dia, é necessário mudar a forma como consumimos informações. Filtre suas redes sociais e deixe de seguir perfis que fazem você se sentir mal com o próprio corpo. Incentive a prática do unfollow ou silencie contas que promovem o fitness tóxico e a contagem excessiva de calorias. O objetivo deve ser construir saúde, e não buscar uma obsessão que gera medo, culpa e desgaste emocional”, aconselha.

Vitória afirma que, mesmo depois de anos em remissão, determinados conteúdos ainda podem afetá-la.

“Por mais que eu esteja em remissão há alguns anos, quando vejo conteúdos enaltecendo a magreza extrema eu fico muito mal. Mesmo fazendo acompanhamento com psicóloga e psiquiatra, nesses momentos quase tenho uma recaída. É um trabalho constante para não voltar para aquele lugar de dor.”

A experiência com o transtorno também influenciou a escolha profissional de Catarina. Formada em Nutrição, ela utiliza as redes sociais para combater a desinformação sobre alimentação e falar sobre a relação das pessoas com a comida.

“Quis cursar Nutrição porque queria denunciar influenciadoras que falavam coisas ruins de alimentação na internet, combater a desinformação e ser uma profissional capacitada para ajudar as pessoas a melhorarem a relação com a comida. Ter passado por isso cria um elo de conexão muito forte. Quero trazer paz ao coração das pessoas e dar voz a essa pauta, mostrando que transtorno alimentar não é besteira, é um assunto sério que precisa de acolhimento”, conclui Catarina.

Daniela Ferreira

  • Publicado: 31/08/2026 19:21
  • Alterado: 31/08/2026 19:28
  • Autor: Daniela Ferreira