Jornalista Zuenir Ventura morre aos 95 anos
O jornalista e escritor cobriu os principais episódios políticos do país em seis décadas de atuação e ocupava a cadeira 32 da ABL.
- Publicado: 22/09/2026 10:53
- Alterado: 22/09/2026 10:53
- Autor: Thiago Antunes
O jornalista e imortal da Academia Brasileira de Letras, Zuenir Ventura, morreu aos 95 anos nesta terça-feira (22). Com mais de seis décadas de atuação no jornalismo, ele construiu uma trajetória fundamental na apuração de temas sociais e episódios políticos determinantes para o Brasil.
Ele deixa a esposa, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura. Nascido em Além Paraíba, interior de Minas Gerais, trabalhou como pintor de parede, office-boy, jogador de basquete, arquivista e professor universitário antes de se consagrar na escrita.
Zuenir Ventura na ABL e a influência de grandes mestres
A proximidade com figuras históricas pavimentou os primeiros passos da sua carreira. Ele teve como professores nomes do porte de Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. O convite para dar aulas de português partiu de Celso Cunha, enquanto Hélcio Martins o indicou para o arquivo da Tribuna da Imprensa, seu ponto de partida na reportagem.
O reconhecimento literário e intelectual o levou à consagração máxima da língua portuguesa. Eleito em 30 de outubro de 2014, o escritor ocupou a cadeira número 32 na sucessão de Ariano Suassuna.
O sucesso de 1968 e o caso Chico Mendes
A publicação do livro 1968 – o ano que não terminou consolidou seu prestígio nacional. A obra inspirou a minissérie Os anos rebeldes, da TV Globo, e o capítulo específico sobre um líder estudantil gerou o filme francês O homem que disse não, do cineasta Olivier Horn.
No ano seguinte, a investigação sobre o assassinato do ambientalista Chico Mendes no Acre rendeu uma série premiada de matérias. Zuenir Ventura assumiu pessoalmente a proteção da principal testemunha ocular do crime, um menino de 13 anos ameaçado de morte pelas milícias locais.
“Um dia, cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos. Ele ficou sob minha tutela até os 18 anos”, detalhou o repórter, ao recordar a decisão de abrigar o adolescente após negociar a segurança com a força policial.
Premiações e legado histórico
O compromisso com o impacto social da notícia rendeu a Zuenir Ventura os dois maiores troféus da imprensa nacional: o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog. A entrega da última honraria teve enorme peso simbólico, entregue diretamente pela viúva do amigo assassinado nos porões da ditadura.
A morte de Zuenir Ventura encerra um dos capítulos mais ricos da comunicação no Brasil, deixando um modelo inigualável de ética investigativa e humanidade na cobertura dos fatos.