Somos tão solidários quanto gostamos de parecer?

Entre campanhas e gestos cotidianos, a solidariedade exige ir além da visibilidade para transformar urgências em mudanças capazes de permanecer no tempo

Somos tão solidários quanto gostamos de parecer?

Crédito: (Imagem/Magnific)

Vivemos uma época curiosa. Nunca foi tão fácil descobrir que alguém precisa de ajuda e, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas ferramentas para mostrar ao mundo que estamos dispostos a ajudar. Uma fotografia, uma campanha ou uma publicação podem transformar uma intenção em um gesto visível em poucos minutos. A tecnologia ampliou extraordinariamente nossa capacidade de mobilização, e isso é positivo. O problema começa quando a visibilidade da solidariedade passa a ocupar o espaço que deveria pertencer à própria transformação.

Talvez seja necessário, então, enfrentar uma pergunta desconfortável: somos realmente uma sociedade mais solidária ou apenas nos tornamos melhores em demonstrar solidariedade? Essa provocação não diminui o valor de uma doação, de uma campanha ou de qualquer ajuda concreta. Uma refeição pode matar a fome, uma bolsa de sangue pode salvar uma vida e uma cadeira de rodas pode devolver autonomia. A solidariedade diante da urgência é necessária e continuará sendo. Mas ela não deveria nos impedir de olhar para a realidade que produziu aquela necessidade e perguntar por que tantas urgências continuam se repetindo.

A diferença entre ajudar e transformar

Solidariedade - ONGs - Terceiro Setor
(Imagem/Magnific)

É justamente nesse ponto que ajudar e transformar começam a seguir caminhos diferentes. Ajudar significa responder à necessidade que está diante de nós. Transformar exige compreender por que aquela situação existe e o que pode ser feito para que ela não continue acontecendo. Uma atitude pode resolver o problema de hoje; a responsabilidade social procura construir condições para que o mesmo problema não precise ser enfrentado novamente amanhã.

A diferença parece simples, mas muda profundamente a maneira como enxergamos nossas ações. Vivemos em uma sociedade que aprendeu a celebrar o gesto da solidariedade, mas nem sempre demonstra a mesma disposição para acompanhar o processo. Uma campanha pontual produz uma imagem, mobiliza pessoas e pode oferecer uma resposta imediata. A construção de autonomia, por outro lado, exige tempo, planejamento, persistência e compromisso. É muito mais fácil participar de uma ação do que permanecer diante de um problema pelo tempo necessário para compreender suas causas e ajudar a construir uma solução.

Essa responsabilidade também não pertence exclusivamente a um setor da sociedade. O cidadão tem sua parte, porque cidadania não se resume a cobrar soluções dos outros. As empresas também possuem responsabilidade, já que sua presença na sociedade não termina nos resultados financeiros. E o poder público carrega uma obrigação ainda maior: transformar necessidades recorrentes em políticas públicas permanentes, capazes de produzir mudanças estruturais em vez de apenas oferecer respostas emergenciais.

O que permanece quando a campanha termina

Uma sociedade responsável não deveria medir apenas quanto arrecadou, quantas campanhas realizou ou quantas pessoas alcançou. Precisa também olhar para aquilo que aconteceu depois que a mobilização terminou. Se uma família recebeu alimento hoje, conseguimos contribuir para que amanhã ela tenha mais autonomia? Se uma pessoa com deficiência encontrou uma porta aberta, estamos trabalhando para que outras também sejam abertas? Se uma empresa investiu em determinada comunidade, o impacto termina junto com a campanha ou passa a integrar um compromisso permanente?

A mesma reflexão vale para o poder público. Quando um governo cria um programa para responder a uma necessidade social, é preciso observar se aquela iniciativa resolve apenas uma emergência ou se contribui para construir uma política pública capaz de permanecer e produzir resultados ao longo das gerações.

Essas perguntas não diminuem o valor de quem ajuda. Pelo contrário, elevam o significado da ajuda. Responsabilidade social não deveria ser apenas a capacidade de aliviar uma necessidade imediata, mas também a disposição de compreender suas causas e participar da construção de soluções capazes de modificar aquela realidade.

Por isso, talvez a pergunta mais importante sobre solidariedade não seja apenas “quanto fizemos?”, mas “o que transformamos?”. A diferença entre essas duas perguntas ajuda a revelar se estamos construindo impacto ou apenas contabilizando ações.

A solidariedade que existe longe dos olhos dos outros

Solidariedade - ONGs - Terceiro Setor
(Imagem/Magnific)

Existe ainda uma dimensão mais incômoda dessa discussão. Em uma sociedade marcada pela exposição, tornou-se muito fácil transformar solidariedade em conteúdo. Fotografamos, publicamos, compartilhamos e acompanhamos a repercussão das nossas próprias ações. Isso não significa que o gesto seja menos verdadeiro, mas nos obriga a pensar sobre o lugar que o reconhecimento passou a ocupar naquilo que fazemos pelo próximo.

Depois de 27 anos de atuação social, o Adote um Cidadão aprendeu que nem toda transformação precisa ser visível para ser importante. Muitas vezes, as mudanças mais profundas acontecem longe das câmeras, sem grandes campanhas e sem qualquer possibilidade de produzir engajamento. São ações cujo resultado aparece na autonomia conquistada, na oportunidade criada e na trajetória que conseguiu seguir um caminho diferente.

Talvez seja justamente por isso que a solidariedade precise ser observada não apenas pelo gesto que conseguimos mostrar, mas pela transformação que ajudamos a construir. Ajudar continuará sendo necessário. Mobilizar pessoas continuará sendo importante. Comunicar boas iniciativas continuará tendo valor. O desafio está em não permitir que a aparência da solidariedade se torne mais importante do que aquilo que ela deveria produzir na vida das pessoas.

E é nesse ponto que a reflexão deixa de alcançar apenas empresas, governos e organizações sociais e chega a cada um de nós. Se ninguém pudesse fotografar, publicar, curtir ou compartilhar aquilo que fazemos pelo próximo, continuaríamos fazendo exatamente da mesma maneira? A resposta talvez diga muito sobre a sociedade que estamos construindo e, principalmente, sobre quão solidários realmente somos quando ninguém está olhando.

Dom Veiga

Dom Veiga - Adote um Cidadão - Responsabilidade Social
(Divulgação)

Dom Veiga é empreendedor social, peregrino e fundador do projeto Adote um Cidadão, organização da sociedade civil que há 27 anos promove a inclusão de pessoas com deficiência e o acolhimento de cidadãos em situação de vulnerabilidade social. À frente da iniciativa, desenvolve ações socioeducativas, esportivas e culturais que impactam comunidades em diferentes regiões do Brasil, unindo propósito, solidariedade e transformação social.

  • Publicado: 14/08/2026 17:38
  • Alterado: 14/08/2026 17:39
  • Autor: Dom Veiga
  • Fonte: Adote um Cidadão

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