Efeito GLP-1 transforma setor de alimentos e saúde no Brasil
Com a expansão do GLP-1, busca por alimentos proteicos cresce no mercado, mas especialistas alertam que uso exige cuidado individualizado
- Publicado: 11/08/2026 17:23
- Alterado: 11/08/2026 17:23
- Autor: Daniela Ferreira
Os medicamentos à base de GLP-1, como semaglutida e tirzepatida, mudaram a forma como muitas pessoas lidam com a alimentação durante o processo de emagrecimento. Com a redução do apetite e, em alguns casos, a diminuição do volume das refeições, surge outra preocupação: como garantir que o organismo continue recebendo proteínas, fibras, vitaminas e minerais em quantidade suficiente?
A mudança já começa a aparecer no mercado. Na rede de produtos naturais e de bem-estar Bio Mundo, categorias ligadas ao aporte nutricional ganharam espaço nos últimos meses. Entre os produtos que registraram aumento de procura estão água proteica, proteínas prontas para consumo, barras substitutas de refeição, eletrólitos, psyllium, shots funcionais e vitaminas em formato de gummies.
Os números da rede mostram parte desse movimento. As vendas de suplementos de proteína, como whey protein, cresceram 33% no último ano. No mesmo período, a comercialização de vitaminas aumentou 16%.
Para a nutricionista Amanda Rodrigues, da Bio Mundo, a redução da ingestão alimentar é um dos principais desafios enfrentados por quem utiliza os medicamentos.
“Um dos principais desafios para quem utiliza medicamentos agonistas de GLP-1 é conseguir atingir as necessidades nutricionais mesmo com uma ingestão alimentar menor. Quando o paciente passa a comer menos, pode acabar consumindo menos proteínas, fibras, vitaminas e minerais.”

A questão não significa, porém, que todo paciente em tratamento precise recorrer a suplementos. Segundo a especialista, eles podem ser utilizados quando há indicação profissional e dificuldade de atingir as necessidades nutricionais apenas pela alimentação.
“Os suplementos proteicos, por exemplo, podem facilitar o aporte diário de proteínas em um volume menor de alimento, o que costuma ser interessante para pessoas que apresentam saciedade precoce durante o tratamento.”
Mais proteína não significa, necessariamente, dieta hiperproteica
A preocupação com a massa muscular ajuda a explicar por que a proteína ganhou tanto espaço nas discussões sobre o tratamento com GLP-1. Durante o emagrecimento, o organismo elimina gordura, mas também pode perder parte da massa magra. Uma ingestão insuficiente de proteínas pode contribuir para essa perda, principalmente quando há uma restrição calórica importante.
Isso não significa que uma dieta hiperproteica seja necessária para todas as pessoas que utilizam essas medicações.
A nutricionista da Six Clínic, Fernanda Lopes, explica que a quantidade de proteína deve ser calculada individualmente, levando em conta fatores como idade, composição corporal, atividade física, velocidade do emagrecimento, condições clínicas e tolerância alimentar.
“Uma dieta hiperproteica não é obrigatória para todas as pessoas em tratamento, o mais importante é atingir uma quantidade adequada de proteínas, calculada de forma individualizada.”
Durante a perda de peso, algumas recomendações trabalham com faixas entre 1,2 e 1,6 grama de proteína por quilo ao dia. A nutricionista ressalta, porém, que esse valor não deve ser aplicado automaticamente a todos os pacientes, especialmente em pessoas com obesidade, já que o cálculo baseado no peso atual pode superestimar a necessidade.
O nutrólogo Felipe Gazoni segue a mesma linha. Para ele, mais importante do que aumentar indiscriminadamente a quantidade de proteína é garantir que o paciente receba o que precisa para preservar a massa muscular.
“Não necessariamente. Mais importante do que uma dieta hiperproteica é garantir uma ingestão de proteínas adequada e individualizada. Durante o emagrecimento, especialmente com o uso dessas medicações, devemos priorizar a preservação da massa muscular.”
Perda de peso não é o mesmo que perda de gordura

A velocidade do emagrecimento também merece atenção. Uma perda de peso muito rápida pode aumentar o risco de perda de massa muscular, principalmente quando vem acompanhada de restrição calórica intensa, baixa ingestão de proteínas e ausência de exercícios de força.
Mas esse não é o único fator envolvido.
Segundo Fernanda Lopes, idade, nível de atividade física, composição corporal antes do tratamento, quantidade total de peso perdido, doenças preexistentes, efeitos gastrointestinais dos medicamentos e capacidade de manter uma alimentação adequada também interferem nesse processo.
Outro cuidado é não confundir massa magra com massa muscular. A primeira também inclui água, órgãos e outros tecidos. Por isso, a avaliação do paciente não deve considerar apenas o número mostrado pela balança.
“O acompanhamento deve considerar força, funcionalidade e composição corporal, e não apenas o número da balança”, explica Fernanda.
Gazoni enfatiza que o exercício de força é parte importante desse processo.
“Além da alimentação, a musculação é indispensável para estimular a manutenção e o ganho de massa muscular. O tratamento deve buscar não apenas a perda de peso, mas uma melhora da composição corporal.”
Mercado de alimentos proteicos
A mudança no comportamento alimentar também abriu uma oportunidade para a indústria. Com refeições menores, produtos que concentram nutrientes em porções reduzidas passaram a chamar mais atenção.
De acordo com Fernanda Lopes, existe uma necessidade clínica real por alimentos nutricionalmente mais densos. Ao mesmo tempo, a indústria percebeu o potencial comercial desse novo público.
“Existem os dois movimentos, há uma necessidade clínica real de refeições nutricionalmente mais densas, porque o paciente pode passar a consumir quantidades menores de comida. Nesse cenário, alimentos com boas fontes de proteína podem ajudar a atingir as necessidades diárias.”
A nutricionista faz, porém, uma ressalva: a demanda não deve ser resumida à proteína.
“O cuidado é não transformar uma necessidade individual em uma recomendação universal. A demanda mais importante não é apenas por proteína, mas por alimentos que ofereçam boa qualidade nutricional em porções menores.”
Na prática, isso significa que um alimento com a indicação “rico em proteína” não deve ser automaticamente considerado saudável. É preciso observar a quantidade de proteína por porção, mas também açúcar, gordura saturada, sódio, fibras e grau de processamento.
“Ser ‘rico em proteína’ não torna automaticamente um produto saudável. O mais importante continua sendo a qualidade da alimentação e a individualização para cada paciente”, afirma Gazoni.
Suplementos não substituem a alimentação

O aumento da procura por whey, bebidas proteicas e outros produtos não significa que os suplementos sejam obrigatórios para quem utiliza medicamentos para emagrecer.
A prioridade deve continuar sendo a alimentação. Entre as opções de fontes de proteína estão ovos, leite e derivados, peixes, carnes, feijões, lentilhas, grão-de-bico e tofu, conforme as preferências e condições de cada paciente. Suplementos podem entrar na estratégia quando a alimentação não for suficiente para alcançar a quantidade necessária.
Na Bio Mundo, a nutricionista Amanda Rodrigues observa justamente essa busca por praticidade. Segundo ela, consumidores passaram a procurar produtos que ofereçam proteínas, fibras e vitaminas em pequenas porções, especialmente diante da redução do apetite.
A orientação dos especialistas é evitar que essa tendência transforme uma necessidade específica em uma regra para todos os pacientes.
Quem precisa de mais atenção?
Alguns grupos precisam de acompanhamento ainda mais próximo durante o tratamento. Os idosos estão entre eles porque já apresentam maior risco de perda de massa muscular, redução de força e perda de funcionalidade.
Também merecem atenção pessoas que iniciam o tratamento com pouca massa muscular, têm rotina sedentária, histórico de dietas muito restritivas ou grandes oscilações de peso.
O cuidado também deve ser maior quando há náuseas, vômitos ou falta de apetite intensa, emagrecimento acelerado, restrições alimentares importantes ou doenças que alterem as necessidades nutricionais.
Nessas situações, aumentar a quantidade de proteína por conta própria não é a solução. A quantidade e as fontes mais adequadas precisam ser avaliadas individualmente.
O avanço dos medicamentos para emagrecer, portanto, pode estar mudando não apenas o tamanho das refeições, mas também a maneira como se pensa a alimentação durante o tratamento. Para Fernanda Lopes, o desafio será desenvolver opções que concentrem nutrientes sem transformar a dieta em uma lista de produtos específicos.
“A mudança não deveria se resumir à inclusão de proteína em todos os produtos. O mais importante é garantir que, mesmo comendo menos, o paciente mantenha uma alimentação variada e nutricionalmente adequada.”