Data: 25/03/2019 15:28 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Paulo Porto - pesquisador cultural, músico contrabaixista, letrista e roqueiro do ABC

O ABC do Rock – Os Camisas Pretas (S1 – A1)

Vamos falar de cultura? Vamos falar de rock? Vamos falar de ABC? Ótimo! Então nós vamos falar do Rock do ABC!


Olá! Sou Paulo Porto, roqueiro daqui do ABC e desde a década de 1.990 pesquiso a história roqueira de nossa região, em especial a sua primeira geração – período que compreende o final dos anos 50 até o final dos anos 70. Os primórdios de uma bárbara e valorosa geração e sua fascinante luta por voz em uma sociedade bruta e operária, mas que se urbanizava vertiginosamente em seus 50 tons de cinza.

Uma molecada nem um pouco a fim de refrear seus sentimentos e sonhos, mas ao contrário, sedenta para manifestar sua rebeldia incontida, em construir sua história, em deixar sua marca, encontrando no efervescente rock mundial a sua melhor forma de expressão.

Uma história oculta, não registrada, não contada, mas devidamente reverberada pelos hertz do tempo e assim ecoada até os dias de hoje pelos meios mais consuetudinários de continuidade cultural.

Evidente que aceitei com muita satisfação o convite do Portal ABC do ABC para, juntos, compartilharmos com vocês um pouco da riqueza desse baú enterrado, cujas histórias e lendas urbanas datam de mais de meio século, cabendo a nós, que gozamos da jovialidade extemporânea dessa cultura, registrá-la e difundi-la. Original, competente, fluente e influente, posso afirmar que suas preservadas e envelhecidas qualidades se equiparam ao potencial de guarda de um, no mínimo, excelente vinho.

Mas antes de curtirmos juntos nossa história roqueira que aqui semanalmente será contada, permita dizer a vocês como fui me enfiar nisso:

Na verdade, apesar dos entraves e dificuldades em se fomentar cultura neste País, muitas foram, muitas são e muitas ainda serão as razões que me motivam a nunca abandonar o projeto que intitulei “O ABC do Rock”. Entretanto, uma dessas razões é que desde sempre me intrigou uma questão: Por que o ABC é o ABC? É porque André está ao lado de Bernardo, que está ao lado de Caetano? Seria nada mais que uma coincidência geográfica? Ou teríamos, de fato, uma cultura própria, fosse ela qual fosse, mas capaz de nos dar uma identidade cultural que pudesse determinar a nossa regionalidade? Ou não? Será que somos mesmo mais uma zona periférica que cedeu à gestão da informação da (ok) maior cidade da América Latina (São Paulo)?

Curiosamente, vários anos depois, em uma matéria publicada no jornal Diário do Grande ABC (em 23/06/2005), um jornalista de nome Alessandro Soares foi até intelectuais e artistas em busca do que seria também a minha resposta: Algo justifica o ABC ser o ABC? A reportagem concluiu que não. Nada faria do ABC o ABC. Nenhuma das diversas mentes (inclusive acadêmicas) identificava isso. Muito amparado pelo fato, aliás, de que identidades são criações e projetos e não realidades empíricas.

Afinal, justificavam, no ABC não havia nenhum ‘dialeto’ ou modo próprio de se vestir ou um prato culinário típico, enfim, nada nem do ponto de vista cultural, social, econômico ou, principalmente, político (a quem eles atribuíam essa, digamos, culpa).

Éramos (e somos) conhecidos, na verdade, por conta de nossos polos industrial e petroquímico e, por conta disso, o ‘famosão’ movimento grevista, que viria até a alçar um dos seus operários à presidência da nossa República. Mas o fato é que isso ainda é pouco para se determinar uma cultura regional. Isso porque nem a industrialização e nem os sindicatos (mais de 15mil no Brasil) são exclusividades por essas bandas. E, artisticamente, como disse, integramos uma macrorregião cosmopolita, onde tudo se pasteuriza, onde tudo se confunde para que tudo se tenha...

E mesmo assim, diante da conclusão de que o ABC não possui, de fato, algo que o referencie, detive-me ao silêncio ensurdecedor de nossas guitarras para, em meu íntimo, discordar. E hoje, convoco você, meu amigo, minha amiga, para discordar comigo, pois o ABC é o ABC porque aqui tem cultura regional, sim senhor! Aqui é a terra dos roqueiros!

E são essas histórias interessantes e intrigantes que aqui serão contadas, registradas e revividas, pois contribuem sobremaneira ao que devemos entender como o enraizamento bárbaro do que hoje deve ser visto como um verdadeiro movimento de cultura regional: o ABC fez e faz do rock um meio de vida, uma cultura que deve ser mais que reconhecida: deve ser respeitada!

Imaginem: desde o final dos anos 50 o rock do ABC se alheou ao mercado fonográfico, que o preteriu; sapateou na vigília eclesiástica, com seus tabus; suplantou a censura militar, que calava vozes dissonantes; e solou livre sobre as hegemonias políticas, com seu controle velado das liberdades. Resultado: atravessou intacto a gerações para, ainda que no capenga meio roqueiro que aí está, ser respeitado e há tempos visto pelos de fora como uma terra de roqueiros.  Tanto que, por eles, somos conhecidos como “os camisas pretas”.

E você vai saber que será por nós, os camisas pretas do ABC, por meio dessa identidade que, sim, nos regionaliza, que a nossa cultura atravessará nossas fronteiras para, definitivamente, inserir o rock também na cultura musical do País. Porque um País sem rock é um País subdesenvolvido. E como já passou da hora do Brasil se desenvolver, eis aqui, no rock de verdade, a nossa contribuição!

Ah, sim: uma segunda razão (para mim a principal) do por que devemos manter viva e cada vez mais difundida a nossa cultura é que, ao pesquisar e descobrir essa incrível geração formadora de roqueiros, me peguei diante da seguinte pergunta: é para mim um privilégio ser eu o conhecedor dessa cultura ou é para mim um egoísmo, ser eu o conhecedor dessa cultura?

Seja bem-vindo! Acompanhe-me nessa jornada! Esse caderno contará com publicações semanais. E você pode (e deve) contribuir: se você conhecer ou tiver contato com algum roqueiro “old school” do ABC, seja ele músico, produtor, ou um camisa preta, entre em contato conosco que eu irei até ele.

Muito obrigado ABC do ABC. Até a próxima semana, turminha!

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