Inclusão produtiva vai além da conquista do primeiro emprego

No ABC Cast Conexões, Maria Ruanes Coelho mostra como a Fundação Grupo Volkswagen conecta formação, emprego e permanência de jovens pelo Match de Vagas

Inclusão produtiva vai além da conquista do primeiro emprego

Crédito: Maria Ruanes Coelho, Analista de Impacto Social. da Fundação Grupo Volkswagen (Divulgação)

De um lado da Anchieta está uma das fábricas mais conhecidas da história industrial brasileira. Do outro, o Montanhão, território de São Bernardo do Campo onde jovens crescem cercados por oportunidades muito diferentes das encontradas a poucos quilômetros dali. Essa proximidade física, incapaz de apagar distâncias sociais, ajuda a explicar por que a Fundação Grupo Volkswagen decidiu colocar a mobilidade social no centro de sua atuação.

Essa história já havia passado pelo ABC Cast Conexões. Na primeira temporada, o diretor-geral da Fundação, Vitor Hugo Neia, contou como a instituição reviu sua relação com os territórios próximos às operações do Grupo Volkswagen (FGVW). Ao olhar da sede para o Montanhão, ele descreveu o incômodo de perceber que a Fundação apoiava iniciativas em diferentes partes do país enquanto uma comunidade marcada por vulnerabilidades estava literalmente do outro lado da rodovia.

Naquele episódio, a discussão estava concentrada na decisão institucional. A Fundação havia reorganizado sua estratégia, escolhido a mobilidade social como causa prioritária e apontado a inclusão produtiva como uma das maneiras de enfrentar ciclos de desigualdade. Vitor Hugo defendia que oferecer capacitação sem criar caminhos concretos para geração de renda produzia uma resposta incompleta.

Um ano depois, o ABC Cast Conexões volta com a Fundação Grupo Volkswagen para observar essa estratégia por outro ângulo. Desta vez, a conversa chega ao cotidiano dos projetos, às barreiras encontradas pelos jovens durante a formação, à entrada no mercado de trabalho e ao desafio de fazer uma oportunidade continuar produzindo efeitos depois da contratação.

É nesse ponto que entra Maria Ruanes Coelho, que participa do programa como representante da Fundação Grupo Volkswagen, onde atua como Analista de Impacto Social. Antropóloga, graduada em Ciências Sociais pela UFF e mestre em Antropologia Social pela UFSCar, ela soma cerca de dez anos de experiência no terceiro setor e leva para a gestão de impacto uma formação baseada na observação de territórios, relações e trajetórias individuais.

A antropologia oferece a Maria uma lente especialmente útil para uma área acostumada a trabalhar com metas, indicadores e números de pessoas atendidas. Antes de perguntar quantos jovens concluíram uma formação ou conseguiram uma vaga, ela procura entender quem são essas pessoas, de onde partem e quais condições interferem nas escolhas disponíveis para cada uma. “A antropologia, em certa medida, me ensinou que por trás de indicadores, por trás de programas, por trás de políticas, existem pessoas, existem trajetórias e existem contextos muito diferentes. As oportunidades não são distribuídas de maneira igual. As escolhas das pessoas são fortemente relacionadas pelas relações, pelas trajetórias, pelo território, pelas condições estruturais”, afirma.

Essa percepção desloca também a maneira de avaliar um projeto social. Um curso concluído pode ser contabilizado, uma contratação pode virar indicador. Para Maria, compreender o impacto exige acompanhar o que acontece depois e observar se aquela experiência conseguiu alterar concretamente uma trajetória.“Eu procuro, dentro de um programa, de uma gestão de projeto e de impacto, evitar análises superficiais e compreender como, de fato, os projetos impactam a vida real dos participantes. O fazer antropológico passa pelo trabalho de campo, pela etnografia, por ouvir diferentes atores envolvidos e entender as dinâmicas locais. O sucesso de uma iniciativa não pode ser medido apenas por números”, diz.

É com essa perspectiva que a conversa chega ao Match de Vagas, uma das estratégias da trilha de empregabilidade e autonomia da Fundação Grupo Volkswagen. O projeto nasce justamente da dificuldade que existe entre preparar um jovem e fazer com que essa preparação encontre uma oportunidade real, condições de permanência e alguma possibilidade de construir carreira. A pauta que começou, na primeira temporada, discutindo por que promover mobilidade social retorna agora para acompanhar como essa intenção tenta ganhar forma na vida de quem participa dos projetos.

Formar não garante a entrada no mercado

Maria Ruanes Coelho, Analista de Impacto Social. da Fundação Grupo Volkswagen - ABC Cast Conexões - Inclusão Produtiva - Mobilidade Social
(Divulgação)

O Match de Vagas nasceu dentro de uma estrutura que a Fundação Grupo Volkswagen chama de trilha de empregabilidade e autonomia. A proposta não parte da lógica de reunir oportunidades e candidatos em um mesmo ambiente digital. Antes disso, considera a formação, o acompanhamento e a preparação para o mercado como etapas de um percurso que pode durar até três anos.

Maria explica que o projeto surgiu depois de um diagnóstico mais amplo sobre mobilidade social e sobre os territórios prioritários da Fundação. A análise mostrou que cursos e capacitações, embora importantes, não resolvem sozinhos as barreiras encontradas por jovens em situação de vulnerabilidade. “Existem vários projetos hoje preocupados com a inserção no mercado de trabalho, e eles são legítimos, mas muitas vezes são apenas repositórios formativos. A gente criou uma trilha porque percebeu que só formar e capacitar não é capaz de fazer uma inclusão genuína”, afirma.

A trilha combina formação técnica, desenvolvimento de competências socioemocionais e acompanhamento socioassistencial. Organizações sociais que atuam nos territórios funcionam como referências para os participantes, enquanto o Senai integra a formação técnica e tecnológica. Maria aponta que esse desenho também responde a um problema recorrente em programas de capacitação, a evasão de jovens antes da conclusão do percurso.

O Match de Vagas entra justamente na etapa em que essa formação precisa se conectar às exigências do mercado. A plataforma foi desenhada para reunir o desenvolvimento dos jovens, mentorias e a aproximação com empresas interessadas em participar da iniciativa. Para Maria, a inclusão produtiva depende de preparar os dois lados dessa relação.“A gente entendeu a comunidade, entendeu a demanda pela formação e pela capacitação, mas também precisava entender as dinâmicas do próprio mercado de trabalho. É aí que entra o Match de Vagas, como uma estratégia transversal dentro dessa trilha”, explica.

Dentro da plataforma, os participantes percorrem uma jornada gamificada chamada Baobá, estruturada a partir da imagem da árvore e de sua importância histórica para a população negra. O jovem desenvolve competências representadas pelas raízes, pelo tronco e pelos frutos, enquanto participa de mentorias coletivas e individuais voltadas a temas como preparação para entrevistas, mercado de trabalho e educação racial. A própria trajetória dentro da plataforma produz informações que ajudam a orientar novas atividades e necessidades de desenvolvimento.

A atuação com as empresas acontece paralelamente. A Fundação busca aproximar organizações do projeto e trabalhar também a preparação de quem vai receber esses jovens. Para Maria, contratar alguém sem discutir ambiente de trabalho, acompanhamento e retenção reduz o alcance da inclusão pretendida. “A perspectiva é trabalhar também as próprias empresas, aproximar essas empresas, dar letramento e capacitação para que, quando esses jovens forem recebidos, elas saibam também reter esses talentos. O Match de Vagas tenta conectar esses dois universos”, diz.

A plataforma, não funciona como um site convencional de empregos aberto a qualquer candidato, ela, na verdade, atende jovens que já integram a trilha de empregabilidade da Fundação e que passam por um processo de formação acompanhado por organizações sociais nos territórios atendidos. O objetivo é construir uma ponte entre esse percurso e as oportunidades profissionais, reduzindo a distância entre aprender uma habilidade e conseguir utilizá-la no mercado de trabalho.

A contratação não encerra a inclusão produtiva

Carteira de Trabalho - Inclusão Produtiva - Empregos
(Marcelo Camargo/Agência Brasil)

A entrada no mercado de trabalho ocupa apenas uma etapa da trilha desenhada pela Fundação Grupo Volkswagen. No modelo apresentado por Maria Ruanes Coelho, estágio e aprendizagem são tratados como portas de entrada para jovens que ainda estão construindo formação e experiência profissional. A permanência no projeto continua depois dessa primeira oportunidade, com acompanhamento e novas etapas de desenvolvimento.

A próxima fase prevê justamente a aproximação dos participantes que ingressarem no ensino superior com programas de estágio em empresas parceiras. Mesmo contratados, eles permanecem vinculados à trilha e às organizações sociais dos territórios, que contam com profissionais de assistência social e psicologia para acompanhar demandas surgidas ao longo desse percurso. “A partir do momento que esse jovem seja inserido, ele continua sendo acompanhado, porque ainda vai estar dentro desse ciclo de formação. Ele continua fazendo formação, continua sendo acompanhado pela organização social de base. A gente tem um time de assistentes sociais e um time de psicólogos que fazem esse acompanhamento para entender essas demandas”, explica Maria.

O acompanhamento planejado alcança também o ambiente de trabalho. A Fundação pretende manter diálogo com os setores de recursos humanos das empresas parceiras para acompanhar a experiência dos jovens e trabalhar perspectivas de desenvolvimento profissional. A preocupação não está somente em contabilizar quantas pessoas conseguiram uma oportunidade, mas em discutir o que acontece durante e depois dela. “O Match de Vagas também faz essa formação junto com os RHs das empresas para poder pensar plano de carreira. Não adianta apenas a empresa chegar e contratar, fazer os dois anos de estágio e adeus. Como a gente consegue, em diálogo com essa empresa, construir um plano de carreira?”, questiona.

Essa lógica de permanência começa antes mesmo da contratação. Maria relaciona a continuidade dos participantes à existência de uma rede que combina apoio social, formação técnica, acompanhamento socioemocional e presença das organizações locais. Segundo ela, nos primeiros 18 meses da iniciativa, nenhum jovem havia abandonado a trilha, resultado apresentado pela Fundação como taxa de evasão de 0% no período. “A maioria dos projetos de inclusão produtiva tem taxas de evasão enormes. A gente tem 0% de evasão durante um ano e meio. Nenhum jovem desistiu até então. E isso acontece porque a gente foi aprimorando e porque existe toda essa rede”, relata.

Empresas, organizações sociais e a própria Fundação passam a integrar uma estrutura que acompanha dificuldades surgidas durante a formação e nas primeiras experiências profissionais. A contratação funciona como parte de um processo em andamento, especialmente para participantes que chegam ao mercado sem experiência anterior e ainda estão construindo repertório técnico e profissional.

Esse cuidado também explica por que o projeto considera estágio e aprendizagem formas legítimas de inserção. Maria lembra que se trata de jovens em busca do primeiro emprego e que a progressão profissional acontece por etapas. O desafio passa a ser fazer com que essa primeira oportunidade não termine como uma experiência isolada, mas possa se transformar em continuidade, formação e perspectiva de carreira.

O território também determina oportunidades

Periferias, Favelas, Comunidades - Favela do Metrô Mangueira, na Zona Norte da cidade do Rio
(Tânia Rêgo/Agência Brasil)

A atuação no Montanhão, em São Bernardo do Campo, ajuda a entender por que território ocupa um lugar tão importante no desenho da trilha de empregabilidade. Maria contrapõe os indicadores gerais do município às vulnerabilidades encontradas dentro de determinadas áreas da cidade. Para a Fundação Grupo Volkswagen, essa diferença interfere diretamente na definição de onde concentrar recursos, formação e acompanhamento.

O jovem atendido pelo projeto não chega sozinho a uma plataforma digital. A seleção e o acompanhamento passam por uma organização social de base, inserida no próprio território e responsável por manter contato próximo com os participantes. O Senai integra a formação técnica, enquanto outros parceiros contribuem para diferentes etapas da trilha. Maria considera essa presença local indispensável para que o projeto não funcione de maneira desconectada das condições encontradas pelos jovens fora do ambiente de formação. “A gente tem uma organização social de base, uma ONG do território, onde o jovem vai ser referenciado. Outro parceiro dessa trilha é o Senai. A gente foi construindo essas parcerias porque entende que a inclusão produtiva não pode ser trabalhada sozinha”, afirma.

Parte do investimento também é direcionada às organizações que já atuam nessas comunidades. Segundo Maria, a Fundação custeia formação, bolsas e acompanhamento socioemocional e remunera a organização social responsável por disponibilizar profissionais que acompanham os jovens. A escolha busca manter parte dos recursos dentro do próprio território e fortalecer estruturas que já possuem vínculo com aquela população.

Essa relação aparece também na etapa em que os participantes começam a construir experiência profissional. Uma das atividades previstas para os jovens em formação em programação é desenvolver, em grupo, um site para a organização social que os acompanha no Montanhão. O trabalho integra o portfólio dos participantes e, ao mesmo tempo, entregar uma ferramenta que permanecerá com a entidade local. “A plataforma também pode ser uma ferramenta de devolução para a comunidade daquilo que o jovem está aprendendo. A ideia é que eles desenvolvam uma solução para essa organização social. Ao mesmo tempo em que a gente devolve para a comunidade essa formação, esses jovens aprendem e constroem também o portfólio de carreira”, explica.

A experiência no Grande ABC coloca desenvolvimento profissional e desenvolvimento territorial dentro da mesma estratégia. A presença histórica da Volkswagen em São Bernardo não significa, nessa lógica, que uma iniciativa social possa ser construída apenas a partir das necessidades identificadas pela empresa. Organizações locais, instituições de formação e profissionais que conhecem a comunidade participam da execução e ajudam a identificar barreiras que dificilmente apareceriam apenas nos indicadores de empregabilidade.

Impacto social não se mede só por números

Maria Ruanes Coelho, Analista de Impacto Social. da Fundação Grupo Volkswagen - ABC Cast Conexões - Inclusão Produtiva - Mobilidade Social
(Divulgação)

A discussão sobre mobilidade social e inclusão produtiva leva Maria Ruanes Coelho a colocar um limite claro para a atuação do investimento social privado. Projetos desenvolvidos por empresas e fundações podem intervir em problemas específicos, financiar iniciativas e testar soluções, mas operam dentro de recortes definidos de público, território e recursos. Para ela, questões que atravessam educação, saúde, renda e trabalho exigem articulação entre diferentes atores. “A gente trabalha em rede porque entende que uma fundação sozinha não vai superar todos esses problemas. Existem limites em termos de número de jovens que podemos atender, de recursos e da própria disponibilidade do território. As possibilidades de superação desses gaps são intersetoriais”, afirma.

Nessa rede, Maria inclui empresas, organizações sociais e poder público. A Fundação mantém uma frente de diálogo com governos e órgãos públicos e, segundo ela, procura situar sua própria atuação dentro de uma estrutura mais ampla, sem transferir integralmente a responsabilidade pela mobilidade social ao Estado nem atribuí-la ao setor privado. “O investimento social privado não vai salvar o mundo. Ele é um ator dentro desse processo. Combinado com ações do Estado, organizações e empresas, consegue contribuir para mitigar problemas. Seria muito ingênuo achar que temos capacidade de superar esses desafios sozinhos”, diz.

Esse cuidado aparece também na maneira como Maria trata os resultados dos projetos. Contabilizar participantes, formações ou contratações fornece informações importantes sobre alcance, mas não responde sozinho se determinada iniciativa conseguiu produzir uma mudança duradoura e real inclusão produtiva. A Fundação Grupo Volkswagen, inclusive, criou uma área específica de produção de conhecimento e monitoramento para acompanhar essa dimensão. “Monitorar é muito caro e é uma área em que as organizações sociais precisam investir bastante recurso. A gente precisa pensar um projeto que, de fato, produza impacto. Não posso olhar o impacto pura e simplesmente por um recorte. Impacto não acontece de um dia para o outro”, afirma.

Maria demonstra cautela especialmente diante de números muito altos apresentados como sinônimo imediato de impacto. Para ela, concluir uma atividade ou passar por uma formação não permite afirmar automaticamente que houve transformação na trajetória daquela pessoa. Essa avaliação exige acompanhamento e tempo. “É muito comum a gente ver ‘impactei 500 mil pessoas’. E eu sempre fico pensando, será? Porque o impacto não é só uma métrica numérica. Fiz uma formação, formei essa pessoa num curso de três meses, impactei. Será que impactou?”, questiona.

A mesma lógica ajuda a explicar o desenho do Match de Vagas. A contratação aparece como um indicador relevante, mas precisa ser observada junto da permanência, da formação, do desenvolvimento profissional e das condições encontradas pelo jovem ao longo da trajetória. O resultado esperado não termina no momento em que alguém ocupa uma vaga.

Esse entendimento retoma o olhar antropológico que orienta o trabalho de Maria. Relações entre pessoas, organizações, empresas e instituições formam uma estrutura na qual nenhuma ação acontece isoladamente. Para explicar essa dinâmica, ela recorre à imagem de linhas que se cruzam e criam novos pontos de conexão.“Eu penso muito nessa perspectiva das relações como emaranhadas. Como se fossem teias, linhas que se conectam. E isso forma o tecido social”, afirma.

A mobilidade social e a inclusão produtiva, dependem justamente da capacidade de fazer essas conexões permanecerem. Formação, renda, acesso ao trabalho e acompanhamento precisam encontrar continuidade para que uma oportunidade consiga produzir mudança na trajetória de quem a recebe.

Equipe e convidados do ABC Cast Conexões

Maria Ruanes Coelho, Leonardo Nogueira e Thiago Quirino - Inclusão Produtiva
Maria Ruanes Coelho, Leonardo Nogueira e Thiago Quirino (Reprodução/ABCdoABC)

A entrevista com Maria Ruanes Coelho, Analista de Impacto Social da Fundação Grupo Volkswagen, foi conduzida por Thiago Quirino e contou com a participação do jornalista e redator Leonardo Nogueira. A produção e checagem de dados ficaram a cargo de Edvaldo Barone, editor-chefe do portal. A direção geral é de Alex Faria, fundador do veículo, e a edição do episódio leva a assinatura de Lucas Lima.

 Confira a entrevista completa com Maria Ruanes Coelho:

Além do canal no YouTube, o episódio com Maria Ruanes Coelho pode ser acessado pelo Amazon Music, Spotify, Deezer e também no Apple Podcasts.

Edvaldo Barone

  • Publicado: 10/10/2026 08:35
  • Alterado: 10/10/2026 08:35
  • Autor: Edvaldo Barone