Data: 04/03/2021 21:36 / Autor: Redação / Fonte: Divulgação

Rainer Cadete comemora 18 anos de carreira, em seu primeiro espetáculo solo

Espetáculo encenado em 1980 por Elias Andreato ganha nova montagem. Dessa vez Elias poderá revisitar a obra dirigindo o ator Rainer Cadete, que estreia espetáculo durante a pandemia


Crédito: Itamar Bethancourt / Divulgação

O espetáculo Diário de Um Louco, adaptado do conto homônimo de Nikolai Gogol (1809 – 1852), ganha nova montagem com Rainer Cadete interpretando um funcionário público atormentado. Elias Andreato, que em 1980 deu vida a esse personagem, também, tendo sido seu primeiro trabalho solo, vai revisitar a obra agora assinando a direção. O espetáculo estreia em curta temporada on-line de 13 a 28 de março, com sessões de sexta a domingo. Haverá tradução em libras em todas as sessões. A produção é de Priscilla Squeff e Leandro Luna.

A montagem, celebra 18 anos do ator Rainer Cadete. No texto, o personagem se perde na cronologia dos dias e, através de seu emprego numa repartição e da paixão pela filha de seu chefe, expõe seus pensamentos, anseios e percepções do mundo por meio de uma ótica de clausura e solidão de quem não e´ notado.

Para Elias Andreato, dirigir o espetáculo é como entrar em uma viagem no tempo. “Todo o meu corpo se mobiliza, todas as sensações. Fico lembrando o que eu sentia em determinados momentos, lembro o vigor, a força, o volume e o entendimento que tinha. Percebo que minha alma de artista se enriqueceu muito com este trabalho e essa construção do personagem, e, principalmente, lembro do diretor Marcio Aurélio que tanto contribuiu para o meu crescimento como artista.”

Escrito no século 19, o monólogo antecipa a fase áurea do realismo russo, com prenuncio do que viria a ser o surrealismo. “Neste momento, trazer a` cena um texto clássico sob uma perspectiva permeada pela realidade do século e´ 21 e´, ao mesmo, desafiador e necessário, pois apresenta a estética da linguagem e costumes da época de uma maneira crível e pertinente aos dias atuais”, diz Rainer.

“Penso que o espetáculo pode falar com as pessoas que vivem situações de assédio moral e que sofrem com o seu cotidiano mediano, mas sempre sonhando em estar numa posição superior para aliviar sua angústia, tristeza e raiva. Alguns convivem a vida inteira com isso e se tornam deprimidas, outros enlouquecem por não aceitar a realidade, que é o caso do personagem de Gogol. O espetáculo narra a trajetória de um funcionário comum, que não suporta sua vida medíocre. Gogol, nos coloca o amor impossível com um elemento a mais para detonar a grande loucura de se viver uma paixão impossível”, completa Andreato.

O autor retrata a vida de um funcionário público, Axenty Ivanovitch Propritchine, que vive a fantasia esquizofrênica do poder e da riqueza. Sua existência pobre e solitária se mostra no pequeno quarto em que vive, sua falta de importância no emprego e´ pateticamente simbolizada pela função que ocupa: funcionário de apontar penas de escrever. Para escapar da pequenez de sua vida, ele cria para si um mundo de fantasias, uma nova identidade que cresce ate´ fazer dele um rei. A segunda parte da história, o coloca em um manicômio. Metáfora sobre a alienação, o texto mergulha profundamente nas causas sociais da loucura, mostrando que, na cisão entre realidade e desejo, entre o mundo que se oferece para ser vivido e o mundo a que não se tem acesso, cria-se um abismo que cinde a personalidade.

Rainer Cadete teve seu primeiro contato com o texto através do Elias Andreato, com quem trabalhou anteriormente na peça O Louco e a Camisa, dos mesmos produtores.  Durante a pandemia causada pela COVID-19, e também impactado pela solidão imposta pela quarentena, mergulhou nas palavras deste clássico e o trouxe a uma realidade que dialoga com as camadas humanas reveladas neste momento delicado e de grande reflexão para a sociedade.

Um pequeno quarto onde o personagem vive compõe o ambiente cênico. A iluminação registra o passar das horas, percorrendo o dia e a noite. O figurino de época registra o período em que a obra foi escrita. A trilha com o piano forte e delicado de Sergei Rachmaninoff traduz a loucura e a melancolia do personagem.

“Todos nós temos uma pouco do Ivanovitch, pois a vida é muito dura e, em algum momento, nos sentimos inferiorizados por este sistema opressor de uma sociedade que é muito cruel algumas vezes. Todos nós nos sentimos, em algum momento, não pertencendo, sofrendo alguma espécie de bullying por estar fora do padrão que a sociedade impõe, então esse personagem encontra com a gente nesse lugar, ele fala com cada um que assiste. Em especial ele se perde por amar de demais. E quem nunca sofreu por amor?”, questiona Rainer.

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