Data: 30/07/2020 11:21 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Estadão Conteúdo

Gigantes de tecnologia são postas em xeque em depoimento histórico nos EUA

A indústria de tecnologia viveu ontem um momento histórico, com o depoimento simultâneo de Jeff Bezos, Sundar Pichai, Tim Cook e Mark Zuckerberg no Congresso dos EUA


Presidentes de gigantes de tecnologia são questionados na comissão antitruste da Câmara, nos EUA
Presidentes de gigantes de tecnologia são questionados na comissão antitruste da Câmara, nos EUA

Crédito: Reprodução

Presidentes das gigantes Amazon, Google, Apple e Facebook, respectivamente, eles tiveram de responder a perguntas sobre concorrência desleal, aquisições, uso de dados de clientes em uma sessão que durou quase seis horas.

Mais do que isso, viram seus modelos de negócios serem postos em xeque, no que pode ser o princípio de uma mudança significativa no status quo de quatro das cinco maiores empresas do setor no mundo, com valor de mercado conjunto que beira os US$ 5 trilhões.

Realizado pelo comitê antitruste da Câmara dos Deputados, o depoimento foi o ponto culminante de uma investigação que já dura 13 meses e amealhou 1,3 milhão de documentos. Parte deles, revelada ontem, pode mudar dramaticamente o Facebook: um conjunto de e-mails de Mark Zuckerberg mostra que, antes de adquirir o Instagram, ele via o app como um competidor e, por isso, decidiu comprá-lo por US$ 1 bilhão.

"O Instagram pode nos causar dano", escreveu Zuckerberg ao diretor financeiro do Facebook na época. Durante a sessão, Zuckerberg reafirmou essa visão e concedeu o mesmo status de rival ao WhatsApp, comprado pela empresa em 2014 por US$ 19 bilhões. Feita sob juramento, a afirmação pode colocar o Facebook em problemas, uma vez que comprar um competidor direto pode contrariar a lei de antitruste americana. "A aquisição do Instagram pelo Facebook se enquadra no que as leis foram desenhadas para prevenir. É algo que não poderia ter sido aprovado", disse o deputado democrata Jerry Nadler, de Nova York.

Zuckerberg respondeu que a aquisição não enfrentou oposição na época. Hoje, porém, o cenário mudou: o órgão está analisando ativamente aquisições feitas na área de tecnologia e pode chegar a uma nova conclusão, revertendo as transações e transformando Instagram e WhatsApp em empresas separadas.

Em um dos momentos mais tensos, a deputada Pramila Jayapal perguntou se Zuckerberg tentou clonar um produto de um rival após não conseguir comprá-lo, em referência ao Snapchat, cujas funções de mensagens efêmeras apareceram no WhatsApp e no Instagram. Zuckerberg negou, afirmando que "adaptou funções criadas por outros". A deputada respondeu: "Lembre-se que você está sob juramento", dando a entender que ele estaria mentindo.

Dados

Outro tema bastante presente durante o julgamento foi o do uso, pelas quatro gigantes, de dados de consumidores e concorrentes para influenciar seus negócios. A Amazon, por exemplo, foi acusada de usar dados de parceiros que usam sua plataforma para determinar que tipo de produtos a gigante deve desenvolver.

Na sessão, Jeff Bezos disse que a empresa tem uma política para prevenir isso, mas não pôde garantir à deputada Jayapal que a prática nunca tenha sido violada. O homem mais rico do mundo, com fortuna de US$ 180 bilhões, admitiu que constantemente vende sua caixa de som conectada, Amazon Echo, abaixo do preço de produção, e que a assistente de voz da empresa, Alexa, direciona consumidores para produtos da própria Amazon, duas atitudes que poderiam ser caracterizadas como concorrência desleal.

Sundar Pichai, do Google, também teve de responder a acusações sobre uso de dados de competidores. O democrata David Cicilline, presidente da comissão, citou e-mails empregados do Google discutindo sobre sites que estavam crescendo em tráfego. Segundo o democrata, os empregados "temiam que a competição vinda de certos sites pudessem reduzir a receita da empresa" e consideraram reduzir sua presença nos resultados da busca da empresa.

Com presença mais discreta, Tim Cook, da Apple, respondeu a questões sobre o poder da App Store, loja de aplicativos do iPhone - que cobra de alguns aplicativos comissão de até 30% sobre os pagamentos feitos por usuários. Na sessão, Cook ressaltou que a empresa veta apps para cuidar da privacidade e segurança de usuários.

Empresas chinesas, como Tencent e Alibaba, também foram citadas nos depoimentos. Quem levantou a bola foi Zuckerberg, que hoje disputa espaço com o app chinês TikTok. O líder do Facebook defendeu que regular empresas americanas daria fôlego às rivais chinesas, que não se pautam por valores "americanos", como democracia, livre concorrência e liberdade de expressão.

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