Liderança não é correr mais, mas escolher o ritmo

Entre pressa e lentidão, líderes eficazes ajustam o ritmo das decisões para preservar qualidade, reduzir retrabalho e gerar resultados sustentáveis reais

Liderança não é correr mais, mas escolher o ritmo

Crédito: (Imagem/Magnific)

Durante séculos, a fábula do coelho e da tartaruga foi contada como uma lição simples sobre persistência: o coelho subestima o adversário, a tartaruga mantém o ritmo e vence.

Mas no ambiente corporativo atual essa leitura já não basta. O desafio real da liderança é entender quando acelerar, quando desacelerar e, principalmente, quando não confundir rapidez com pressa. A diferença parece semântica. Não é: ela separa eficiência de desperdício, decisão de reação, resultado sustentável de retrabalho.

O coelho corporativo

Lideranças - Empresas - Tempo - Fábula do Coelho
(Imagem/Magnific)

O coelho representa a liderança que associa velocidade a competência. Tudo precisa ser para ontem: a reunião agora, a decisão já, o cronograma antecipado. O problema é que uma organização pode ficar extremamente ocupada sem ficar mais eficiente. É possível acelerar processos ruins, decidir com informação insuficiente, entregar antes do prazo e ainda assim não capturar o benefício esperado. E é possível criar uma cultura em que estar ocupado se confunde com produzir valor.

Velocidade é capacidade de movimentação. Pressa é ansiedade por movimentação. Uma pergunta como “como podemos decidir e executar melhor?” nasce de liderança veloz; “por que ainda não terminou?” nasce de liderança apressada. Um estudo publicado no Journal of Experimental Psychology mostra o custo desse atalho: quando a velocidade é priorizada de forma excessiva, cai não só a quantidade de evidências consideradas, mas também a qualidade da informação usada para decidir. Ser mais rápido, nesses casos, pode significar decidir pior.

A tartaruga também não é a resposta

Seria fácil concluir que a lentidão da tartaruga é o modelo ideal. Não é. Uma empresa que leva seis meses para aprovar o que poderia ser decidido em seis dias, um comitê que discute por semanas o que todos já sabem que precisa ser feito, uma oportunidade que desaparece enquanto se espera o consenso perfeito…Prudência? Não. É lentidão, e ela pode ser tão destrutiva quanto a pressa.

A literatura sobre organizações de alta velocidade reforça o ponto: equipes capazes de decidir rapidamente, frequentemente trabalham com mais informação, mais alternativas e maior integração entre decisões estratégicas e táticas, o oposto do que a intuição sugere. A lição da fábula, atualizada, não é que a tartaruga vence o coelho. Vence quem sabe administrar o próprio ritmo.

Acelerar com consciência

A liderança de vanguarda precisa desenvolver uma terceira competência: acelerar com consciência, reconhecendo que decisões diferentes pedem velocidades diferentes. Uma decisão reversível pode ser tomada rápido; uma que envolve capital relevante, reputação ou risco regulatório merece mais reflexão. Uma crise exige velocidade; uma estratégia exige direção; uma mudança estrutural exige capacidade de absorção. O erro é aplicar o mesmo ritmo a tudo — e é isso que acontece quando a urgência vira o sistema operacional da empresa. Quando tudo é urgente, nada é prioritário.

Eficiência não é fazer mais rápido

Eficiência significa gerar o resultado necessário com os recursos adequados, no tempo adequado, com o nível certo de qualidade e risco. Uma entrega em três dias que gera dez dias de retrabalho não foi eficiente. Uma decisão tomada em uma hora que produz três meses de consequência não foi rápida, foi cara.

Por isso vale substituir a pergunta “quanto tempo conseguimos economizar?” por outra mais estratégica: “qual é a velocidade ótima para capturarmos o resultado?”. Uma redução de 20% no lead time acompanhada de 30% a mais de erros não é eficiência, só está transferindo o problema.

Quando a pressa é sintoma de liderança fraca

Nem toda urgência nasce do mercado. Muitas nascem da própria falta de planejamento: projetos entram em crise porque decisões foram postergadas, times trabalham à noite porque prioridades mudaram repetidamente, executivos cobram velocidade porque a organização carece de clareza.

A pressão vira substituto da gestão. Antes de dizer “precisamos acelerar”, vale perguntar “por que precisamos correr?”. Uma organização madura sabe diferenciar urgência real da urgência que ela mesma criou.

O novo indicador

Lideranças - Empresas - Tempo
(Imagem/Magnific)

Esperar demais também é uma decisão cara: uma meta-análise recente com 127 estudos encontrou efeitos positivos da velocidade de decisão e resposta sobre o desempenho, ainda que variáveis conforme o contexto. A questão não é se devemos ser rápidos, mas em quê.

Rápidos para identificar problemas, decidir quem decide, eliminar burocracia, testar hipóteses, responder ao cliente; criteriosos para definir estratégia, avaliar riscos relevantes e tomar decisões irreversíveis.

Vale abandonar indicadores puramente operacionais, como, “quantos projetos entregamos?” em favor de métricas como Time to Decision, Decision Quality, Time to Value, Rework Rate, Decision Reversal e Benefits Realization. Com elas, velocidade passa a ser variável estratégica e deixa de ser obsessão operacional.

O próximo estágio da liderança

A tartaruga venceu porque não desperdiçou energia tentando provar que era rápida. Existe uma diferença entre líderes que precisam demonstrar velocidade e líderes que constroem organizações capazes de se mover rápido: o primeiro corre e cobra; o segundo remove obstáculos e cria condições.

A liderança do futuro será definida pela capacidade de regular o ritmo organizacional: acelerar sem perder qualidade, desacelerar sem gerar paralisia, decidir sem esperar informação perfeita, esperar quando o custo de errar supera o custo de esperar.

Correr na direção errada continua sendo desperdício…só que rápido. A pergunta que deveria estar na mesa de todo CEO, CIO, COO ou CFO não é “estamos indo rápido o suficiente?”, mas “estamos nos movendo na velocidade certa para gerar o resultado que realmente importa?”. Essa é a diferença entre correr uma corrida e conduzir uma organização.

Leandro Roberto de Oliveira

Leandro Roberto de Oliveira
(Divulgação)

Leandro Roberto é especialista em gestão estratégica de projetos, portfólio e riscos, com mais de 25 anos de experiência em consultoria, auditoria e transformação organizacional, incluindo atuação em empresas como Allianz, KPMG e Ernst & Young. Reconhecido por sua expertise em PMO, governança corporativa e metodologias ágeis, destaca-se na conexão entre estratégia e execução, priorização de portfólio e gestão de riscos baseada em padrões internacionais. É graduado em Administração de Empresas e possui MBA em Gestão de Negócios pelo IBMEC/SP.

  • Publicado: 20/08/2026 13:16
  • Alterado: 20/08/2026 13:16
  • Autor: Leandro Roberto de Oliveira
  • Fonte: ABCdoABC

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