Brasil vai aos EUA tentar evitar tarifa de 25% imposta por Trump
Representantes da indústria e do agronegócio brasileiros participam de audiências promovidas pelo governo dos Estados Unidos para tentar impedir a sobretaxa de 25% sobre produtos do Brasil.
- Publicado: 06/07/2026 08:58
- Alterado: 06/07/2026 08:58
- Autor: Thiago Antunes
- Fonte: USTR
O setor produtivo brasileiro iniciou nesta segunda-feira (6) uma ampla ofensiva nos Estados Unidos para barrar o tarifaço. Representantes da indústria e do agronegócio participam de audiências públicas no Escritório do Representante de Comércio (USTR). A delegação tenta evitar a sobretaxa de 25% proposta pela gestão de Donald Trump.
As audiências do tarifaço compõem uma etapa decisiva baseada na Seção 301 da legislação comercial americana. Governos e empresas devem apresentar argumentos até a decisão final de Washington, prevista para 15 de julho. Equipes dos dois países alinham paralelamente uma última rodada de negociações de alto nível.
Impacto do tarifaço na indústria de transformação
A estratégia das entidades nacionais foca na forte integração econômica bilateral. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) argumentam que a sanção elevará os custos operacionais das próprias companhias americanas. Os segmentos paulistas de maior valor agregado lideram a exposição aos riscos.
Cálculos da CNI indicam que 31,6% das exportações brasileiras para o mercado americano pagarão taxa total de 37,5% caso a medida avance. A barreira atingirá diretamente 35,2% de toda a pauta exportadora nacional. Somando as sanções já ativas, 54,1% das vendas ficarão sujeitas a encargos extras.
A aplicação dessas barreiras afeta consumidores de ambas as nações. “A prática brasileira não é discriminatória, não é desleal nem ilegal do ponto de vista das regras internacionais do comércio, e não prejudica as empresas americanas“, afirmou Roberto Azevêdo, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da Fiesp.
Defesa técnica e diplomática
O governo federal enviou na última quarta-feira (1º) uma resposta oficial aos questionamentos americanos. O documento assinado pelo chanceler Mauro Vieira esclarece que as críticas aos sistemas financeiros e decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) refletem política interna. O governo brasileiro nega qualquer vínculo dessas questões com práticas comerciais.
Cadeias integradas de máquinas e siderurgia
A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) solicita a exclusão total do seu setor. O mercado americano absorve cerca de um quarto das vendas externas dessas empresas nacionais. Dados da entidade revelam que 82% das remessas ocorrem de forma intragrupo.
Esse nível de integração prova que um novo tarifaço encareceria a operação da própria indústria dos Estados Unidos, fortemente dependente de componentes certificados. “É muito difícil substituir um fornecedor de máquinas e equipamentos. Estamos falando de projetos de médio e longo prazo”, alertou Patrícia Gomes, diretora de Comércio Exterior da associação.
O Sindicato da Indústria do Ferro no Estado de Minas Gerais (Sindifer) também atua para blindar o ferro-gusa. Aproximadamente 83% desse insumo exportado pelo Brasil abastece siderúrgicas e fundições americanas. O sindicato classifica o fornecimento como uma matéria-prima de difícil substituição em curto prazo.
Agronegócio contesta pretexto para retaliações
Setores de mel, café solúvel e pescados mobilizam esforços nas audiências para escapar das sobretaxas. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) enviou manifestação formal ao USTR destacando a complementaridade do comércio agrícola. A instituição representa mais de 5 milhões de produtores rurais.
Os representantes do campo rebatem a ligação entre a expansão agrícola e o desmatamento ilegal usada como pretexto para justificar o tarifaço. A CNA comprova com dados oficiais que a produção nacional de grãos cresceu 213% entre 2005 e 2026. O desmatamento na Amazônia despencou 79% no mesmo intervalo.
As entidades rurais propõem fortalecer a cooperação em agricultura sustentável e biocombustíveis como via diplomática de resolução. O setor privado aguarda o desfecho das oitivas públicas e mantém o diálogo com parceiros internacionais para tentar esvaziar definitivamente os impactos diretos desse tarifaço.