Grupos multipropriedade transformam o futebol atual
City Football Group, BlueCo, Red Bull e outros conglomerados transformaram a gestão dos clubes, a formação de talentos e o mercado da bola atual global
- Publicado: 03/08/2026 14:02
- Alterado: 03/08/2026 14:02
- Autor: Vitor Bianco
Durante décadas, a imagem do dono de um clube de futebol esteve associada à figura de um empresário ou bilionário disposto a investir em uma única equipe. Roman Abramovich no Chelsea, Silvio Berlusconi no Milan e Dmitry Rybolovlev no Monaco são alguns exemplos de dirigentes que marcaram época comandando apenas um clube.
Nos últimos anos, porém, esse cenário começou a mudar. Em vez de adquirir uma única instituição, grupos de investimento passaram a construir verdadeiras redes de clubes espalhadas por diferentes países, transformando a multipropriedade em uma das principais tendências do futebol moderno.
Afinal, o que é multipropriedade no futebol, de fato?

Na prática, a multipropriedade permite que diferentes clubes atuem de forma integrada. Departamentos de scout, análise de desempenho e dados trabalham em conjunto para identificar talentos. Assim, um jogador pode ser contratado por um clube menor do grupo, ganhar experiência e, posteriormente, chegar à equipe principal. Em tese, esse modelo reduz riscos financeiros, amplia as possibilidades de desenvolvimento dos jogadores e torna o processo de recrutamento mais eficiente.
Os benefícios também aparecem fora das quatro linhas. Clubes pertencentes ao mesmo grupo conseguem negociar patrocínios de maneira mais atrativa, dividir custos administrativos e aproveitar estruturas compartilhadas nas áreas de marketing, tecnologia e gestão esportiva. Em um mercado cada vez mais globalizado, essa integração pode representar uma vantagem competitiva importante diante de rivais que operam de forma independente.
O início de tudo

O principal exemplo é o City Football Group, criado em 2013. A partir do Manchester City, o grupo expandiu sua atuação para clubes como Girona, Palermo, Bahia e New York City, criando uma rede global voltada ao desenvolvimento de jogadores e ao compartilhamento de conhecimento.
O sucesso esportivo e financeiro do City Football Group abriu caminho para que outros investidores adotassem estratégias semelhantes. Hoje, diferentes conglomerados disputam espaço no futebol internacional. A BlueCo, por exemplo, controla Chelsea e Strasbourg e utiliza a equipe francesa como parte de um projeto de desenvolvimento de atletas. A INEOS administra Nice e Lausanne-Sport, além de participar da gestão do Manchester United. Há ainda o tradicional modelo da Red Bull, que construiu uma identidade própria conectando clubes como RB Leipzig, Red Bull Salzburg e Red Bull Bragantino.
O outro lado da moeda

Ao mesmo tempo, o crescimento desse modelo levanta questionamentos. O principal deles diz respeito aos conflitos de interesse. Afinal, o que acontece quando dois clubes do mesmo grupo disputam a mesma competição continental? Para preservar a integridade esportiva, a UEFA endureceu suas regras e passou a exigir mudanças na estrutura de controle desses conglomerados.
Outro debate envolve a identidade dos clubes. Parte da torcida teme que equipes historicamente ligadas às suas comunidades passem a atuar apenas como plataformas de desenvolvimento para organizações maiores, como ocorreu com o Troyes, do Grupo City, tempos atrás. Embora o modelo traga investimentos e estabilidade financeira, muitos enxergam o risco de perda de autonomia nas decisões esportivas.
Ainda assim, tudo indica que a multipropriedade continuará ganhando espaço. O aumento dos custos do futebol, a internacionalização do mercado e a busca por modelos de gestão mais eficientes tornam esse formato cada vez mais atrativo para investidores. Para alguns, trata-se da evolução natural de um mercado globalizado. Para outros, é um modelo que desafia tradições centenárias e levanta debates sobre o futuro da identidade e da competitividade no futebol.