São Bernardo do Campo

História

  • João Ramalho e a Vila de Santo André da Borda do Campo

    Conforme tradição oficializada no século XX, a idade de São Bernardo é contada a partir de 1553, data da fundação da Vila de Santo André da Borda do Campo por João Ramalho. No entanto, a localização precisa dessa vila ainda hoje é incerta, não havendo dela qualquer registro arqueológico conhecido. O historia- dor beneditino Frei Gaspar da Madre de Deus acreditava que ela se situava no local onde se instalaria, no século XVIII, a Fazenda São Bernardo, pertencente aos monges da Ordem de São Bento (área que atualmente integra a cidade de São Bernardo). Mais recentemente, contudo, o pesquisador Wanderley dos Santos defendeu a tese de que a vila localizava-se no vale do Ribeirão Guarará, em território do atual município de Santo André.

    Outra questão enigmática é a origem de João Ramalho: Alguns estudiosos, como o escritor Afonso Schmidt, suspeitavam que ele seria um judeu degredado; outros pesquisadores, como Afonso de Taunay (baseando-se em J. F. de Almeida Prado), levantaram a hipótese dele ter naufragado no litoral paulista, por volta de 1508. Sabe-se que, após chegar ao Brasil, passou a viver no planalto paulista com os nativos e envolveu-se nos conflitos tribais. Casou- se e teve filhos com Bartira, filha de um líder dos Tupiniquins, o cacique Tibiriçá.

    Em 1532, quando Martim Afonso de Souza ancorou na costa paulista, encontrou-o vi vendo entre os nativos. Ramalho acabaria se tornando intermediário na relação de Martim com os índios, ajudando-o a fundar a Vila de São Vicente, primeira cidade do Brasil. Pouco mais de duas décadas depois, em 8 de abril de 1553, a aldeia em que Ramalho vivia, no Planalto, foi  oficializada pelo  governador geral Tomé de Souza, recebendo o nome de Vila de Santo André da Borda do Campo. Ramalho foi nomeado Alcaide (cargo semelhante ao de Prefeito). Os padres jesuítas, que já possuíam um colégio na Vila de São Vicente, obtiveram autorização para instalar outro, que receberia o nome de Colégio de São Paulo, situado numa colina entre os rios Tamanduateí e Anhangabaú, nos limites do rocio de Santo André.

    Em 1560, tendo se formado um bairro no entorno do colégio dos jesuítas, e estando a Vila ameaçada por ataques frequentes dos índios carijós, o Governador Geral do Brasil, Mem de Sá, ordenou a transferência do povoado para as imediações do Colégio, o que deu origem à cidade de São Paulo. Extinguia-se assim o povoamento de Santo André da Borda do Campo, sem deixar qualquer vínculo conhecido com as populações que ocupariam posteriormente a região do ABC paulista.

    Os monges Beneditinos e o Povoamento da região

    A real origem histórica da atual cidade de São Bernardo do Campo está ligada à Fazenda São Bernardo, cujas terras estavam incluídas na sesmaria doada aos monges beneditinos em 1637, por Miguel Aires Maldonado, que, por sua vez, a tinha herdado de seu sogro, Amador de Medeiros. A ocupação da sesmaria somente se iniciaria em princípios do século XVIII, com a instalação da fazenda, cuja sede ficava entre o Ribeirão dos Meninos e o antigo Caminho de Mar, próxima ao local onde hoje se encontra a confluência das avenidas Vergueiro e Kennedy. Ali, em 1717, o Abade Frei Bartolomeu da Conceição ordenara a construção de uma capela dedicada a São Bernardo. Nesta ocasião, uma imagem de São Bernardo, esculpida no século XVII pelo Frei Agostinho de Jesus, foi transferida do Mosteiro de São Bento, em São Paulo, para ocupar a nova ermida. Batizada “São Bernardo”, a fazenda dos monges emprestaria o nome à povoação que iria se desenvolver em seu interior e arredores.1

    Em 1805, devido ao aumento da população local e da procura por serviços religiosos, o Bispo Diocesano Dom Mateus de Abreu Pereira transformou a igrejinha dos monges em capela curada, determinando a presença de “capelão secular... a fim de lhes dizer missa e lhes administrar todos os sacramentos”2. A atitude do bispo desagradou aos monges, que enxergavam nela uma interferência indevida sobre uma área que se encontrava em suas terras particulares. Iniciou-se aí um conflito que envolvia os monges, as autoridades diocesanas e os interesses populares. Por fim, em 1812, foi deter- minada a criação da Freguesia e da Paróquia de São Bernardo, instaladas provisoriamente na fazenda dos monges. Mas, diante das pressões dos religiosos, nova área foi escolhida, justamente o local onde hoje está o Largo da Matriz, nas terras que eram atravessadas pela antiga estrada que se dirigia a Santos (atual Rua Marechal Deodoro), cedidas por Manuel Rodrigues de Barros. Este foi o passo inicial  para o desenvolvimento do atual centro da cidade. Subsequentemente foram erigidas a Capela Nossa Senhora da Boa Viagem (1814) e o velho prédio da Igreja Matriz (inaugurado em 1825). O primeiro arruamento se deu em 1833 quando foram definidos os traçados iniciais das ruas hoje conhecidas por Padre Lustosa, Rio Branco, Santa Filomena e a retificação do curso da atual Marechal Deodoro.

    A Imigração, os Núcleos Coloniais, e a Criação do Município.

    Entre 1877 e os primeiros anos do século XX, o território de São Bernardo recebeu intenso fluxo migratório, constituído, sobretudo, de italianos que vinham para ocupar núcleos coloniais recém-criados pelo governo imperial. Aqui chegando, os colonos recebiam lotes, distribuídos pela Comissão Estadual de Colonização, nos quais deveriam, dentro do prazo de seis meses, roçar e plantar uma área mínima de mil braças quadradas, com a respectiva construção de uma casa com, pelo menos, 400 palmos quadrados. O colono somente teria direito à obtenção do título definitivo da propriedade após seu pagamento integral e desde que totalmente saldados quaisquer outros débitos à Fazenda Nacional. Enfrentando enormes dificuldades, que iam da necessidade da derrubada da mata nativa às grandes distâncias que separavam suas terras dos centros comerciais, além da ausência de uma infraestrutura urbana mínima.

    Os imigrantes dedicavam-se ao plantio da batata e uva. Com a fabricação de vinho dos núcleos coloniais, as famílias tradicionais adquiriram o hábito de tomar vinho acompanhado do tradicional frango com polenta, dando origem aos famosos restaurantes que fazem parte da atração turística da cidade conhecida popularmente como a “rota do frango com polenta”.

    A industrialização e a criação da Represa Billings acabaram com as vinhas, mas não com a produção de vinho. Atualmente produz- se o vinho artesanal com uvas compradas fora da cidade.

    A imigração multiplicou a pequena população da freguesia, que até então era inferior a mil habitantes e compostas, principalmente, de negros e descendentes de portugueses e índios. Em 1890, treze anos após seu início, aconteceu a instalação do município de São Bernardo, ato que atendia às reivindicações de um grupo do qual faziam parte políticos locais, o padre Lustosa, antigos sitiantes e também os imigrantes europeus.

    O processo que resultou na criação do novo município teve início em 1888 com a apresentação de um requerimento e um abaixo-assinado, por parte dos habitantes da então Freguesia, na Câmara Municipal de São Paulo; e com o encaminhamento do projeto de lei 83, de autoria do deputado Lopes Chaves, à Comissão de Estatística da Assembleia Legislativa Provincial. Após longo período de tramitação, o projeto foi aprovado pela Assembleia Provincial em 27 de fevereiro de 1889. Pouco tempo depois, em 12 de Março de 1889, a lei no. 38 foi sancionada pelo Presidente da Província, Pedro Vicente de Azevedo, oficializando-se assim a criação do Município de São Bernardo.

    Todavia, a instalação efetiva do município - fundamental para que o mesmo pudesse eleger suas autoridades e arrecadar seus impostos - só viria a acontecer em 2 de Maio de 1890, após novos tramites burocráticos e envio de novo abaixo-assinado dos moradores da cidade, desta vez à Secretaria de Governo do Estado. A instalação da Câmara dos Vereadores de São Bernardo aconteceu no dia 29 de Setembro de 1892, data da posse de sua primeira legislatura.

    As Primeiras décadas do Século XX e os Primórdios da industrialização

    Quando se desmembrou de São Paulo e se tornou município em 1890,  São Bernardo englobava em seus limites toda a região do atual ABC paulista. A sede da administração era localizada na Rua Marechal Deodoro, primeiramente num antigo casarão que encontrava-se onde atualmente está a Praça Lauro Gomes, depois na construção situada na altura do número 1325, espaço em que   hoje funciona a Câmara de Cultura. Locais que se tornariam ulteriormente grandes cidades como São Caetano, Mauá e Ribeirão Pires eram, nestes primeiros tempos, bairros ou distritos pertencentes ao Município de São Bernardo. O chamado Bairro da Estação (atualmente Santo André), de início integrando o Distrito de Sede junto com territórios que atualmente compõem São Bernardo do Campo, foi desmembrado em 1910, surgindo daí o Distrito de Santo André, a exemplo do que ocorreria com São Caetano em 1916 e ocorrera com Ribeirão Pires em 1896.

    Além de centralizar a administração política, a área correspondente  à atual São Bernardo do Campo gozava nos primórdios do séc. XX de um desenvolvimento econômico superior aos demais bairros ou distritos que integravam o antigo município, estimulado principalmente pela fabricação de carvão e pela então florescente indústria de móveis e serrarias. Dados estatísticos datados de 1909 indicam que os são-bernardenses contribuíam com a maior parcela da arrecadação municipal, com 28% do seu total, seguidos pelo Bairro de Santo André com 20%, o Distrito de Ribeirão Pires com 17% e Paranapiacaba com 11%. 3

    Contudo, a partir de uma lei de 1911 que concedia benefícios fiscais às empresas que se instalassem no município, este estado de coisas começou a se alterar: nas décadas de 10 e 20 muitas novas empresas vieram, preferindo a maior parte se instalar em locais próximos à estação ferroviária, favorecendo o Distrito de Santo André, que passou a se desenvolver num ritmo muito mais acelerado que São Bernardo.

    Os anos 30 marcariam o acirramento da rivalidade no âmbito político entre a sede e o distrito andreense, algo que as rixas futebolísticas entre “batateiros” são-bernardenses e “ceboleiros” de Santo André espelhavam claramente. O distrito já era uma potência de maior vulto que a Vila de São Bernardo, contendo indústrias de grande porte como a Rhodia e a Pirelli, enquanto que em território são-bernardense existiam basicamente pequenos e médios empreendimentos de base familiar (principalmente fábrica de móveis e tecelagens). Simultaneamente a esse desenvolvimento, surgia nos andreenses a ambição de transferir a sede municipal para o seu território. De maneira ilegal, os prefeitos já despachavam em Santo André, mesmo que oficialmente a sede ainda não tivesse sido transferida. As disputas eram agravadas com a atuação de prefeitos que procuravam concentrar suas ações nas regiões em que eram mais vinculados politicamente: na gestão de Felício Laurito (1933-1938), por exemplo, foram escassos os investimentos realizados em São Bernardo, região com a qual Laurito tinha poucos laços. Tornava- se cada vez mais difícil estabelecer prioridades administrativas sem desagradar a ninguém num município de tamanha dimensão, possuindo distritos economicamente robustos e com grupos políticos organizados, fortes o suficiente para reivindicar suas demandas.

    O Rebaixamento a Distrito e a Emancipação de São Bernardo

    Em 1938, o país vivia sob a ditadura de Getúlio Vargas. O ditador nomeava os interventores estaduais e lhes dava plenos poderes para rebaixar municípios à distritos, elevar estes à condição de cidade e para nomear prefeitos. Em 30 de novembro de 1938, depois de uma articulação de políticos andreenses, o interventor estadual Adhemar de Barros, assinou um decreto transferindo a sede do município  de São Bernardo para Santo André, sendo a antiga Vila de São Bernardo rebaixada a mero distrito.

    Descontentes com a  humilhante situação enfrentada pela cidade,  um grupo que reunia empresários, comerciantes, profissionais liberais, funcionários públicos,  operários e populares começou a se reunir para discutir a emancipação de São Bernardo. Sem grande prestígio político junto ao governo, esse grupo pouco podia fazer para recuperar a autonomia de São Bernardo.

    As reuniões do movimento autonomista aconteciam no “Bar e Café Expresso”, que ficava na esquina da Marechal Deodoro com Dr. Fláquer.  Bortolo Basso, dono do estabelecimento, sugeriu que o grupo procurasse o banqueiro Wallace C. Simonsen, proprietário de uma chácara na cidade (hoje conhecida como Chácara Silvestre). Empresário de prestígio nacional, Simonsen forneceria a força política que faltava ao grupo.

    Em maio de 1943, sob a liderança de Wallace C. Simonsen, aconteceu a fundação da Sociedade dos Amigos de São Bernardo. Criada com o objetivo principal de coordenar a luta pela emancipação, a sociedade contava com a participação de Pery Ronchetti, Nerino Colli, Ítalo Setti, Gabriel Nicolau, Plínio Ghirardello, Bortolo Basso, entre outros.

    Aproveitando-se de uma reforma administrativa que à época estava sendo planejada pelo governo estadual, o grupo solicitou a emancipação do município, alegando que o crescimento alcançado pela cidade – em termos de contingente populacional, arrecadação de impostos, etc. – era suficiente para justificar o pedido.

    Graças à persistência desse grupo e à influência política de Wallace C. Simonsen, o decreto lei 14.334 de 30/11/1944, que estabelecia a nova divisão político-administrativa do Estado e São Paulo, elevou novamente o distrito de São Bernardo à categoria de município. No dia 1° de Janeiro de 1945, o novo município foi instalado, agora com o denominativo ”do Campo” agregado ao nome “São Bernardo”. Wallace C. Simonsen foi nomeado prefeito e governou a cidade até 1947.

    A Industrialização de São Bernardo e a Transformação em Metrópole

    A inauguração da Via Anchieta, em 1947, marca o início de uma fase de acelerado crescimento em São Bernardo. Incentivadas pelas facilidades logísticas proporcionadas pela estrada, pela presença de mão-de-obra razoavelmente qualificada na região e também por alguns incentivos fiscais concedidos, um grande número de empresas estrangeiras se instalam na cidade. As indústrias e o enorme contingente de mão-de-obra que elas absorviam (contingente que aumentava exponencialmente com a chegada de migrantes de várias regiões do país) possibilitaram que a arrecadação da administração municipal aumentasse dezenas de vezes, transformando-a numa das cidades mais ricas do país.

    Rapidamente a pequena vila do início do século XX se transforma em uma grande metrópole: entre 1950 e 2000, o número de habitantes saltou de 30 mil para 700 mil. Como resultado da expansão populacional, boa parte das áreas verdes cederam espaços a novos loteamentos, que fizeram bairros antigos crescerem e novos bairros surgirem.

    Paralelamente ao crescimento industrial, desenvolveu-se na cidade um sindicalismo fortemente organizado e com grande poder reivindicatório, o que levou São Bernardo, no final dos anos 70 e início dos 80, a ser o palco de alguns dos mais expressivos movimentos grevistas já ocorridos na história do país.

    Na década de 90, a cidade foi afetada pelo impacto das alterações ocorridas na economia mundial. A abertura comercial e o acirramento da competição internacional impulsionaram transformações estruturais no mercado de trabalho e na organização da produção (que já se delineavam nas décadas anteriores). Em São Bernardo, o setor industrial perdeu parcela de sua importância, ao mesmo tempo em que crescia o setor de serviços e a economia informal.

    A São Bernardo dos dias atuais conta com os problemas próprios das grandes metrópoles, tais como a violência, a poluição e o déficit habitacional, todos inimagináveis décadas atrás. Por outro lado, alguns dados que mensuram o desenvolvimento humano da cidade apontam outra faceta deste processo: em 1970, a expectativa de vida que um indivíduo tinha em São Bernardo era de 52 anos, hoje ela passa dos 70 anos. A mortalidade infantil caiu mais de 10 vezes no mesmo período e simultaneamente houve um intenso crescimento da escolaridade média. Diante de tais informações é possível concluir que, de maneira geral, as condições materiais de vida melhoraram ao longo do tempo.

    Notas

    1 Além disso, a partir da lei municipal 230, de 1953, a comemoração do aniversário da cidade  passou a ser oficialmente realizada na data da morte de São Bernardo (20 de agosto) , apesar da idade do município ser contada a partir de 1553, ano de fundação da Vila de Santo André da Borda do Campo.

    2 Livro do tombo da catedral de São Paulo, 1747-1895, Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo, fls. 35

    3  Livro de Escrituração de Impostos Municipais-1909. Citado em Série Documentos Históricos Nº11 – A indústria. Divisão de Imprensa. PMSBC.