Data: 19/07/2020 18:32 / Autor: Redação / Fonte: CBV

Renan faz 60 anos com uma história longa e vitoriosa

Atual treinador da seleção brasileira masculina de vôlei, Renan Dal Zotto é um dos ícones do esporte no Brasil


Crédito: Wander Roberto/Inovafoto/CBV

Renan completa 60 anos neste domingo, dia 19 de julho de 2020. A trajetória e a história no voleibol brasileiro são gigantes. Referência como atleta não só no país como no mundo inteiro, o nome Renan Dal Zotto virou sinônimo de qualidade dentro das quadras. Atuou como levantador no início da carreira, mas foi como ponteiro que se tornou ídolo e foi eleito o jogador mais espetacular do planeta, em 1985.

Para isso, foi preciso muito trabalho e dedicação. “Quando eu comecei a jogar, em 72, era paixão pura, imaginando o orgulho de um dia vestir a camisa da seleção brasileira. Com 16 anos, em 76, fui convocado pela primeira vez. Em 77 acho que começou a nascer um sonho. Foi a primeira vez que tivemos um treinamento centralizado. Para o Mundial juvenil, no Rio de Janeiro, nós tivemos uma seleção quase permanente. Ficamos treinando sete meses no Rio e teve período que tínhamos três sessões de treinamentos. Nós tínhamos um sonho. Éramos um bando de malucos que queria jogar e colocar o Brasil entre os melhores do mundo”, disse Renan.

Eles conseguiram. A histórica medalha de prata, que colocou a geração de Renan, ao lado de ícones como William, Montanaro, Xandó, Amauri, Bernard, entre outros, ficou conhecida como a Geração de Prata. Eles e a medalha são um marco até hoje e provavelmente para sempre serão. Mas, Renan considera um período anterior a esse de fundamental importância para a construção desta história.

“Em 82 acho que foi a grande virada. Muita gente acha que foi em 84, nos Jogos de Los Angeles, com a medalha de prata, mas eu acredito que em 82 foi a grande explosão do voleibol. Tenho matérias dessa época mostrando parques lotados de redes de vôlei e isso foi muito bacana. E teve um fato muito interessante em 82 que, para mim, Renan, aquele momento eu entendi a força que o voleibol estava chegando”, afirmou o técnico, que relembra o episódio:

“Nós fomos campeões do Mundialito e vice mundiais neste ano e eu morava junto com outros atletas como Roese, Leonídio, Marcus Vinícius, e a minha cama era ao lado da janela. Acordei num domingo de manhã com barulho de bola. Até que consegui ouvir ´sacou Montanaro, passou Renan, William levantou, ponto do Xandó, ponto do Brasil´. Eles estavam falando nosso nome, o que até então era algo inimaginável. Aqueles garotos de 16, 17 anos estavam jogando vôlei e não futebol. Aquilo foi muito marcante e o momento em que eu percebi que o voleibol veio para ficar”, contou Renan.

De jogador mais espetacular do planeta ao atual técnico da seleção brasileira masculina de vôlei, Renan viveu muitos momentos marcantes. No intuito de resgatar um pouco da história do vôlei brasileiro e de um dos grandes representantes desta história, relembramos pedaços dela através das palavras do próprio Renan:

De fã a companheiro de seleção

“Em 76 fui para o Sul-Americano e ali foi meu primeiro grande desafio. Em 75, um ano antes de ser chamado, eu vi a seleção jogando e vi o Bernard atacando, o Bebeto levantando, enfim, era uma seleção muito boa e ali eu quase desisti. Achei que nunca fosse chegar neste nível. Um ano depois eu estava jogando ao lado deles”.

Levantador e ponteiro

“Em 78 eu fiz meu primeiro Mundial ainda como levantador, em Roma, ficamos em quinto lugar, e em 79 eu comecei a ser só atacante. Para mim foi muito bom ter tido esse aprendizado no início da carreira. Me tornou um atleta mais completo, mais dedicado em todos os fundamentos e sabendo valorizar a importância de cada um deles”.

O inventor do saque viagem

“Quando viajávamos, ficávamos meses fora. Em uma dessas, aproximadamente em 78, na China, tinha um chinês fazendo um saque lateral tirando o pé do chão. Aquilo me fez pensar. Por que não tirar os dois pés? Na Sogipa, em Porto Alegre, comecei a brincar de dar esse saque. Na final do Campeonato Gaúcho, em 79, estávamos perdendo, perguntei ao técnico se podia dar aquele saque e acabei fazendo uns 12 pontos. Ganhamos o jogo, o campeonato e comecei a brincar na seleção também. Rapidamente William e Montanaro também começaram e acho que a primeira vez que fizemos esse saque foi em 82, no Mundial, na Argentina. Hoje percebemos que é o saque utilizado por quase todos os atletas. A única diferença é que na época nosso saque chegava a 90, 100 por hora e hoje vemos saques a 120, 130 por hora. Antes o saque era a primeira ação do jogo. Hoje pode ser considerado o primeiro ataque”.

Trabalho de muitos

“Em 80 foi minha primeira Olimpíada, em Moscou, onde ficamos em quinto lugar. Era uma base de uma seleção que já vinha sendo construída desde o juvenil. Em 81 vieram as primeiras equipes com patrocínio e foi um conjunto de coisas que aconteceram com pessoas muito importantes que fizeram esse fenômeno que é a história do voleibol no Brasil. Para chegar a isso, é preciso um conjunto, uma obra feita por várias cabeças”.

Maracanã lotado

“Em 83 fizemos um jogo inesquecível no Maracanã, contra a União Soviética. Foi uma ousadia monstra naquele momento programar um jogo no Maracanã. Foi denominado ´O Grande Desafio´. Eles tinham o melhor time na atualidade e não perdiam um jogo há muitos anos até que nós vencemos no Mundialito. O jogo estava marcado para o dia 19 de julho, dia do meu aniversário, mas choveu muito e foi remarcado para o dia 26 de julho. Nós ligávamos para todo mundo para chamar e tentar encher o estádio. O Maracanã cabia mais de 100 mil pessoas e só pensávamos que seria um mico colocar 15 mil ali, que era o que cabia num ginásio. Estávamos todos muito ansiosos com aquilo. Lembro que no vestiário a gente ficava se perguntando se tinha gente. Na hora de entrar em quadra, quando eu vi aquilo lotado, a perna tremia. Foi uma festa maravilhosa, com 100 mil pessoas, e acho que o momento mais importante da história do voleibol aqui no Brasil. Vencemos por 3 a 1, mas isso foi o que menos importou. O mais importante foi entregar aquele jogo, apesar da chuva, a todas aquelas pessoas que estavam ali”.

Tensão pré-Olimpíada

“Em 84 conquistamos a prata em Los Angeles. Para mim foi muito difícil. Eu tive uma lesão grave no pé em um amistoso 15 duas antes dos Jogos Olímpicos. Fiz um tratamento intenso, recorri a tudo que foi possível. Estava praticamente fora dos Jogos, mas, como o regulamento não permitia trocas, o Bebeto perguntou se eu queria ir. Eu não tinha condição de jogo, mas quis ir e pensei em fazer de tudo para ajudar em algum momento. Fiz uma cirurgia espírita, muita fisioterapia, e o fato é que eu fui para os Jogos e consegui jogar da metade para frente. Não na minha melhor condição, mas dei minha contribuição. Acabamos perdendo a grande final e a sensação na hora que acaba o jogo é de que perdemos a medalha de ouro. Mas, depois vimos que ganhamos a prata. Uma medalha que se tornou parte da história”.

Mais espetacular do planeta

“Totalmente recuperado, em 85 eu vivi o meu melhor momento. Na Copa do Mundo, no Japão, fui eleito o jogador mais espetacular, o melhor atacante do mundo e foi muito legal pessoalmente, mas, por outro lado, fiquei triste porque queria ter feito tudo aquilo um ano antes, nos Jogos Olímpicos, e não consegui. Mas, faz parte da história e nós estamos falando de uma parte dela, já que o melhor ainda estava por vir, em 92, e dali em diante”.

O sucesso do vôlei brasileiro

“Muito planejamento, muita dedicação e muita ousadia no sentido de saber sonhar grande, tomar decisões importantes. Inovamos individualmente como o saque viagem e o jornada nas estrelas. Tudo isso fez com que o voleibol ganhasse um corpo muito grande. O vôlei viveu novas regras de acordo com a realidade do público, do momento, das circunstâncias, das entregas televisivas, do produto, enfim, e o Brasil sempre se adaptou muito bem a isso. Nem sempre o mais inteligente e o mais forte chegam em primeiro. Muitas vezes quem tem a capacidade de se adaptar ao novo é quem vence. E nós, brasileiros, temos isso”.

De volta à seleção

“Não estava no meu radar estar a frente de uma seleção brasileira naquele momento. Estava como diretor de seleções e quando eu recebi o convite falei não. Na segunda, de novo. E na terceira vez acabei aceitando. Na época o que eu mais escutava era que eu ia estragar minha carreira. E eu queria cumprir um papel importante e dar sequência a tudo que vinha sendo construído. Não pensei em substituir o Bernardinho porque ele é insubstituível. O voleibol é um projeto vencedor. Campeão, está. Mas, o maior desafio era manter o Brasil vencedor, entre os melhores do mundo. E seguimos no topo do ranking mundial, sem ter saído em nenhum ano. Somos líderes há 17 anos. Esse desafio foi cumprido”.

Resultados importantes

“O maior desafio, claro, sempre são os Jogos Olímpicos, e esse compromisso foi adiado. Nesse tempo, disputamos grandes competições. Fomos campeões na Copa dos Campeões, depois veio o vice no Campeonato Mundial, o título na Copa do Mundo, dois ouros no Sul-Americano, vencemos o Pré-Olímpico em uma partida histórica contra a Bulgária. Em 2017 fomos vice na Liga Mundial e depois em quarto e quarto nas duas edições da Liga das Nações. Dentro dos nossos planos precisávamos colocar os garotos em condições de jogo, já que a renovação sempre andou junto com os resultados. A Liga das Nações sempre serviu para colocarmos alguns garotos em condições”.

Preparação para Tóquio

“Conseguimos uma performance muito legal no ano passado, e isso fazia parte da preparação para os Jogos Olímpicos. Jogamos 45 partidas e vencemos 41, com aproveitamento de 92%. Só perdemos na Liga das Nações. Tudo isso fez parte do trabalho de construção, conhecimento de vários atletas que estavam chegando a seleção, como o Leal. Veio, então, o adiamento e nós temos que pensar da seguinte maneira: estamos vivendo um momento difícil, único, ninguém esperava por isso, mas está todo mundo no mesmo mar. Em breve estaremos todos no mesmo barco. E temos que pensar que ganhamos mais um ano de preparação. E o Brasil quando tem tempo para se preparar chega bem. Não é garantia de nada porque sabemos temos seis, sete seleções com condições de conquistar uma medalha olímpica em Tóquio. Mas, nós vamos estar entre os favoritos”.

O Banco do Brasil é o patrocinador oficial do voleibol brasileiro

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