Data: 15/05/2019 14:55 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Paulo Porto - pesquisador cultural, músico contrabaixista, letrista e roqueiro do ABC

O ABC do Rock – Acampamento Bárbaro (S1 – A5)

Está na hora do Rock do ABC assumir seu protagonismo na história do País. Está na hora do Rock do Brasil saber disso. O rock é o avanço civilizatório de toda sociedade que quer ser grande


Abandonando o nomadismo (artigo anterior), era em que o homem roqueiro decidiu se dividir e andar pela terra experimentando movimentos, cores e sabores musicais na busca de uma semente ideal que pudesse brotar e servir de alimento na formação do homem humano – apenas, pareceu, o homem, ter encontrado simultaneamente a terra fértil em vários pontos do planeta. Iniciava-se, pela década de 1.950, a sua era bárbara de fecundação de sua semente.

E uma vez acampados e prontos para sua barbárie, o que encontraria o rock como desafio maior em seu desenvolvimento cultural? Ora; acompanhar o desenvolvimento de toda a sociedade que quer ser grande. E do ponto de vista da estética – para que se tenha uma ideia – todos os diversos e consagrados estilos musicais de até então eram categorizados principalmente por raça, por nacionalidade, por região e até por religião. Era desse modo que o mundo avançava como civilização: segregado.

Ok, sabemos que caminha assim até hoje, do mesmo modo como sabemos que, embora universal, o rock ainda não logrou se consagrar universalmente – caso do Brasil, por exemplo, mas esse é um ponto que até cabe luz de melhor análise, não sendo o caso agora.

O fato é que o maior desafio dos bárbaros do rock foi cultivar a terra em que se assentaram a fim de vingar o fruto de sua semente, completamente miscigenada de todas as principais vertentes musicais até então segmentadas para seus exclusivos públicos.

Afinal, já havia o homem roqueiro se libertado de seu estado de sobrevivência que o mantinha a mercê de fatiamentos culturais não ruins, mas que o impediam de ver o todo. Estava agora em busca da “vivência” para, quem sabe, alcançar dessa forma o estágio máximo da vida: a convivência.

Ao mesmo tempo em que o homem urbano (ou que se urbanizava) – aquele ser social que buscava dialogar com o mundo e romper com a divisão de homens – instala-se na periferia de sua busca uma proposta universal de música (o rock), uma igualmente bárbara revolução cultural da qual tal urbanidade poderia nela bem se encontrar.

Já aqui no Brasil, o centro cultural da música estava em conflito. Enquanto uma forte corrente folclorista fortalecia suas bases no nacionalismo, a fim de criar um lastro de identidade autêntico para a musica brasileira em um conceito de “tradição” apegado às músicas dos anos 20 e 30 (calcada no samba e no choro de Pixinguinha, Noel Rosa, etc), as opostas e moderníssimas e brasileiríssimas MPB e Bossa Nova, que os folcloristas tratavam pobres suas inspirações musicais e seus versos inexpressivos ou de má linguagem, avançavam, galgando popularidade por sua visão política e de função social em suas canções.

O que parecia em muito se tratar de uma comunicação mais fácil, melodramática e até apelativa para os padrões da época, no entanto, poderia muito bem ser uma ruptura.

Em realidade, a visão era essa: Uma força política que buscava ser hegemônica começava a criar uma nova indústria cultural brasileira e as rádios, açambarcadas nessa – nesse tom “popularesco”, começavam a ditar o que o jovem brasileiro deveria ouvir.

Bom, mas como não sou um historiador da música brasileira, me aterei à nossa região, onde um acampamento bárbaro de roqueiros havia recentemente se instalado. E no ABC, com bastante pujança, também as ditas bandas de baile determinavam o que o jovem deveria ouvir.

Assim, para melhor discorrer sobre essa fase histórica, nos apeguemos ao conceito de que as bandas de baile eram o centro. As bandas de baile eram a cultura. E o rock era a periferia. O rock era a barbárie. A periferia quer o centro. A barbárie quer ser cultura.

Nesse processo civilizatório, o centro (que é estático), evidente, vai buscar repelir a invasão da periferia (que é dinâmica) sobre ele e, desse modo atuará de duas formas: para afastar o avanço das ideias que o coloquem em risco – mantendo-as praticamente utópicas dentro daquele acampamento; e articulando o caos, ou seja, organizando as forças bárbaras para que briguem entre si, exercendo, de certo modo, determinado domínio sobre elas.

Do mesmo modo que a periferia busca o centro, também toda barbárie busca ser cultura. Assim, para refrear a barbárie, a cultura central se utiliza de duas ferramentas: atração e organização. Ou seja, para atrair aquela sociedade bárbara para sua cultura como um meio de desarticulá-la (interferindo na sua formação [doutrinação], massificando informações centrais sobre ela, etc); e organizando-a, de modo a conduzir a barbárie conforme seus interesses.

Um exemplo real de atração eu citei no terceiro artigo dessa série, quando disse que a música “(I Can’t Get No) Satisfaction” foi desarticulada nos EUA, sendo proibida nas rádios com a desculpa hipócrita de que continha “conotações sexuais”, entretanto a operação se frustrou, pois a música bombou nas rádios piratas e caiu no gosto daquele homem urbano que queria dialogar com o mundo, rompendo, dessa forma, o controle, atingindo – naquele ano de 1.965, antes mesmo de seu país de origem – o 1º lugar na Billboard. Os bárbaros ali acampados marcariam seu primeiro gol: Barbárie 1 x 0 Cultura.

E um exemplo real de organização reside no fato de que o próprio rock, nesse início de barbárie, foi cooptado pelos conceitos da então “Indústria cultural” (Escola de Frankfurt), que buscava organizar o rock para exercer o domínio na forma e nos meios de se “produzir” cultura para a sociedade jovem de então, a fim de, indiretamente, exercer poder sobre ela. Mas o rock era mais que isso, ocasião em que arrisco dizer que a criatura engoliu o criador, fazendo-o vítima de sua própria criação. Barbárie 2 x 0 Cultura.

Vê-se que o rock nasce de um sonho coletivo, um espírito universal muito mais forte e resistente que qualquer forma de manifestação cultural, ainda que arte, ainda que bela, ainda que igualmente verdadeira. Eu costumo comparar o rock a um quadro sem molduras: pois, posto que mais bela seja a sua pintura, mais fascinante será o seu poder de ultrapassar as fronteiras de sua própria criação, tornando limitadoras molduras completamente desnecessárias.

Ah, sim: vale destacar o fato de que uma periferia jamais será centro se uma barbárie não for cultura. Porque o que movimenta o povo não é nem o amor e nem o temor ao seu líder, mas seu próprio sentido de evolução de vida. E, sendo a barbárie cultura, finalmente o centro perderá o seu poder e a periferia passa a ser, então, o novo centro. E isso aconteceu com o rock nos EUA, Inglaterra + Europa, Japão, Austrália, etc, etc, etc...

Vê-se que nos países desenvolvidos o poder de atração e organização da cultura vigente não foi capaz de cooptar ou dissuadir o jovem para si ou para o nada, pois o acampamento bárbaro virou centro, porque o rock fecundou como cultura. E note: tanto assim o é que modificou a estrutura de categorização da música – se é de preto ou de branco, de igreja ou do mato, etc., para sonoridade musical – diante da capacidade criativa do homem como homem mesmo. Digo isso no rock, especificamente, e não na música como um todo, pois essa ainda é repercutida pela força das industrias culturais que ainda existem.

E, posso garantir: aqui no ABC o rock também vingou dessa mesma forma. A diferença ainda está no fato de sermos um País de pouco ou quase nenhum meio de informação dinâmico, ou seja, independente do Estado que sobre isso, infelizmente, ainda exerce a sua dominadora influência. Entretanto, o ABC ignorou as forças de atração e organização da cultura vigente para fazer de sua barbárie uma cultura; uma terra de roqueiros que há décadas dialoga com o mundo.

E antes que alguém possa refutar no campo das ideias essa assertiva, quero citar um último exemplo das semelhanças de povos que assentaram seus acampamentos bárbaros, entretanto de diferentes culturas de liberdade pela Terra: a histórica e musical Seattle de Ray Charles e Hendrix, nos EUA, produziu, nos anos 90, um último boom do rock no mundo – o movimento Grunge, conhecido por todos. Pois bem. A Grande Seattle é uma região de 5,5 milhões de pessoas e conta com 166 rádios. Pouco mais de 33mil habitantes por emissora de rádio. A Grande São Paulo é uma região de 22 milhões de pessoas e basicamente 36 rádios FM, ou seja, uma para cada 600mil pessoas. O ABC é uma região de 2,2 milhões de habitantes e uma rádio AM...

Há muito a fazer, ainda há o que romper. No ABC, por certo, o mais difícil foi logrado: a barbárie virou cultura. Agora é só caminhar para que a periferia seja vista como centro e, desse modo, romper nossas fronteiras ao reconhecimento e respeito do país ao rock. Essa é a razão desse nosso trabalho: difundir a história roqueira do ABC para o Brasil.

Nos artigos que se seguirão, vamos conhecer nossas bandas, nossos bárbaros guerreiros que fizeram do rock do ABC o mais puro e preservado celeiro de memórias e lendas urbanas roqueiras que se tem notícia. Muito obrigado por acompanhar! Até semana que vem!!!

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