O envelhecimento do Grande ABC desafia a mobilidade urbana
Com quase meio milhão de idosos, a região precisa adaptar ruas, calçadas e transportes para garantir segurança, autonomia e qualidade de vida
- Publicado: 19/06/2026 12:30
- Alterado: 19/06/2026 12:30
- Autor: Luiz Vicente Figueira de Mello Filho
- Fonte: ABCdoABC
Enquanto boa parte das atenções está voltada à Copa do Mundo, há uma transformação silenciosa acontecendo nas cidades do Grande ABC: a população está envelhecendo. E este não é apenas um tema de saúde, segurança pública, previdência ou assistência social. É, também, um tema central de mobilidade urbana.
Segundo dados regionais divulgados nos últimos anos, o Grande ABC já tem cerca de 458 mil pessoas com 60 anos ou mais, o equivalente a aproximadamente 16,8% da população. Em uma região com quase 2,7 milhões de habitantes, isso significa que quase um em cada seis moradores já é idoso.
O dado revela uma mudança profunda no perfil da população e exige uma pergunta direta: nossas ruas, calçadas, semáforos, ônibus, estações e travessias estão preparados para esse novo cenário?
Planejamento da mobilidade

A mobilidade urbana ainda é planejada, muitas vezes, a partir da lógica da velocidade do automóvel. O tempo do semáforo, a largura das calçadas, a distância entre pontos de ônibus, a qualidade do piso, a iluminação pública, assim como a presença de bancos ou abrigos, raramente consideram de forma adequada o ritmo de quem caminha mais devagar, tem menor equilíbrio, dificuldade visual, limitação motora ou precisa de mais tempo para atravessar uma avenida.
No Grande ABC, esse desafio é ainda mais evidente. Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra têm realidades urbanas distintas, mas compartilham problemas semelhantes: calçadas irregulares, travessias longas, pontos de ônibus desconfortáveis, aclives acentuados em alguns bairros, circulação intensa de veículos e integração ainda insuficiente entre transporte coletivo, caminhada e acessibilidade.
Envelhecer com segurança
Há muitos significados em envelhecer em uma cidade segura, como poder sair de casa sem medo de cair na calçada, atravessar uma rua sem correr contra o tempo do semáforo, aguardar o ônibus sentado, protegido do sol e da chuva, acessar um transporte coletivo sem degraus excessivos são pequenas atividades que transformam a vida de quem trabalhou por uma vida inteira na região do Grande ABC. E tudo isso está relacionado à possibilidade de chegar com segurança à estação de trem, ao posto de saúde, à farmácia, ao mercado ou à praça sem depender exclusivamente de um automóvel ou de familiares.
A cidade que protege o idoso também protege a criança, a pessoa com deficiência, a pessoa com mobilidade reduzida, a gestante, o trabalhador cansado, o pedestre comum e qualquer cidadão em situação de maior vulnerabilidade. Por isso, adaptar a mobilidade ao envelhecimento da população não é uma política setorial. É uma política de civilidade urbana.
Entre as medidas mais urgentes estão a revisão dos tempos semafóricos para pedestres, a qualificação das calçadas em rotas de saúde e comércio, a ampliação de travessias elevadas ou mais bem sinalizadas, a melhoria dos pontos de ônibus, a fiscalização contra veículos sobre calçadas e faixas de pedestres, além da criação de rotas acessíveis ligando bairros aos serviços públicos em geral.
Também é necessário olhar para o transporte coletivo. Uma região envelhecida precisa de ônibus mais acessíveis, motoristas treinados e com muita empatia, integração física mais confortável e maior previsibilidade nos horários. Para muitos idosos, esperar demais no ponto, caminhar longas distâncias ou enfrentar veículos lotados não é apenas desconfortável. É um fator de exclusão.
A exclusão faz refletir sobre se não é o momento de procurar uma outra cidade, mas não seria justo que a pessoa tivesse que sair do local onde construiu seus laços afetivos, comerciais e familiares para se distanciar do ambiente que escolheu para viver.
Oportunidades para o Grande ABC

O envelhecimento do Grande ABC não é um problema. Pelo contrário: é resultado de avanços sociais, aumento da longevidade e melhoria das condições de vida. O problema está quando o planejamento urbano continua voltado para cidades desenhadas para uma população mais jovem, mais motorizada e com maior capacidade física.
A pergunta que deve orientar os próximos anos é simples: queremos uma região onde envelhecer signifique perder autonomia ou uma região onde a mobilidade permita continuar vivendo a cidade?
O Grande ABC foi historicamente moldado pela indústria, pelo trabalho e pelos deslocamentos diários. Agora, precisa se preparar para uma nova etapa: a mobilidade da longevidade. Porque uma cidade verdadeiramente desenvolvida não é aquela onde os carros andam mais rápido, mas aquela onde as pessoas conseguem circular com segurança, dignidade e independência em todas as fases da vida.
Luiz Vicente Figueira de Mello Filho

Agente transformador da mobilidade urbana. Luiz é colunista de mobilidade do portal ABCdoABC. Pesquisador do Programa de Pós-doutorado em Engenharia de Transportes e Professor Credenciado da Unicamp – Faculdade de Tecnologia. É doutor em Engenharia Elétrica no Departamento de Comunicação – DECOM – FEEC da Unicamp (2020), mestre em Engenharia Automotiva pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (2009), pós-graduado em Comunicação e Marketing pela Faculdade Cásper Líbero (2005), possui graduação em Administração de Empresas (2002) e em Engenharia Mecânica (1999), ambas pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.