Data: 05/03/2018 15:38 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Adamo Bazani - Diário do Transporte

HISTÓRIA: Massari, a base do Papa-Fila

Empresa juntamente com a FNM contribuiu para o desenvolvimento do transporte por ônibus com maior capacidade, mesmo a experiência não tendo o retorno esperado


ÔNIBUS FNM D11000 PAPA FILA 1959
Papa-Fila da CMTC, na Capital Paulista
Papa-Fila da CMTC, na Capital Paulista

Entre os anos de 1950 e 1960, um personagem muito peculiar ganhou as páginas da história dos transportes e a paisagem de grandes cidades como São Paulo, São Bernardo do Campo, Santos, Porto Alegre, Brasília e Rio de Janeiro: eram os gigantes papa-filas, que consistiam em carrocerias para passageiros tracionadas por cavalos mecânicos.

Foi uma tentativa de dar uma resposta rápida à necessidade de ônibus com maior capacidade frente ao crescimento das cidades. Algumas linhas já necessitavam de veículos maiores e os ônibus da época tinham dimensões reduzidas para uma demanda de passageiros em expansão.

A invenção não é brasileira. Os primeiros registros de Papa-Filas foi nos Estados Unidos, na época da Segunda Guerra Mundial, para transportar funcionários da GM e, posteriormente, até tropas.

O desafio foi assumido entre 1955 e 1956 pela FNM, que fabricava o cavalo mecânico, e pela Massari, empresa de São Paulo, que fazia os chassis destas grandes carrocerias.

A Massari S.A. Indústria de Viaturas tinha sido fundada na capital paulista poucos anos antes, em 1953, pelos italianos Romulo Massari, Acchile Biselli e Walmor Ferraretto. A empresa era especializada em carrocerias de caminhão e implementos rodoviários.

O Papa-Fila tinha capacidade para transportar em torno de 60 pessoas sentadas, algo grandioso para os padrões de capacidade dos ônibus urbanos da época.

A CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos, da Capital Paulista, sempre inovadora e que apostava em soluções até então pouco vistas no mundo dos transportes, adquiriu 50 unidades. O Papa-Filas recebeu carrocerias de fabricantes como Caio, Cermava e Grassi.

As expectativas foram grandes em relação a estes “híbridos” de ônibus com caminhões.

Mas com o tempo, o Papa-Fila acabava se mostrando pouco viável. Os veículos eram lentos, barulhentos e desconfortáveis e, por mais que a Massari investisse para deixar os chassis mais aptos possíveis para o transporte de passageiros, os solavancos e vibrações eram intensos.

Algumas unidades de Papa-Fila rodaram pelo Brasil em transportes urbanos até os anos 1970.

Por causa da flexibilidade do chassi e também por opção dos operadores de ônibus, muitas vezes poderiam ser vistas carrocerias sendo tracionadas por cavalos mecânicos que não eram da marca FNM.

Mesmo com Papa Fila não correspondendo a todas as expectativas, a experiência motivou a Massari a continuar no segmento de transportes de passageiros. Em 1961, lançou um ônibus monobloco integralmente concebido no país que foi equipado com carroceria de aço e recebia mecânica FNM. O motor era dianteiro e o veículo foi apresentado no, no stand da FNM, do II Salão do Automóvel.

No ano seguinte, em 1962, a Massari projetou os primeiros trólebus: da marca o TTPA, de 12,0 metros de comprimento, e TTPB, de 10,65 metros. Estes trólebus tinham equipamentos elétricos Villares, a estrutura monobloco, carroceria de aço, a suspensão era a ar e a mecânica era FNM.

Por causa do planejamento da carroceria, a unidade de 12 metros poderia transportar até 113 passageiros e havia opções de o veículo ter duas ou três portas. A iluminação era florescente no salão de passageiros, inédita no Brasil para ônibus.

Em 1964, a Massari lançou no IV Salão do Automóvel, dois modelos de ônibus, um com 10,65 metros de comprimento e motor dianteiro e outro de 12 metros, com motor sob o piso. Os dois modelos eram monoblocos, tinham suspensão a ar, mecânica FNM D11000, de 175 cavalos, e poderiam ser vendidos nas versões urbana e rodoviária.

Em relação aos Papa-Filas, após serem aposentadas dos sistemas urbanos, algumas unidades foram utilizadas por construtoras e fábricas para transportes de funcionários. Mais uma vez a alta capacidade de passageiros chamava atenção. Entre as empresas que utilizaram papa-filas para os funcionários estavam a CBT – Companhia Brasileira de Tratores, de São Carlos; Camargo Correa para construir a Usina Hidrelétrica de Tucuruí, no Pará; a Usiminas, em Ipatinga; e a fábrica de bicicletas e máquinas de costura Mercantil Suissa, de São Bernardo do Campo. Diversos destacamentos do Exército, Marinha e Aeronática também usaram Papa-Filas.

O fato de o Papa-Fila não ser o sucesso que se esperava não tira o seu mérito na contribuição para o desenvolvimento dos transportes de maior capacidade no país. O Papa-Fila é considerado o precursor do articulado. O ônibus primeiro articulado no Brasil seria produzido apenas em 1978, era um modelo Caio Gabriela, com chassi Scania B111, que seria o início da consolidação dos modelos urbanos que podem atender com mais conforto um número maior de pessoas na mesma viagem.

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