Morre Glória Menezes aos 91 anos e deixa legado na dramaturgia

A atriz Glória Menezes faleceu aos 91 anos em sua residência. Reconhecida como pioneira da televisão, a artista deixa um legado icônico.

Morre Glória Menezes aos 91 anos e deixa legado na dramaturgia

Crédito: Reprodução

Uma terça-feira triste e amarga para a dramaturgia nacional, uma vez que, horas após o anúncio do falecimento da atriz Laura Cardoso, morreu no mesmo dia a atriz Glória Menezes, aos 91 anos. Segundo informações divulgadas pela assessoria, ela faleceu em sua residência, no Rio de Janeiro. A atriz deixa uma trajetória monumental, marcada pelo pioneirismo e por uma dedicação de mais de seis décadas às artes cênicas brasileiras.

Glória Menezes pertence a uma geração de artistas que praticamente se confunde com a própria história da televisão no Brasil. Começou no teatro no final dos anos 1950, passou pela TV Tupi e pela Excelsior e, em 1967, chegou à Globo, onde atuaria em mais de 40 novelas. Ao longo da carreira, transitou pelas mocinhas românticas, personagens dramáticas, mulheres populares, vilãs e figuras cômicas, tornando-se uma das atrizes mais versáteis da dramaturgia nacional.

Nilcedes Soares Guimarães nasceu em 19 de outubro de 1934, em Pelotas, no Rio Grande do Sul. Mas foi como Glória Menezes que se tornou uma das grandes atrizes da história, nome artístico escolhido por ser universal (“Glória em qualquer língua”) e pela soma de 13 letras, número que considerava de sorte

Glória Menezes e Tarcísio Meira: um amor que nasceu nos bastidores

Glória Menezes e Tarcísio Meira no início de carreira na teledramaturgia - (Divulgação/TV Globo)
Glória Menezes e Tarcísio Meira no início de carreira na teledramaturgia – (Divulgação/TV Globo)

A história de Glória Menezes e Tarcísio Meira começou antes de eles se transformarem em um dos casais mais conhecidos da televisão brasileira. Os dois se aproximaram quando ainda estavam construindo suas carreiras, nos primeiros anos da década de 1960. O encontro aconteceu justamente onde ambos se sentiam em casa: nos palcos e nos estúdios de televisão.

Segundo relatos, os dois se conheceram enquanto trabalhavam e rapidamente começaram a se aproximar. Tarcísio já era um dos nomes em ascensão da dramaturgia, enquanto Glória construía seu espaço depois de sua formação teatral. O relacionamento nasceu nesse ambiente profissional e logo se transformou em namoro. Em 1962, os dois se casaram.

A relação seria muito mais duradoura do que qualquer roteiro de novela poderia prever. Glória e Tarcísio permaneceram juntos por 59 anos, até a morte do ator, em agosto de 2021. Em 2020, durante uma participação no Altas Horas, quando completavam 56 anos de casamento, Glória não hesitou ao definir Tarcísio: “o grande amor da minha vida”.

E o casamento também se transformou em parceria profissional. Em 1963, apenas um ano depois da união, os dois protagonizaram 2-5499 Ocupado, na TV Excelsior, produção considerada a primeira telenovela diária brasileira. Glória interpretava Emily, uma presidiária que trabalhava como telefonista e que se apaixonava pela voz do advogado Larry, vivido por Tarcísio. A novela entraria para a história não apenas pelo romance dos protagonistas, mas por ajudar a estabelecer o formato diário que dominaria a televisão brasileira nas décadas seguintes.

O público rapidamente passou a enxergar os dois como um casal também fora da ficção. Quando a televisão tentou colocá-los em novelas diferentes, a reação dos espectadores mostrou o tamanho daquela associação. Em Passo dos Ventos, Glória fez par com Carlos Alberto, enquanto Tarcísio protagonizou A Gata de Vison com Yoná Magalhães. A estratégia não teve a mesma repercussão e os dois voltaram a contracenar em Rosa Rebelde, em 1969.

A chegada à Globo consolidou definitivamente a dupla. Em Sangue e Areia, de 1967, eles voltaram a protagonizar uma história de amor. Depois vieram trabalhos como Irmãos Coragem, O Homem que Deve Morrer, O Semideus, Cavalo de Aço, Guerra dos Sexos, Torre de Babel, A Favorita e Páginas da Vida, além do seriado Tarcísio & Glória, cujo próprio título já revelava o tamanho que a dupla havia adquirido no imaginário popular.

Em Irmãos Coragem, Glória e Tarcísio viveram talvez o par mais emblemático de suas carreiras. Ela interpretava Lara, uma mulher dividida entre diferentes personalidades, enquanto Tarcísio dava vida a João Coragem. A novela se transformou em um dos grandes fenômenos da televisão brasileira e ajudou a estabelecer os dois como protagonistas absolutos de uma geração.

Mas a parceria não significava que Glória dependesse profissionalmente de Tarcísio. Pelo contrário. Enquanto ele construiu sua própria galeria de personagens, ela se tornou uma das atrizes mais versáteis da televisão, interpretando mocinhas, mulheres populares, personagens cômicas e vilãs. Laurinha Figueroa, de Rainha da Sucata, Ana Preta, de Pai Herói, Roberta Leone, de Guerra dos Sexos, e Irene Fontini, de A Favorita, são alguns exemplos de uma carreira que jamais ficou limitada ao papel de “par romântico de Tarcísio Meira”.

Fora das telas, o casal também construiu uma família. Glória era mãe de Maria Amélia e João Paulo, de seu primeiro casamento, e teve com Tarcísio o filho Tarcísio Filho, que seguiu os passos dos pais e também se tornou ator. Tarcísio, por sua vez, tornou-se padrasto dos dois filhos de Glória e pai de Tarcísio Filho.

Nos últimos anos juntos, os dois levaram uma vida cada vez mais reservada, dividida entre o Rio de Janeiro e a propriedade rural da família. Mesmo longe da televisão, continuaram sendo lembrados pelo público como um dos casais mais sólidos da história artística brasileira.

A coincidência ganhou um simbolismo ainda maior poucos dias antes da morte de Glória. Em 12 de agosto de 2026, exatamente cinco anos após a morte de Tarcísio, ela recebeu uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo. Como não compareceu à cerimônia, foi representada pelo filho Tarcísio Filho. Segundo ele, a mãe era muito emotiva e a coincidência da homenagem com a data da morte do marido poderia ser dolorosa demais para ela.

Personagens imortais e impacto na TV Globo

Irmãos Coragem (1970): Interpretou a complexa Lara, personagem com transtorno de múltiplas personalidades que também assumia as faces de Diana e Márcia. O desempenho estabeleceu novos parâmetros de atuação dramática na televisão.

Glória Menezes na novela Irmãos Coragem, de 1970 - (Divulgação/TV Globo)
Glória Menezes na novela Irmãos Coragem, de 1970 – (Divulgação/TV Globo)

Pai Herói (1979): Deu vida à carismática Ana Preta, formando uma parceria antológica com Paulo Autran e Tony Ramos em pleno horário nobre.

Guerra dos Sexos (1983): Como a elegante empresária Roberta Leone, demonstrou versatilidade ao migrar para a comédia física e de costumes ao lado de Mário Gomes e Fernanda Montenegro.

Brega & Chique (1987): Viveu Rosemere da Silva, mulher suburbana que muda de vida após uma herança misteriosa, dividindo o protagonismo com Marília Pêra.

Rainha da Sucata (1990): Imortalizou a vilã aristocrata Laurinha Figueroa, cuja obsessão pelo enteado Edu (Tony Ramos) culminou na histórica cena no topo do prédio da Fiesp.

Foi em "Rainha da Sucata" que Glória Menezes imortalizou a vilã Laurinha Figueroa - (Divulgação/TV Globo)
Foi em “Rainha da Sucata” que Glória Menezes imortalizou a vilã Laurinha Figueroa – (Divulgação/TV Globo)

A Favorita (2008): Viveu a matriarca Irene Fontini, conduzindo com densidade dramática as revelações e tragédias do clã da trama de João Emanuel Carneiro.

Grandes Obras no Cinema e Teatro

O Pagador de Promessas (1962): No cinema, interpretou Rosa no longa de Anselmo Duarte, única produção brasileira a vencer a Palma de Ouro no Festival de Cannes.

Ensina-me a Viver (2007–2015): Nos palcos, protagonizou a peça como a extravagante e livre Mousse, projeto que rodou o país por quase uma década e foi visto por centenas de milhares de espectadores.

Outros papéis marcantes de Glória

Glória Menezes também atuou em Páginas da Vida (2006). Nesta trama de Manoel Carlos, a atriz viveu a encantadora Amália (Lalinha), matriarca que fazia par romântico na ficção com seu marido da vida real, Tarcísio Meira (Tide). Já em Senhora do Destino (2004) deu vida à inesquecível Laura Correia de Andrade e Couto, a Baronesa de Bonsucesso, contracenando com Raul Cortez e retratando com delicadeza os primeiros estágios da Doença de Alzheimer. Na novela lendária O Beijo do Vampiro (2002), Glória interpretou a mística e divertida Zoroastra Marques, enquanto em Da Cor do Pecado (2004) ela fez uma participação especial bem-humorada como Kiki de Queensbürg.

A vida depois de Tarcísio

Em 2021, Glória perdeu Tarcísio Meira, encerrando uma história de amor de 59 anos. A morte do ator, aos 85 anos, aconteceu após complicações provocadas pela Covid-19.

A partir dali, Glória passou a viver uma fase muito mais reservada. Ainda assim, seu nome continuou ligado à televisão e à memória de uma geração inteira de espectadores. Seu último trabalho em novelas foi Totalmente Demais, em 2015, como Stelinha. Depois, fez participações pontuais, incluindo trabalhos em Joia Rara, Louco por Elas e no humorístico Tá no Ar: a TV na TV.

O último trabalho da atriz foi em "Totalmente Demais", em 2015, como Stelinha - (Divulgação/TV Globo)
O último trabalho da atriz foi em “Totalmente Demais“, em 2015, como Stelinha – (Divulgação/TV Globo)

Poucos dias antes de morrer, Glória recebeu uma homenagem especialmente simbólica: ganhou uma estrela na Calçada da Fama dos Estúdios Globo, em 12 de agosto. Como não compareceu à cerimônia, seu filho Tarcísio Filho a representou. A data tinha ainda um peso emocional: naquele mesmo dia completavam-se cinco anos da morte de Tarcísio Meira.

Com sua partida, Glória deixa três filhos: Tarcísio Filho, nascido de seu segundo casamento com o também ator Tarcísio Meira; além de Maria Amélia Brito e João Paulo Brito, frutos de seu relacionamento com Arnaldo Brito.

Do trio, apenas um dos herdeiros seguiu os passos de Menezes no universo artístico. O caçula, Tarcísio, que recebeu o nome em homenagem ao pai, também se tornou ator. Ao longo de sua carreira, ele atuou em grandes sucessos como “Éramos Seis” (1994), “A Casa das Sete Mulheres” (2003), “Êta Mundo Bom!” (2016) e “Deus Salve o Rei” (2018).

Fora dos holofotes, João Paulo e Maria Amélia seguiram carreiras distantes da arte. O primogênito se tornou médico veterinário e Maria optou por manter detalhes de sua carreira em privado.

Uma atriz que ajudou a construir a televisão brasileira

Glória Menezes deixa mais do que uma extensa lista de novelas. Ela deixa personagens que atravessaram gerações e uma carreira que acompanhou a transformação da televisão brasileira desde seus primeiros anos.

Agora, cinco anos depois da morte dele, a despedida de Glória encerra também um dos capítulos mais duradouros e simbólicos da história da dramaturgia brasileira.

  • Publicado: 18/08/2026 18:37
  • Alterado: 18/08/2026 18:44
  • Autor: Gabriel de Jesus
  • Fonte: ABCdoABC