Data: 23/05/2022 14:43 / Autor: Redação / Fonte: Museu Judaico de São Paulo

Botannica Tirannica, nova exposição de Giselle Beiguelman no Museu Judaico de São Paulo

Na mostra Botannica Tirannica, artista cria plantas com IA, perturba nossa concepção de natureza e cultiva um jardim com espécies que refletem e desafiam o racismo científico


Obras da série Flora mutandis criadas por Giselle Beiguelman com recursos de Inteligência Artificial.
Obras da série Flora mutandis criadas por Giselle Beiguelman com recursos de Inteligência Artificial.

Crédito: Giselle Beiguelman | Museu Judaico de São Paulo

De 28 de maio a 18 de setembro, o Museu Judaico de São Paulo apresenta sua primeira grande exposição de 2022. Em Botannica Tirannica, mostra inédita concebida especialmente para o Museu, a artista e pesquisadora Giselle Beiguelman investiga a genealogia e a estética do preconceito embutidos em nomes populares e científicos dados a plantas como Judeu errante, Orelha-de-judeu, Maria-sem-vergonha, Bunda-de-mulata, Peito-de-moça, Malícia-de-mulher, Catinga-de-mulata, Ciganinha, Chá-de-bugre, entre muitos outros. 

A mesma lógica se observa em nomes científicos, entre os quais são comuns palavras como virginica, virginicum e virgianiana para designar flores brancas; e Kaffir, uma palavra que é altamente ofensiva aos negros e considerada na África subsaariana um equivalente da palavra “nigger” que se convencionou chamar N-word, pelo grau de violência social que carrega. 

Um dos ícones da exposição é a a planta popular Judeu errante (Tradescantia zebrina), título de uma narrativa medieval que foi um dos baluartes da propaganda nazista e que tem o mesmo nome em várias línguas, como alemão, francês e inglês, sendo uma das muitas expressões depreciativas usadas contra os judeus.

Reunindo imagens e vídeos produzidos com IA, e um ensaio audiovisual, a artista Giselle Beiguelman propõe uma investigação estética e conceitual a respeito do imaginário colonialista presente no processo de nomeação da natureza, cujas espécies, caso das plantas ditas “daninhas”, recebem nomes ofensivos, preconceituosos e misóginos.

Em conjunto com seu Jardim da resiliência, que ocupa as áreas externa e interna do Museu e onde são cultivadas espécies dotadas de nomes ofensivos e preconceituosos, na série Flora mutandis a artista cria com a Inteligência Artificial seres híbridos, plantas reais e inventadas, em um jardim pós-natural. 

“O patriarcalismo está entranhado no discurso científico. Na divisão binária das plantas criada por Lineu, há as ‘masculinas’, que têm órgão reprodutor masculino androeceu (do grego andros, homem), e são superiores às ‘femininas’,  que têm gineceu (do grego gyne, mulher)”, analisa Giselle. 

Para a artista, “a botânica clássica antropomorfiza o mundo vegetal e faz das plantas um espelho do homem”. “O modo como se nomeia o mundo é o modo como se criam as divisões, os preconceitos, e se consolida o pensamento binário”. Por isso, afirma a artista, “a nomenclatura é um ritual de apagamento”. 

A extensa pesquisa realizada durante um ano e meio permitiu reunir nomes de centenas de plantas que Giselle Beiguelman organizou em cinco grupos: antissemitas, machistas, racistas, e discriminatórios com relação a indígenas e ciganos (uma palavra contestada por associar grupos como roma e sinti a trapaça e roubo). Muitas dessas plantas têm sido categorizadas tradicionalmente como “ervas daninhas”, sempre combatidas, nunca erradicadas, característica que acabou sendo adotada pela artista como um manifesto de resiliência e de resistência, propondo um contra-discurso. 

A artista destaca que as ervas daninhas, uma invenção colonialista para designar plantas “parasitas” e sem utilidade econômica, foram uma metáfora do discurso eugenista, “uma forma de racismo científico que defende a ideia de que o mundo é um jardim e que as chamadas ervas daninhas devem ser eliminadas para que a humanidade possa florescer”, diz. 

A eugenia foi um movimento idealizado no final do século 19 pelo britânico Francis Galton, inspirado em seu primo Charles Darwin, que propôs o uso de práticas científicas dedicadas a melhorar características genéticas de gerações futuras a partir de seres humanos selecionados, descartando os demais.

O uso da Inteligência Artificial, ao mesmo tempo ferramenta e objeto de crítica, foi feito por meio de redes neurais generativas (StyleGAN): “Para tanto, estimulamos um curto circuito nos parâmetros da IA, de modo a rever os sistemas de padrões do mundo ocidental, que classifica tudo em categorias, centrais no pensamento taxonômico e nos pressupostos das metodologias de trabalho com IAs. Assim, ao mesmo tempo em que analisamos como parâmetros estéticos são criados a partir de preconceitos, usamos engenharias reversas para indicar caminhos para uma próxima natureza, sem categorias superiores dominando categorias inferiores”, afirma a artista.

Também produzidos com IA, cinco vídeos, um para cada grupo de pesquisa, compõem a série Flora rebelis. Um ensaio audiovisual de 15 minutos passeia pelos fundamentos e processos do trabalho de investigação e criação da artista, desde o nascimento da botânica até o uso de IA. 

Também compõe a mostra o Jardim da resiliência, jardim circular montado no recinto expositivo e intervenções em áreas externas. Arrematando esta exposição de múltiplas mídias e linguagens, estão presentes três luminosos com as frases Toda erva daninha é um ser rebelde, A nomenclatura é um ritual de apagamento e Mais clorofila, menos cloroquina. 

A mostra também conta com obras do artista convidado Ricardo Van Steen, que produziu sete aquarelas inéditas, de estética naturalista e científica, em que retrata jardins imaginários a partir de cada um dos grupos de pesquisa.

Para Felipe Arruda, diretor executivo do Museu Judaico de São Paulo, “a mostra Botannica Tirannica está totalmente alinhada a uma das vocações do Museu de mapear, trazer à tona e desconstruir preconceitos, contribuindo para uma sociedade mais informada, consciente e que respeita a diversidade”.

A curadora da mostra, a crítica e pesquisadora Ilana Feldman, afirma que "Giselle Beiguelman é uma criadora de imagens dedicada a pensar a natureza das próprias imagens na contemporaneidade, mobilizando de maneira crítica, imprevista e inventiva a relação entre estética e política, arte e tecnologia”. 

Giselle Beiguelman é artista e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAUUSP). Pesquisa arte e ativismo na cidade em rede e as estéticas da memória na contemporaneidade. É autora de Políticas da imagem: Vigilância e resistência na dadosfera (UBU Editora, 2021), Memória da amnésia: políticas do esquecimento (Edições SESC, 2019), entre outros. Suas obras artísticas integram acervos de museus no Brasil e no exterior, como ZKM (Alemanha), Jewish Museum Berlin, MAC-USP e Pinacoteca de São Paulo. Recebeu vários prêmios nacionais e internacionais, como o Prêmio ABCA 2016, da Associação Brasileira dos Críticos de Arte e The Intelligent.Museum, com Bruno Moreschi e Bernardo Fontes, promovido pelo ZKM e Deutsches Museum (2021).

O Museu Judaico de São Paulo (MUJ), espaço que foi inaugurado após vinte anos de planejamento, é fruto de uma mobilização da sociedade civil. Além de quatro andares expositivos, os visitantes também têm acesso a uma biblioteca com mais de mil livros para consulta e a um café que serve comidas judaicas. O MUJ conta com patrocínio da Fundação Arymax, Antonietta e Leon Feffer, Sergio Zimerman, Banco Itaú, Banco Safra, Instituto Cultural Vale, Lilian e Luis Stuhlberger | Verde Asset Management, Hapvida, entre outros apoiadores essenciais para a realização.

Serviço

Botannica Tirannica, de Giselle Beiguelman
Museu Judaico de São Paulo (MUJ)

Curadoria: Ilana Feldman

Período expositivo: de 28 de maio a 18 de setembro
Local: Rua Martinho Prado, 128 - São Paulo, SP

Funcionamento: Terça a domingo, das 10 horas às 18 horas
Ingresso:  R$ 20
Classificação indicativa: Livre 

Acesso para pessoas com mobilidade reduzida

Comente aqui