Data: 02/05/2019 13:24 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Paulo Porto - pesquisador cultural, músico contrabaixista, letrista e roqueiro do ABC

O ABC do Rock – Nomadismo (S1 – A4)

Uma visita ao passado na busca das origens roqueiras do mundo e daqui. Memórias e lendas urbanas. Paulo Porto faz o convite: viajar no tempo da demarcação do território rock do Brasil


Rock é mais que música. É modo de vida. Aqui no ABC, como em outras praças roqueiras pelo mundo, pessoas nascem e morrem respirando rock, sem se permitir desvirtuar um só momento de sua vida. Costumam se bastar nessa cultura. Infelizmente, no ABC, apesar da riqueza semelhante que o rock proporciona pelo mundo desenvolvido, aqui nos restaram parcos ou quase nenhum registros fonográfico, entretanto, muitas memórias e lendas urbanas.

Se a felicidade, assim como a liberdade, é algo a se perseguir, é o rock uma boa estrada. E, devido a seu processo contínuo de evolução, eu diria que não é sadio dizer ao certo como ele surgiu e aconteceu. E costumo refutar quem, porventura, ouse colocar nele uma pedra fundamental ou mesmo apontar-lhe um pai, sob pena de subjetivar propósitos próprios que certamente se encontram abaixo deste fenômeno. Embora todo debate valha, para mim, isso sempre será uma tentativa de fazer do rock uma coisa de menor importância.

O contrário é objetividade do rock; paisagística e cênica. E é graças a isso que podemos por ele navegar com nossos sentimentos mais verdadeiros. Desse modo – e com boa dose de licença poética – convido-os a navegarmos no tempo em busca do que pode bem ser a origem do rock, desejando-os livres de anacronismos, para melhor absorvermos o “era uma vez...”, os sentimentos, sensações, palavras, objetos e costumes daquela época em que o princípio era o verbo: e o verbo era o Rock:

Nos anos de 1.950 – e durante a primeira metade da guerra fria – um povo nômade andou pela Terra, vivendo em busca da liberdade musical, alimentando seu espírito pela coleta de sons e ritmos. Na medida em que escasseavam seus meios de sobrevivência, eles seguiam viagem, migrando para outro local. E a sobrevivência – valor mínimo da vida, diga-se – em pouco se coaduna com a liberdade.

Enquanto potências mundiais corriam para criar um arsenal nuclear na busca da hegemonia pelo poder na Terra, esses nômades livres empunhavam como armas guitarras, contrabaixos e baterias em um caminho diametralmente oposto, afastando-se da pretensão humana da vil dominação pelo terror, ao passo em que se aproximava da busca pela terra fértil que lhes permitiria plantar a nova semente, onde, por meio daquela música, luzia o propósito de fundir todas ‘raças humanas’ (brancos, pretos, amarelos, etc.), em uma nova-velha cultura simples; a do homem como homem, enquanto raça. Sim, porque por ser o homem um ente pensante e de espírito, não deve ele mesmo se igualar às bestas, mas aos homens como iguais. É nessa razão que a humanidade caminha pra frente. E evolui.

Do ponto de vista da vida cultural, é bem verdade que são várias as razões para cultivarmos o nosso espírito, mas a primeira, note, é que o homem, ao nascer, nunca é o primeiro homem que nasceu. Porque o próximo que nasce já é herdeiro natural da cultura do homem anterior, para, desse modo, ser mais e melhor. Para ser grande e para atrair grandeza. Para cumprir seu destino de continuidade da vida, transmitindo valores (e não o terror) ao próximo que virá.

Por essa razão, o que faz a humanidade evoluir é a posse do conhecimento dos passos que ficaram para trás, para fazer uso deles e, desse modo, avançar. Ortega y Gasset, maior filósofo espanhol do século ido, diz que o passado “é o tesouro único do homem, seu privilégio e sua marca”, diferente dos outros animais terrestres. E é isso o que nos diferencia das bestas: o nosso poder consciente de continuar o ontem vivendo para o amanhã, tendo em vista que passado e futuro só existem no presente...

E assim, em algum momento daquela década de 1.950, depois de duas ou três décadas de busca, àqueles nômades – que caminhavam pelos quatro cantos do mundo – finalmente lograram vingar sua semente musical em diversos pontos do planeta. E assim nascia definitivamente o Rock pelo mundo. E assim nasciam praças roqueiras pelo mundo. Uma cultura global que começou a fixar acampamentos para atuação local. Para, com sua semente fértil em terras férteis, poderem abandonar a sobrevida, evoluindo para vida. Para deixarem de ser nômades.

No Brasil especificamente, meu entendimento (claro), é que a terra fértil que fez o rock brotar, era justamente o ABC Paulista. Uma terra de seres sociais sedentos por dialogar e compartilhar uma visão de mundo e que encontrou no rock a sua mais que justificativa; a sua própria razão de ser.

Por meio do rock, uma coletividade jovem começava a encontrar espaço e voz para se manifestar culturalmente em uma região que se acinzentava por seus parques industriais, químicos e petroquímicos de pessoas do mundo todo. Um novo conjunto de valores sem graxa, fuligem, poluição ou maquinário pesado e barulhento surgia no seio daquela juventude, que fugia das escolas formadoras de operários para desespero dos pais que não entendiam muito bem aquele processo de assimilação cultural exterior (que falei no artigo anterior) trazido pelos nômades e que, por aqui, começava a se instalar e a se reproduzir.

Ora, se o mundo veio até aqui e não só bateu à nossa porta, mas a ela adentrou e por aqui ficou (deixou de ser nômade), é porque é com o mundo que temos a tratar. E assim, aquele jovem de outrora aprendeu, senão, o primeiro princípio do rock: a universalidade. O rock se coloca acima de qualquer pretensão local, quase sempre dominadora, seja por um capitalista no controle do mercado ou por um político no controle cultural de sua massa.

A aceitação de nossa sociedade juvenil pelo suco cultural daquela semente roqueira do mundo preencheu uma lacuna social num vácuo desigual que se formava na região; de enriquecer economicamente e permanecer estagnada culturalmente, visto que cedia, como sempre cedeu, à gestão da informação da sua cidade vizinha: a poderosa capital de São Paulo.

O objetivo daquele acampamento de músicos e jovens que se aculturavam (de quem muito falaremos), agora era bárbaro. E ia além de firmar colunas, mas de sulcar a terra, marcar caminhos e deixar ideias, conclusões e novas ideias... Era cravar respeito e atenção em uma nova e específica forma de ver o mundo, por meio da música roqueira. Uma fértil visão em uma fértil e acertada terra, no vasto e produtivo campo cultural que provou ser, o ABC.

Daí a importância de sempre nos lembrarmos da herança deixada pelos nossos antepassados. Porque eles deixaram de ser nômades aqui. Porque escolheram aqui para cultivar o rock. Porque a nossa terra (que aceitou e recebeu o rock), propiciava isso e, em muito, por conta dos bárbaros daqui. Porque precisamos conhecer nosso passado para, no futuro, possamos dele bem usufruir. Assim como foi e é também no mundo, por onde o rock se instalou. Por cultura, por espírito e, acima de tudo, porque o homem nunca é o primeiro homem...

Voltemos ao presente. No próximo artigo desta série, intitulado Acampamento Bárbaro, trataremos desses seres sociais que, por meio de uma cultura universal – simbolizada pela guitarra, começavam a romper com a cultura industrial local para preencher com arte as lacunas suburbanas deixadas pelo ônus do progresso, contribuindo como bônus, dessa forma, na formação do que viria a ser o homem urbano. Porque como já disse antes aqui: Rock é também sinônimo de urbanidade. Conto com vocês! Até lá!!!

Crédito: Peter Fischer/Pixabay

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