Data: 21/01/2020 09:06 / Autor: Redação ABCdoABC / Fonte: Estadão Conteúdo

Entrevista ao programa Roda Viva “Não tenho esse tipo de pretensão”, diz Moro sobre 2022

Sérgio Moro, negou, nesta segunda-feira, 20, uma eventual candidatura à Presidência da República, falou sobre Marielle e sobre o seu relacionamento com Bolsonaro


Crédito: Reprodução TV Cultura

A tônica da entrevista do ministro da Justiça, Sérgio Moro, ao Roda Viva, foi ditada logo no primeiro bloco: "Não contrario publicamente o presidente. Existe uma cadeia de comando”.

Moro se esquivou de todos os questionamentos quanto a condutas do presidente e de outros integrantes do governo que representam ataques a princípios democráticos, ou a instituições, ou que sejam contraditórios com a promessa de campanha de priorizar o combate à corrupção. Disse que se manifestou em privado ao presidente a sua opinião sobre o vídeo de inspiração nazista do agora ex-secretário nacional de Cultura Roberto Alvim, que chamou de “bizarro” e a situação era “insustentável”. Na entrevista, afirmou que não cabe a ele “comentar” todos os assuntos nacionais nem relacionados a outras pastas. “Não cabe ao ministro de Justiça e Segurança Pública ser um comentarista de tudo que acontece no Brasil. O presidente tomou a decisão absolutamente correta e rápida. Ele fala pelo Executivo”, afirmou.

Também não comentou os ataques sistemáticos de Bolsonaro à imprensa, nem as acusações que pesam sobre o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antonio, nem do titular da Secom, Fábio Wajngarten. Negou que haja uma situação de morde e assopra com Bolsonaro, afirmou que as discordâncias são normais. “Não vim aqui para falar sobre o presidente”, chegou a dizer.

ELEIÇÕES 2020

Com essa postura ao longo de todo o programa, Moro também evitou prospectar qual será seu futuro. Se esquivou de questões quanto a uma eventual ida para o STF e quanto à possibilidade de ser candidato a presidente em 2022. Disse que o “candidato do governo federal” na próxima eleição é o próprio Bolsonaro.

Em relação aos reveses do primeiro ano à frente do ministério, minimizou as derrotas e realçou as vitórias, entre elas a redução nos indicadores de criminalidade. Chamou as acusações da Vaza Jato de “bobajarada” e repetiu a linha de defesa: de que a autenticidade dos diálogos não está confirmada, mas se o teor for o divulgado, não há nada de indevido na sua conduta.

"Não tenho esse tipo de ambição. Temos de ter bastante pé no chão, existe o famoso ditado antigo que diz sic transit gloria mundi (toda glória do mundo é transitória, em latim). Então, essas questões de popularidade, elas vêm, vão, passam, e o importante para mim é fazer meu trabalho como ministro da Justiça, e foi o que eu me propus com o presidente, acho que estamos num caminho certo", afirmou.

Questionado se assinaria um documento em que se comprometeria a não concorrer, o ex-juiz da Lava Jato afirmou: "não faz sentido assinar um documento desse, porque muitas pessoas assinaram e depois rasgaram. Eu não tenho esse tipo de pretensão".

O presidente Jair Bolsonaro chegou a cogitar o nome do ex-ministro para seu vice nas próximas eleições. Pesquisa Datafolha divulgada em janeiro indica que o ministro da Justiça é conhecido por 93% dos brasileiros e aprovado por 53%. Antes, o mesmo instituto divulgou pesquisa de avaliação do presidente da República, Jair Bolsonaro, indicando que a aprovação dele é mais modesta, de 30%.

Moro, no entanto, afirma que o "candidato do presidente Jair Bolsonaro deve ser ele mesmo". "Ele já manifestou o desejo de ser reeleito", disse.

"Se um ministro do presidente Jair Bolsonaro, evidentemente, os ministros vão apoiar o presidente. É um caminho natural. Eu não tenho esse tipo de ambição. Eu posso dizer: minha vida é suficientemente complicada. Eu estou pensando no presente momento. Não posso pensar no que vou fazer daqui a dez anos", afirmou o ministro, que ainda especulou sobre a possibilidade de tirar "um ano sabático" ou de migrar para a iniciativa privada.

MORO AGORA SE OPÕE A FEDERALIZAR CASO MARIELLE

Moro afirmou que as críticas de familiares de Marielle a uma possível federalização do caso o fizeram mudar de posição. "(Os familiares) Levantaram, de uma forma não muito justa, que a ideia de federalizar era para que o governo federal, de alguma forma, obstruísse as investigações, o que era falso. Foi o próprio governo federal, com a investigação na Polícia Federal, que possibilitou que a investigação tomasse o rumo correto", disse Moro. "O governo não tem nenhuma intenção de proteger os mandantes desse assassinato."

Questionado se Bolsonaro concordou com a mudança de opinião, Moro disse ter "comentado" com o presidente, mas não entrou em detalhes. "O presidente sempre apoiou, sempre entendeu que isso deveria ser investigado. Houve essa investigação da PF (sobre obstrução) e nunca houve qualquer interferência indevida por parte do presidente. Nunca houve qualquer afirmação 'não faça isso, não faça aquilo', sempre se trabalhou para que os fatos fossem, da melhor maneira, elucidados", afirmou. "O governo é o maior interessado em elucidar esse crime", concluiu o ministro.

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