Deepfakes de famosos acendem alerta para golpes digitais

Cantor denunciou um vídeo criado por inteligência artificial que usa sua imagem para promover um falso tratamento de saúde; especialistas explicam como os golpes funcionam.

Crédito: Reprodução/Instagram

Criminosos digitais estão utilizando Deepfake para forjar vídeos de figuras públicas na promoção de medicamentos falsos. O cantor Roberto Carlos e a atriz Fernanda Montenegro denunciaram recentemente campanhas fraudulentas nas redes sociais que exploram suas identidades sem autorização. O esquema criminoso manipula a imagem das celebridades para vender falsas curas médicas a usuários desavisados, mirando com precisão o público idoso.

Ofensiva contra ícones da cultura nacional

A equipe jurídica de Roberto Carlos precisou intervir após a ampla circulação de um vídeo artificialmente gerado oferecendo terapias milagrosas. O artista negou qualquer ligação com a marca ou o tratamento mencionado nas peças publicitárias. A fraude engana o consumidor ao simular o endosso de uma figura de alta confiança popular.

“Peço que não compartilhem esse material. Sempre que houver alguma informação oficial a meu respeito, ela será divulgada exclusivamente pelos meus canais oficiais”, alertou o cantor. Ele destacou o risco à saúde provocado pela ingestão de produtos de procedência desconhecida.

O uso invasor dessa dimensão na vida de um ser humano é um crime”, declarou a artista ao descobrir a veiculação do vídeo. A manipulação por deepfake atingiu um nível de sofisticação tecnológica que dificulta a distinção imediata pelo usuário navegando pelo celular.

A tática criminosa baseada em vídeo Deepfake já fez diversas outras vítimas notórias no cenário cultural e médico brasileiro. O médico Drauzio Varella e os atores Tony Ramos e Glória Pires enfrentaram o uso ilícito de seus rostos e vozes em campanhas fraudulentas idênticas. Os casos foram seguidos por ataques contra Fernanda Montenegro e, mais recentemente, Roberto Carlos, evidenciando uma operação estruturada para explorar a vulnerabilidade emocional de pacientes em busca de tratamentos alternativos.

A mecânica por trás do Deepfake e da clonagem virtual

O avanço exponencial da inteligência artificial tornou o Deepfake mais barato e simplificou o processo de falsificação audiovisual. O especialista em segurança da informação Daniel Porta, atual CISO da DANRESA, explica que os sistemas modernos dispensam captações inéditas de vídeo. Os algoritmos mapeiam o alvo através de registros públicos já consolidados na internet.

Os modelos de inteligência artificial generativa aprendem os padrões de um rosto e de uma voz a partir de material que já está publicado por aí. Com poucos segundos de voz limpa, uma ferramenta consegue clonar o timbre, o sotaque e até a entonação emocional”, detalhou o especialista.

A biblioteca digital deixada por pessoas famosas facilita o trabalho dos fraudadores cibernéticos. Entrevistas longas, participações em programas e transmissões ao vivo fornecem a matéria-prima ideal para treinar os softwares de Deepfake. O golpista precisa apenas fornecer um texto roteirizado para que a máquina crie a ilusão completa de veracidade e movimento natural na tela.

A escalada do cibercrime no território nacional

O país registra uma explosão dos crimes de Deepfake focados na venda de produtos falsificados.. Dados oficiais da Polícia Federal indicam um crescimento vertiginoso de 830% nas ocorrências envolvendo a manipulação de imagem e voz entre os anos de 2024 e 2025. O uso de ferramentas de automação sintética marca presença documentada em 42,5% de todos os crimes financeiros registrados nacionalmente no período.

A popularização rápida de aplicativos gratuitos afasta a necessidade de conhecimentos técnicos profundos por parte dos criminosos. Profissionais que atuam diariamente em centros de operações de segurança observam a escalada semanal dessas ameaças inundando os aplicativos de mensagens. O paradigma da confiança visual mudou radicalmente, e o som ou a imagem deixaram de funcionar como provas incontestáveis da realidade objetiva.

Como identificar um Deepfake nas redes sociais

A evolução contínua da tecnologia gráfica torna a detecção técnica um desafio complexo até para investigadores treinados. Daniel Porta destaca que, embora os defeitos de renderização ainda existam nos vídeos, confiar apenas na acuidade da visão humana representa um alto risco. O contexto geral da comunicação oferece pistas estruturais muito mais seguras sobre a autenticidade do conteúdo.

O executivo aponta sinais visuais sutis e comportamentos clássicos para o internauta desmascarar os vídeos manipulados na internet:

  • Sincronia labial imperfeita ou robotizada entre a voz gerada e os movimentos naturais da boca durante falas mais longas.
  • Textura de pele artificialmente lisa, sem porosidade, rugas finas de expressão ou marcas comuns da idade do indivíduo.
  • Iluminação incompatível com o cenário de fundo e reflexos anômalos em óculos, janelas ou superfícies polidas ao redor.
  • Distorções anatômicas perceptíveis nos dentes, nas articulações das mãos ou nos limites externos dos contornos do rosto.
  • Senso de urgência exagerado no discurso exigindo transferências rápidas de dinheiro via Pix ou cliques em links suspeitos.
  • Promessas irreais de tratamentos sem respaldo científico validado por instituições oficiais ou aval de autoridades médicas.

A educação digital contínua desponta como a linha de defesa mais eficiente contra a desinformação audiovisual. Questionar o real objetivo da mensagem e cruzar os dados com o jornalismo profissional impede a propagação involuntária de crimes contra a saúde. Nenhuma figura pública recomenda produtos farmacêuticos através de anúncios patrocinados duvidosos.

A orientação técnica repete o protocolo de segurança adotado pelas próprias celebridades enganadas pelos criminosos. Consultar os perfis verificados das instituições antes de qualquer compra quebra a espinha dorsal da rentabilidade do esquema. O enfrentamento definitivo aos crimes de Deepfake exige uma postura de desconfiança ativa do espectador diante de ofertas vantajosas e milagrosas no ambiente digital.

  • Publicado: 21/07/2026 16:37
  • Alterado: 21/07/2026 16:55
  • Autor: Thiago Antunes
  • Fonte: ABCdoABC