Marvel’s Wolverine é bom, mas poderia ir muito além
Marvel's Wolverine divide opiniões, mas entrega aventura divertida e violenta com Logan no centro da história, apesar da simplicidade e de altos e baixos
- Publicado: 23/09/2026 11:24
- Alterado: 23/09/2026 11:25
- Autor: Carlos Enriki
Marvel’s Wolverine chegou ao PlayStation 5 cercado por uma expectativa enorme. Afinal, o personagem é um dos maiores nomes da Marvel e está nas mãos da Insomniac Games, estúdio responsável pelos jogos do Homem-Aranha. O resultado, porém, parece ter provocado uma reação exageradamente dividida. Há críticas que apontam problemas importantes no combate, na exploração e na narrativa, enquanto outras destacam justamente a proposta mais direta, a violência e a interpretação de Logan. Para quem entra no jogo esperando uma experiência gigantesca e revolucionária, existe espaço para frustração. Para quem procura uma aventura de ação mais simples e concentrada no personagem, a experiência funciona melhor.
Um Wolverine mais simples e direto
Uma das primeiras características que chamam atenção em Marvel’s Wolverine é justamente a simplicidade. Diferentemente dos jogos do Homem-Aranha da Insomniac, o título não tenta construir uma enorme cidade aberta cheia de atividades paralelas. A aventura aposta em uma estrutura mais linear, com progressão controlada e foco muito maior no combate e na história.
Essa escolha pode ser interpretada como uma limitação, mas também funciona como uma qualidade. O jogo sabe o que quer ser e evita transformar Logan em um personagem que precisa ficar dezenas de horas realizando tarefas aleatórias espalhadas pelo mapa. A experiência é mais concentrada e mantém o jogador constantemente próximo da trajetória principal.

O problema aparece quando essa simplicidade deixa de parecer uma escolha e começa a transmitir a sensação de que o jogo está segurando demais o jogador. Existe uma quantidade considerável de momentos em que basta seguir uma rota indicada, observar elementos destacados do cenário ou realizar ações bastante simples para avançar. Essa condução excessiva foi justamente um dos pontos criticados por parte da imprensa especializada.
O combate entrega a violência que se espera de Logan
É no combate que Marvel’s Wolverine encontra uma de suas maiores qualidades. Controlar Logan é brutal, rápido e visceral, e a violência tem um papel muito maior do que teria em uma aventura tradicional de super-heróis. As garras, a regeneração e a força física do personagem são utilizadas de maneira constante, criando confrontos que conseguem transmitir parte da sensação de controlar Wolverine.
A Insomniac também entende que o personagem não deveria lutar como o Homem-Aranha. Logan não possui a mobilidade acrobática de Peter Parker e não depende da mesma variedade de ferramentas para controlar grupos de inimigos. A luta é muito mais próxima, agressiva e física, com foco em golpes diretos e ataques que reforçam a personalidade do personagem.
O problema é que essa fórmula começa a perder força conforme a campanha avança. O que inicialmente parece extremamente satisfatório pode se tornar repetitivo quando o jogo exige que o jogador enfrente sucessivas ondas de inimigos utilizando variações relativamente limitadas da mesma estrutura. Essa foi uma das críticas recorrentes entre veículos que avaliaram o título abaixo da expectativa criada em torno dele.
A simplicidade também afeta a exploração
A exploração segue a mesma lógica. O jogo possui áreas para investigar e alguns elementos opcionais, mas não existe a mesma sensação de liberdade presente nos títulos anteriores da Insomniac. Para muita gente, isso será um problema. Para outras pessoas, pode ser justamente uma vantagem.
No meu caso, essa escolha funciona melhor do que a recepção negativa sugere. Nem todo jogo precisa ter centenas de atividades, colecionáveis e missões secundárias para justificar sua duração. Wolverine é um personagem que combina naturalmente com uma aventura mais focada, e a estrutura linear ajuda a manter a história avançando sem transformar o jogo em uma lista interminável de tarefas.
Ainda assim, faltou um pouco mais de criatividade nas atividades fora do combate. Alguns momentos de exploração parecem existir apenas para criar uma pausa entre uma luta e outra, em vez de oferecer uma experiência realmente interessante. É nesse ponto que o jogo demonstra que poderia ter aproveitado melhor o potencial do personagem.
A história tem altos e baixos
A história é provavelmente o aspecto mais irregular da experiência. Existem momentos muito bons, principalmente quando o jogo trabalha a personalidade de Logan, seus relacionamentos e o conflito interno de alguém que passou boa parte da vida convivendo com violência, raiva e dificuldade para aceitar a própria identidade.
O problema está no ritmo e na maneira como alguns elementos são desenvolvidos. Há ideias interessantes que começam com força, mas nem sempre recebem a mesma atenção até o final. Em determinados momentos, a narrativa parece muito mais interessada em levar o jogador para a próxima sequência de ação do que em aprofundar as consequências emocionais das situações que acabaram de acontecer.

A própria crítica especializada ficou dividida nesse aspecto. A IGN, por exemplo, reconheceu o trabalho de construção do personagem, mas considerou que o combate perde força antes do fim da campanha. O Guardian também elogiou a construção de Logan, embora tenha apontado problemas no desenvolvimento narrativo e emocional.
O jogo poderia ter aproveitado melhor o universo da Marvel
Aqui está uma das maiores ressalvas desta análise. Marvel’s Wolverine apresenta uma interpretação própria do universo mutante e utiliza personagens e conceitos conhecidos, mas escolhe contar uma história que não depende diretamente da continuidade mais conhecida dos filmes ou dos quadrinhos.
Essa decisão permite à Insomniac ter liberdade criativa, mas também cria uma oportunidade perdida. O universo da Marvel possui décadas de histórias envolvendo Wolverine que poderiam servir como base para construir uma aventura ainda mais ambiciosa. Arcos clássicos, organizações, personagens e conflitos conhecidos poderiam ter sido incorporados de maneira mais profunda sem transformar o jogo em uma adaptação literal.
A questão não é simplesmente colocar mais personagens famosos para criar referências. O problema é que o jogo poderia utilizar melhor o universo que já existe para dar mais peso aos acontecimentos. Uma conexão mais forte com elementos tradicionais dos X-Men, por exemplo, poderia ajudar a ampliar a importância da jornada de Logan e criar uma sensação maior de que estamos acompanhando um capítulo relevante de sua história.
Ainda assim, é importante reconhecer que a escolha por um universo próprio também tem vantagens. A equipe não fica presa ao que já foi contado e pode reimaginar personagens e relações de acordo com as necessidades da narrativa. O jogo já utiliza nomes importantes da mitologia de Wolverine, incluindo Dentes-de-Sabre e Mística, dentro de uma realidade própria.
A atuação ajuda a sustentar o personagem
Um dos pontos mais fortes da produção está na interpretação de Liam McIntyre como Logan. A atuação contribui para criar um Wolverine menos dependente de frases de efeito e mais interessado em transmitir conflito interno.
Esse aspecto é especialmente importante porque o jogo tenta equilibrar duas versões do personagem. De um lado está o Wolverine brutal, agressivo e extremamente violento. Do outro, existe um homem tentando entender a própria identidade e lidar com as consequências da vida que levou.

A combinação não funciona perfeitamente em todos os momentos, mas existem cenas em que esse conflito é muito bem conduzido. A atuação consegue vender o lado mais humano de Logan mesmo quando o roteiro toma decisões menos convincentes. O próprio material de análise da IGN destacou a dimensão mais introspectiva da história como um dos aspectos positivos do jogo.
As críticas pegaram pesado?
Em parte, sim, principalmente dependendo do que se espera do jogo. A recepção crítica não foi uniforme. O título chegou a apresentar média de 77 no Metacritic, enquanto diferentes veículos adotaram posições bastante distintas, com avaliações de 5 a 10. Entre as notas mais baixas estão análises que criticam o combate repetitivo, a exploração limitada e o excesso de condução. Ao mesmo tempo, outras publicações elogiaram a proposta mais linear, a ação e a representação de Logan.
Isso ajuda a explicar uma situação curiosa. O jogo não parece ser o desastre que algumas críticas mais negativas fazem parecer, mas também não entrega uma revolução no gênero de ação. A proposta é mais modesta: contar uma história de Wolverine em uma aventura linear e violenta, usando a estrutura de um grande jogo de ação.
Para quem esperava algo próximo do impacto causado pelos jogos do Homem-Aranha da Insomniac, a comparação inevitavelmente pesa contra Wolverine. Para quem encara o título como uma aventura própria do personagem, os defeitos ficam mais fáceis de contextualizar.
A duração também trabalha a favor do jogo
Outro ponto que considero positivo é o fato de o jogo não tentar prolongar artificialmente sua campanha. A estrutura mais linear combina com a ideia de uma aventura concentrada e permite que a história avance sem uma quantidade enorme de missões secundárias.
Esse tipo de experiência pode parecer simples em uma época em que grandes lançamentos tentam oferecer mapas enormes e dezenas de horas de conteúdo. Porém, existe valor em um jogo que entende que nem toda produção precisa ser gigantesca. O problema é que, quando o conteúdo disponível é mais limitado, cada falha fica mais perceptível. Uma mecânica repetitiva pesa mais quando ela aparece constantemente e uma missão pouco inspirada chama mais atenção quando não existem muitas alternativas para compensá-la.

Por isso, a simplicidade funciona ao mesmo tempo como qualidade e como limitação de Marvel’s Wolverine.
O visual é um dos maiores destaques
Tecnicamente, o jogo apresenta o nível de produção esperado de um grande exclusivo do PlayStation 5. Os personagens possuem excelente qualidade visual, os ambientes conseguem criar uma atmosfera adequada para o universo do Wolverine e as cenas de combate aproveitam muito bem a violência característica do personagem.
A direção também acerta ao diferenciar a experiência visual de Wolverine daquela dos jogos do Homem-Aranha. O universo é mais sombrio, mais agressivo e menos colorido, o que combina com a proposta do protagonista.
Esse cuidado ajuda a fazer com que momentos simples tenham mais impacto. Mesmo quando uma missão não apresenta nenhuma grande novidade mecânica, o trabalho de animação, iluminação e direção de cena ajuda a sustentar a experiência.
Wolverine não precisa ser complicado para funcionar
Aqui está o ponto principal da minha experiência com o jogo. Marvel’s Wolverine é simples, e eu não considero isso um defeito por si só.
O jogo não precisa reinventar os jogos de super-heróis para funcionar. Ele precisa entregar uma aventura divertida com um personagem que possui uma identidade muito forte. Quando isso acontece, principalmente nos combates e nas cenas mais centradas em Logan, o resultado funciona muito bem.

O problema surge quando a simplicidade se transforma em repetição. O combate poderia apresentar mais variedade, a exploração poderia oferecer mais possibilidades e a história poderia aproveitar melhor o enorme universo da Marvel. Esses elementos impedem que o jogo alcance todo o potencial que possui.
Mesmo assim, isso não apaga o que funciona.
Veredito Marvel’s Wolverine
Marvel’s Wolverine é um bom jogo de ação, mas não é o novo salto evolutivo dos jogos da Marvel. A experiência funciona porque entende muito bem o básico do personagem: Wolverine precisa ser brutal, agressivo, resistente e, ao mesmo tempo, carregar um conflito emocional que vá além da violência.
Na minha experiência, o jogo entrega diversão justamente porque não complica excessivamente sua proposta. A campanha é direta, os combates são satisfatórios e Logan é um protagonista interessante o bastante para sustentar a jornada. As críticas sobre repetição e excesso de condução são válidas, mas não anulam as qualidades da produção.
O maior problema está no que Marvel’s Wolverine poderia ter sido. Com um pouco mais de liberdade, maior variedade no combate, uma exploração mais criativa e uma utilização mais profunda do universo da Marvel, a aventura poderia ter alcançado um patamar muito mais alto.
Ainda assim, dizer que o jogo é ruim simplesmente porque ele é básico seria ignorar justamente uma das características que podem torná-lo agradável para quem procura uma aventura mais objetiva. Wolverine não precisa ser perfeito para ser divertido. E, apesar de seus altos e baixos, essa aventura da Insomniac consegue fazer Logan funcionar muito bem no controle.