IA cria campanhas, mas quem responde pelos riscos?
Campanhas criadas com inteligência artificial exigem revisão de marcas, imagens, contratos e dados para evitar conflitos jurídicos e proteger as empresas
- Publicado: 21/10/2026 09:35
- Alterado: 21/10/2026 09:35
- Autor: Luisa Caldas
Uma equipe usa inteligência artificial para criar o nome de um produto, escrever anúncios, gerar imagens e montar um vídeo. O material fica pronto em poucas horas. A velocidade impressiona, mas a publicação traz perguntas que não podem ser respondidas pelo entusiasmo com a ferramenta: o nome está disponível? A imagem se parece com obra de outra pessoa? O contrato com a plataforma permite o uso pretendido? Quem verificou tudo isso?
A inteligência artificial já participa da rotina de marketing, design e desenvolvimento de produtos. Ela pode ajudar a explorar ideias e produzir versões iniciais com rapidez. O erro empresarial está em confundir facilidade de geração com segurança de uso. Uma sugestão de nome continua precisando de pesquisa de marca. Uma imagem atraente continua precisando de revisão antes de entrar em uma embalagem ou campanha. Um texto aparentemente original continua precisando de conferência factual e editorial.
O uso de inteligência artificial exige cuidados com dados e contratos

Há também a questão das informações enviadas às ferramentas. Se a equipe insere uma apresentação estratégica, um desenho de produto ainda não lançado ou detalhes técnicos de uma invenção, deve conhecer as condições de uso da plataforma e as políticas internas da empresa. Em projetos que dependem de sigilo, a escolha da ferramenta e o controle de acesso merecem atenção desde o primeiro rascunho.
Outro ponto é a participação humana no processo criativo. Direitos autorais, provas de criação e condições de exploração de conteúdo gerado com IA são temas que exigem análise cuidadosa. Generalizações como “tudo que a inteligência artificial produz é livre” ou “basta escrever o comando para ser dono exclusivo do resultado” não oferecem base segura para uma decisão comercial. Vale documentar o trabalho da equipe: referências autorizadas, seleção, edição, adaptações e aprovações.
Direitos autorais e os riscos das campanhas geradas por IA

Pense numa marca de cosméticos que pede a uma ferramenta imagens “no estilo” de um artista conhecido. O resultado pode parecer perfeito para redes sociais. Antes de publicar, porém, a empresa deveria perguntar se está reproduzindo elementos reconhecíveis de obras alheias, se o anúncio sugere uma colaboração inexistente e se a campanha poderá ser reutilizada com segurança. A mesma cautela se aplica a vozes, personagens, fotografias de pessoas e logotipos.
O Superior Tribunal de Justiça tem acompanhado conflitos sobre direitos autorais no ambiente digital. Ainda que uma situação específica envolvendo inteligência artificial peça análise própria, a discussão mais ampla já mostra a necessidade de equilibrar a circulação de conteúdo e o respeito aos direitos dos criadores.
Como reduzir os riscos jurídicos no uso da inteligência artificial
Uma política interna simples pode evitar muitos problemas. Defina quais ferramentas a equipe pode usar, quais dados não devem ser inseridos, quando uma criação precisa de revisão jurídica e quem aprova seu uso público. Guarde os arquivos finais e os contratos relevantes. Treine marketing e produto para reconhecer sinais de risco.
A inteligência artificial amplia a capacidade de produzir. O valor empresarial aparece quando essa capacidade vem acompanhada de critério. Criar depressa é útil; publicar com segurança é o que permite aproveitar a campanha sem transformar uma economia de tempo em um conflito futuro.
Luisa Caldas

Especialista em propriedade intelectual e agente de transformação na valorização do conhecimento. Atualmente, é colunista da editoria Valor Intelectual no portal ABCdoABC. Atua como empresária e palestrante, com 26 anos de experiência na área. É pós-graduada em Propriedade Intelectual pela OMPI (Organização Mundial da Propriedade Intelectual). Responsável por mais de 10 mil marcas registradas e mais de 2 mil patentes no Brasil e no exterior. Sócia da Uniellas Marcas e Patentes e presidente do Instituto de Tecnologia e Inovação do Grande ABC.