Lorlatinibe mantém câncer de pulmão estável por 7 anos
Estudo aponta que 55% dos pacientes com câncer de pulmão avançado tratados com lorlatinibe ficaram vivos e sem progressão da doença após sete anos de uso
- Publicado: 01/11/2026 15:17
- Alterado: 01/11/2026 15:17
- Autor: Carlos Enriki
Um tratamento diário com lorlatinibe conseguiu manter 55% dos pacientes com câncer de pulmão avançado vivos e sem progressão da doença após sete anos de acompanhamento. O resultado, considerado inédito para esse estágio da enfermidade, representa um avanço no tratamento de tumores que apresentam uma alteração genética específica.
Os dados foram apresentados em um estudo de longo prazo e mostram o potencial da terapia-alvo, abordagem que utiliza medicamentos desenvolvidos para bloquear alterações moleculares responsáveis pelo crescimento das células cancerígenas. As informações foram divulgadas pelo G1.
O lorlatinibe é indicado para pacientes com rearranjo no gene ALK, alteração encontrada em aproximadamente 3% a 7% dos casos do tipo mais comum de câncer de pulmão. A identificação depende de exames genéticos que permitem determinar se o tumor apresenta a característica necessária para responder ao medicamento.
Como o lorlatinibe age no câncer de pulmão
A alteração no gene ALK faz com que as células produzam uma proteína defeituosa, responsável por estimular continuamente a multiplicação das células tumorais. O lorlatinibe atua bloqueando esse mecanismo e interrompendo os sinais que favorecem o crescimento do câncer.
O medicamento foi desenvolvido para enfrentar dois desafios observados em tratamentos anteriores: a resistência que alguns tumores desenvolvem aos medicamentos e a dificuldade de atravessar a barreira hematoencefálica, estrutura que protege o cérebro da entrada de determinadas substâncias.
Essa capacidade é relevante porque as metástases cerebrais estão entre as complicações associadas à doença. Segundo os dados apresentados na reportagem, entre 25% e 40% dos pacientes podem desenvolver esse tipo de comprometimento nos dois primeiros anos após o diagnóstico.
Para o oncologista Gustavo Schvartsman, do Hospital Sírio-Libanês, os resultados representam uma evolução importante em relação às terapias disponíveis anteriormente.
“Nunca alguém passava de cinco anos sem a doença progredir quando só existia quimioterapia. Com os inibidores de primeira geração, foi para 5% ou 10% dos pacientes; com a segunda geração, 20% a 30%; agora chegamos a 55%. O avanço é muito grande e vemos um passo enorme no dia a dia do paciente”, afirma.
Pacientes relatam mudanças na perspectiva de vida
A evolução dos tratamentos também aparece na experiência de pacientes que convivem com a doença. Paula Piteri recebeu o diagnóstico em 2020, aos 38 anos. Sem histórico de tabagismo e com hábitos considerados saudáveis, ela passou por uma cirurgia, mas não realizou sequenciamento genético naquele momento.
Em 2025, recebeu a notícia de que o câncer havia retornado. A recidiva trouxe preocupação com o futuro e com a criação dos três filhos.
“Foi um choque, eu sou mãe de três crianças e isso podia mudar minha vida completamente”, conta.
Paula iniciou o tratamento com lorlatinibe e, após quase um ano de uso, relata ter recuperado a perspectiva de viver por mais tempo.
“É muito bom ter perspectiva, saber que eu tenho vida para viver. Eu quero fazer parte disso e viver por muitos anos ainda”, diz.
Efeitos colaterais exigem acompanhamento
Apesar dos resultados positivos, o tratamento não está livre de riscos. O estudo identificou que 45% dos pacientes não apresentaram resposta favorável, enquanto 77% tiveram reações adversas graves, classificadas como graus 3 ou 4.
Os efeitos sobre o sistema nervoso central também exigem atenção. Segundo os dados divulgados, 52% dos participantes relataram manifestações nessa área, incluindo alterações cognitivas, mudanças de humor e distúrbios psiquiátricos.
O biomédico Matheus Henrique Dias, pesquisador de medicamentos contra o câncer na Holanda, avalia que o resultado pode representar uma mudança importante para pacientes com a alteração genética, mas ressalta a necessidade de considerar a qualidade de vida durante o tratamento.
“Para quem tem essa mutação específica, vai ser de fato uma mudança grande”, afirma.
O pesquisador também chama atenção para os impactos dos efeitos adversos. “É importante que as pessoas vivam, mas é muito importante que elas continuem sendo, em boa medida, elas mesmas”, diz.
O oncologista Stephen Stefani também destaca a relevância dos resultados após o acompanhamento prolongado. “A diferença de eficácia se torna muito gritante quando você vê essa análise de sete anos e é um resultado relevante para o paciente”, avalia.
Custo elevado dificulta acesso ao lorlatinibe no Brasil
Embora o lorlatinibe represente uma possibilidade de tratamento para pacientes com câncer de pulmão ALK positivo, o preço é um dos principais obstáculos para ampliar o acesso no Brasil.
O câncer de pulmão está entre as principais causas de morte por câncer no país. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a doença registra 31.237 mortes anuais.
O medicamento custa aproximadamente R$ 37 mil por caixa com 30 comprimidos, conforme a tabela do Ministério da Saúde. Considerando o uso diário durante sete anos, o custo acumulado pode ultrapassar R$ 3,1 milhões por paciente.
O lorlatinibe não está disponível na rede pública de saúde. A Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) rejeitou sua incorporação ao SUS após avaliar o impacto financeiro e a relação de custo-efetividade da tecnologia.
Em relatório, a comissão apontou que, apesar das evidências e dos benefícios apresentados, os resultados econômicos não atingiram os parâmetros considerados adequados para a incorporação.
Outro desafio é a realização de testes genéticos na rede pública. Sem a identificação da alteração no gene ALK, pacientes que poderiam se beneficiar da terapia podem não receber o diagnóstico molecular necessário para a indicação do medicamento.
Schvartsman resume a relação entre diagnóstico e acesso ao tratamento: “Não adianta fazer o teste num sistema onde o remédio não vai estar disponível. E não adianta ter o remédio se o paciente não conseguiu o diagnóstico correto”.
Atualmente, o acesso ao lorlatinibe ocorre por meio de planos de saúde privados, já que o medicamento consta no rol da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), por decisões judiciais ou pelo pagamento particular. O avanço científico, portanto, convive com um desafio importante: garantir que pacientes com indicação para o tratamento consigam identificar a alteração genética e ter acesso à medicação.