Data: 11/04/2013 17:07 / Autor: Redação / Fonte: Libris

Cinema como formação e resgate da memória comum

Milton Bellintani (*)


Nos anos 1970, a cidade de São Paulo contava com mais de 170 salas de cinema. Embora a maior parte se concentrasse no centro e adjacências, era comum encontrar boas salas em bairros. Só a Avenida Santo Amaro, no corredor para a zona sul, entre a Brigadeiro Luís Antonio e a Avenida dos Bandeirantes, contava com três: Vila Rica, Guarujá e Graúna – depois, Chaplin. Hoje, a cidade tem menos de 10 salas convencionais fora dos shopping centers, conjuntos comerciais e espaços culturais privados. A Cinemateca Brasileira, na Vila Mariana, e o Cinesesc, na Augusta, são dois desses espaços da resistência cultural paulistana. Assim como a Matilha Cultural, na rua Rego Freitas.

Além das salas comerciais, sindicatos, associações de bairro, universidades e escolas públicas mantinham cineclubes em que valia a máxima: “um projetor de 16 mm em condição de uso, um bom filme para assistir e uma plateia ávida por debater”. Lembro-me de haver assistido aos clássicos “Os companheiros”, do italiano Mário Monicelli, e “Actas de Marúsia”, do chileno Miguel Littin, numa subsede do Sindicato dos Padeiros, no bairro da Lapa. E de ter acompanhado os debates com fome de aprender, animado pela curiosidade dos meus 18 anos.

A experiência cineclubista viveu seu auge entre o final dos anos 1970 e a década de 1980, com o Cineclube Bixiga, na rua 13 de Maio, o Elétrico, na Augusta, e o Oscarito, na Praça Roosevelt. Este último, como herdeiro de uma das salas do antigo Cine Bijou, já abalado pela crise que levou ao seu fechamento definitivo anos mais tarde. A razão do sucesso era simples: uma programação com bons filmes, muitos até pouco tempo antes proibidos pela ditadura civil e militar de 1964 – como “A Classe Operária vai ao Paraíso”, “Sacco e Vanzetti”, “Mimi, o Metalúrgico” e “Encouraçado Potenkin”, entre outros –, e um público sedento de informação e em busca de formação. Eram jovens, em sua maioria, que esperavam pelos debates após a sessão com o mesmo interesse que tinham pelo filme em questão. Além de assistir, buscava-se conversar sobre o significado de cada obra e, principalmente, que relação os assuntos debatidos tinham com a nossa realidade. E dessa reflexão coletiva extraímos um aprendizado tão importante como o obtido na universidade.

No velho Cine Bijou, em 1977, assisti também ao documentário “Corações e Mentes”, sobre a guerra do Vietnã, que fez a cabeça de jovens de todo o mundo contra a lógica do mais forte tomar pela força aquilo que acha que pode tomar apenas por ser militarmente mais forte.

Desde 2010, o Projeto Cine Bijou – Cinema e Memória, desenvolvido pelo Núcleo de Preservação da Memória Política, vem retomando essa tradição. O nome da iniciativa visa resgatar a importância do cinema de rua em São Paulo. E a programação visa trazer à tona o debate sobre filmes que ajudam a compreender a história brasileira e sua relação com acontecimentos mundiais, como a Guerra Civil da Espanha (1936-1939), a luta anticolonial na África e a atuação dos Estados Unidos no ciclo de ditaduras cívico-militares na América Latina – em que o golpe de 1964, no Brasil, representou um salto de qualidade no controle da região a partir de Washington e na disseminação do terrorismo de Estado, com o emprego da tortura, assassinatos e desaparecimento de opositores dos regimes.

O Teatro Studio Heleny Guariba, dirigido pela atriz Dulce Muniz, tem sido parceiro do Núcleo Memória nesta iniciativa. Não por acaso ou mera afinidade de ideias, e sim porque no endereço que ele ocupa – Praça Roosevelt, 184 –, funcionou uma das salas do Cine Bijou original: a Sérgio Cardoso, que homenageava um dos grandes atores do teatro brasileiro.

A terceira edição do Projeto Cine Bijou começou em março, com a exibição do filme “1964 – Um golpe contra o Brasil”, produzida pelo Núcleo Memória e dirigida por Alipio Freire. As inscrições para assistir ao filme nos 80 lugares da sala se esgotaram em poucas horas. E o debate com o diretor após a sessão se prolongou por duas horas. Nas semanas seguintes, o Projeto realizou três sessões em unidades no Cursinho da Poli, na capital, uma no Museu da Imagem e do Som de Campinas e também um debate na Escola Nacional Florestan Fernandes, do MST, em Guararema (SP).

Até novembro, serão realizadas outras nove sessões do ciclo. A próxima, marcada para 20 de abril, sábado, mostrará o filme “Verdades Verdadeiras – A vida de Estela”, sobre a trajetória e a luta da líder das Abuelas de Plaza de mayo, Estela de Carlotto, cuja filha, grávida, foi sequestrada e assassinada em 1977 pela ditadura argentina. As avós argentinas, com sua luta, recuperaram até o momento 108 netos separados de suas famílias após a execução de seus pais pelo regime. O neto de Estela, Guido, nascido na prisão em 28 junho de 1978, não está entre eles. Três dias antes, a Argentina se sagrou campeã do mundo de futebol pela primeira vez, vencendo a Holanda por 3 a 1, tendo o ditador Jorge Videla nas tribunas do Estádio Monumental de Nuñez, em Buenos Aires.

(*) Jornalista, coordenador do Projeto Cine Bijou e diretor do Núcleo de Preservação da Memória Política. 

Comente aqui